Os torcedores em Alexandria se preparavam para uma noite histórica. Desde a última classificação, em 1990, o Egito nunca tinha ficado em uma situação tão confortável para ir à Copa do Mundo. Se existia pressão, ela era mais pelo fardo do passado do que pelo cenário atual. Na penúltima rodada da fase final, os Faraós precisavam de uma vitória simples sobre o lanterna Congo-Brazzaville. Logo no início do segundo tempo, os anfitriões estabeleceram a vantagem. No entanto, os deuses do futebol não conceberiam uma conquista completa sem dramaticidade. O rito de passagem dos egípcios necessitava da agonia máxima para que o alívio se tornasse completo. Aos 42, os congoleses empataram. E aos 50, Mohammed Salah se transformou no enviado dos céus que abriu o mar de frustrações ao Egito. O farol que iluminou o caminho até a Rússia. O autor do gol da vitória por 2 a 1, que recolocou o país no Mundial após 28 anos.

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Ao longo da década passada, o Egito viu seu tricampeonato na Copa Africana de Nações se combinar com enormes decepções nas Eliminatórias. Durante os últimos anos, porém, o país foi alijado até mesmo das competições continentais. O declínio da geração dourada era uma explicação, mas não se continha em si. A crise se aprofundava bem mais, com os impactos da turbulência política estremecendo o futebol. Não apenas o campeonato nacional acabou afetado, mas sobretudo o Massacre de Port Said deixou chagas profundas, que resultaram em dezenas de mortes. Ainda hoje, o entrave político está longe de ser contornado. A seleção, ao menos, começou a indicar sua redenção durante os últimos meses.

De volta à Copa Africana de Nações em 2017, após três edições de ausência, o Egito fez o papel digno que se esperava. Conquistava placares apertados, mas avançava fase após fase. E depois da classificação heroica nos pênaltis contra Burkina Faso nas semifinais, chegou à decisão contra Camarões. A derrota com o gol tardio de Vincent Aboubakar acabou sendo um duro golpe aos Faraós. Entretanto, o futuro guardava uma glória maior. Aquela que gerações de torcedores egípcios nunca tinham desfrutado.

O sorteio para a fase final das Eliminatórias não foi dos mais afáveis. Gana se colocava como um rival bem mais acostumado a se dar bem rumo à Copa do Mundo, apesar da queda de qualidade no elenco, enquanto Uganda vinha em ascensão. O Egito, de qualquer maneira, conseguiu triunfar. As duas primeiras vitórias, contra ganeses e congoleses, impulsionaram o time. Uganda aprontou batendo os egípcios em Kampala, mas o troco viria com a revanche em Alexandria. Salah anotou o gol fundamental no triunfo por 1 a 0. Até que acontecesse o jogo decisivo deste domingo. Com o empate entre Gana e Uganda no sábado, os Faraós já sabiam que a vaga estava em suas mãos, precisando apenas vencer.

O Estádio Borg El-Arab estava abarrotado por mais de 80 mil torcedores, ornamentado com as cores da bandeira e fogos de artifício. Como era de se esperar, o Egito tinha a iniciativa, mas não encontrava tão facilmente o caminho do gol. No início do segundo tempo, inclusive, os Faraós dependeram de uma defesaça do goleiro Essam El-Hadary. Já a entrada do meio-campista Trezeguet incendiou o jogo. Logo na sequência, os Faraós abriram o placar. A zaga errou um corte e Salah ficou com a avenida aberta, tocando na saída do goleiro. Os egípcios permaneciam na dianteira e seguravam a classificação, até que o duro golpe acontecesse aos 42. A defesa assistiu ao cruzamento da direita e Arnold Bouka anotou o tento de empate, que parecia frustrar todos os planos.

A cada segundo que passava, o Egito precisava se conformar com seu passado de tragédias nas Eliminatórias. Mas não se entregava. Acreditava que o impossível ainda poderia se concretizar naquela noite. E a certeza veio aos 50, em um pênalti cometido por Beranger Itoua em Trezeguet. A comemoração pelo apito do juiz já parecia dar conta que a história estava feita. Os congoleses se desesperavam, enquanto a euforia entre os egípcios era visível. Faltava cobrar a penalidade, peso da responsabilidade que caberia a Mohammed Salah – um jogador talhado não apenas para ser o craque do time, por seu talento inegável, mas também para ser um dos líderes, por sua personalidade forte. Com uma segurança enorme, o atacante chutou onde o destino mandava: nas redes, para consumar o feito histórico.

Neste momento, não havia mais condições para a partida. Uma multidão invadiu o campo. Jogadores, membros da comissão técnica, torcedores: todos queriam celebrar o herói, em um abraço do tamanho do país, tão cindido nos últimos anos. Todo o tipo de gente estava no gramado, de homens engravatados a crianças descamisadas. A apoteose. Ainda assim, era preciso terminar o jogo. O árbitro teve o bom senso de apitar o final com mais um minuto de bola rolando. Então, ninguém mais poderia duvidar. O Egito estava de volta à Copa do Mundo. Até El-Hadary, a lenda de 44 anos que perseguia o seu sonho de disputar um Mundial, parecia um garoto ensandecido. Escalou o travessão e orquestrou a loucura total em Alexandria.

A classificação do Egito é a glória de vários personagens. De Héctor Cúper, o treinador que parecia fadado ao ostracismo, mas redescobriu a sua carreira ao montar um time pragmático, capaz de superar suas próprias barreiras. De Mohammed Salah, o ídolo que carregará a gratidão de seus compatriotas por toda a vida, diante daquilo que proporcionou nesta noite. De El-Hadary, o guardião que protege os Faraós desde 1996 e foi teimoso o suficiente para provar à geração de ouro que poderia cumprir sua missão. Que, mais do que isso, tem tudo para se tornar o jogador mais velho da história a disputar uma Copa. De Ahmed Fathy, outra bandeira da equipe nacional, que viveu o pesadelo em Port Said e, como outros companheiros tão traumatizados quanto ele, agora vai à Rússia.

Qual o papel o Egito fará na Copa de 2018? Sinceramente, esta é uma pergunta sem qualquer importância neste momento. A noite servirá para que os egípcios se desliguem um pouco das preocupações e dos problemas para comemorar como uma só nação. A nação que estará representada no Mundial novamente depois de quase três décadas, como tanto lutou para conseguir. A depender de todo o fanatismo dos torcedores locais, algumas das melhores imagens destas Eliminatórias estarão por vir. Com todo o êxtase coletivo que só a Copa do Mundo é capaz de provocar nestas proporções.