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Tiveram de criar um time para sustentar o estádio da Copa, e isso na organizada Alemanha

Realizar a Copa do Mundo em um país desenvolvido, cujo futebol costuma atrair multidões, não é garantia de sucesso para todas as sedes. Pois nem o Mundial de 2006, que teve o mínimo de trabalho para renovar os estádios da Alemanha, ficou alheio de problemas. Arenas novinhas em folha, como as de Düsseldorf e Mönchengladbach, acabaram excluídas da lista final do torneio no último momento, assim como a de Bremen, uma das 10 maiores cidades do país, que tinha sido reformada visando o torneio. Os germânicos optaram por ter uma grande dor de cabeça com Leipzig.

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Sem clubes nas duas primeiras divisões, a cidade era incluída entre as 12 sedes para representar a antiga Alemanha Oriental. O poder público se livrou dos gastos ao negociar com um empresário o estádio, construído sobre um antigo elefante branco do regime comunista. Mas foi só três anos depois da Copa, depois de inúmeras tentativas de venda, que a arena recém-inaugurada tornou-se rentável. Precisou de um clube odiado pelos antigos torcedores locais, bancado por uma grande multinacional: o RB Leipzig, da Red Bull.

Uma forma de integrar a Alemanha Oriental

Para sediar a Copa de 2006, a Alemanha venceu uma disputa apertada contra a África do Sul: 12 votos a 11 no Comitê Executivo da Fifa – sob a abstenção do delegado da Oceania, alegando uma “pressão intolerável” após receber cartas satíricas de uma revista alemã oferecendo presentes. O favoritismo e a simpatia da Fifa eram dos sul-africanos, recém-saídos do Apartheid e com a economia em crescimento. Prevaleceu a estrutura que os germânicos já tinham. Mas, em parte, também havia o apelo extracampo de realizarem o primeiro grande evento desde a reunificação do país, em 1990.

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Economicamente, a fusão política foi ótima para o lado oriental, que pôde se recuperar após a crise do regime comunista. Ainda assim, isso não significava que os orientais atingiram o mesmo nível de riqueza da antiga parte ocidental. Por exemplo, o PIB dos cinco estados que antigamente formavam o interior oriental, somados, equivale a metade do total da Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais rico dos ocidentais. E essas diferenças de poder, naturalmente, também se refletem no futebol.

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Desde que a Bundesliga se tornou uma só, acolhendo também os times da Alemanha Oriental, quatro times conseguiram disputar a elite da liga, só dois desde a virada do século. Em 1999/2000, o único time na primeira divisão era o Hansa Rostock, que ficou a uma posição do rebaixamento naquela temporada, embora o Energie Cottbus tivesse conquistado o acesso. Criava-se, então, um impasse: como aproveitar a ótima estrutura do futebol alemão se os orientais eram parte apenas da periferia?

Se a organização da Copa fosse seguir à risca a relevância dos clubes, provavelmente a Alemanha Oriental ficaria à parte do torneio. Ainda que Hansa Rostock e Energie Cottbus mantivessem médias de público razoáveis naquela época (16 e 10 mil, respectivamente), não havia o menor apelo para a reforma de seus estádios, quanto mais para a construção de um novo. As duas cidades não passavam de 200 mil habitantes, qualquer ação seria desperdício considerando o peso dos times ocidentais. No entanto, havia uma grande motivação política para a inclusão dos orientais. E esses interesses pesaram mais do que o futebol em si.

O velho elefante branco que ajudou Leipzig

Excetuando a parte de Berlim que ficava do lado de fora do muro, apenas duas cidades do lado oriental aparecem entre as 20 mais populosas da Alemanha: Dresden e Leipzig, que ultrapassam a marca de 500 mil habitantes. Se havia argumento para a inclusão de uma sede da região, deveria envolver um dos dois municípios. Dresden tinha como vantagem o fato de ser a capital do Estado da Saxônia, importante na política e na economia. Já Leipzig, que teve papel importante nos movimentos pela reunificação, vinha em franco crescimento, considerada o motor da região metropolitana da qual Dresden também é parte.

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Esportivamente, a situação das cidades era parecida. Em 1999/2000, Dresdner e Sachsen Leipzig se mantinham na Regionalliga, então a terceira divisão nacional. Enquanto isso, Dynamo Dresden e Lokomotive Leipzig, as duas potências locais nos tempos da Alemanha Oriental, se afundavam. Dois times ajudados pelos órgãos estatais comunistas que não conseguiram se adaptar à realidade do mercado capitalista. O Dynamo, que foi seis vezes campeão durante o regime e se manteve por quatro anos na elite após a reunificação, era rebaixado à quarta divisão. Reencontrou o Lokomotive, que também fazia parte da primeira divisão seis anos antes.

Zentralbild-Telefoto Bey-Krz. II. Deutsches Turn- und Sportfest in Leipzig Festlicher Aufmarsch und Sportschau der demokratischen Sportbewegung Im erstmals vollbesetzten, neuerbauten Zentralstadion in Leipzig fand am Sonnabend, dem 4.8.1956, vor 100 000 Zuschauern der festliche Aufmarsch und die Sportschau der demokratischen Sportbewegung statt. UBz: Blick vom Glockenturm während der Sportschau.

Assim, o que fez diferença para a escolha de Leipzig foi o projeto esportivo. Desde 1997, a cidade tinha planos de contar com um estádio que substituísse o Zentralstadion, antiga casa do Lokomotive. A construção tinha sido concebida ainda durante o nazismo, pelo mesmo arquiteto do estádio Olímpico de Berlim. Todavia, o estouro da Segunda Guerra Mundial impediu que saísse do papel. Somente durante a reconstrução da Alemanha é que a ideia foi retomada, com o gigantesco estádio concluído em 1956. As arquibancadas costumavam ficar lotadas durante o período comunista (até hoje, o recorde de público na Alemanha é do local, com 110 mil presentes), mas o declínio da economia e dos próprios clubes tornou o Zentralstadion um grande elefante branco.

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Para diminuir seus gastos com o estádio, a ideia da prefeitura de Leipzig era construir no local uma arena para o futebol, que aproveitasse as antigas estruturas. A ideia começou a sair do papel a partir de 2000, quando um empresário local assinou um contrato de reforma e operação do novo Zentralstadion. As obras tiveram gastos relativamente baixos, já que a fundação do velho estádio foi aproveitada – parte das arquibancadas foram reformadas, enquanto o trecho externo delas se tornou um enorme jardim. O custo total foi de € 90 milhões (o quarto mais barato entre os 12 estádios da Copa de 2006), dos quais € 51 milhões foram bancados pelo poder público, apesar do investidor privado que o assumiria na sequência.

Planos grandiosos para um estádio sem dono

O primeiro evento esportivo no novo Zentralstadion aconteceu antes mesmo da conclusão de suas obras: em 2002, o campo recebeu o Festival Alemão de Ginástica. Já no ano seguinte, a nova arena entrava na campanha de Leipzig para sediar os Jogos Olímpicos de 2012. Sem a pista de atletismo do antigo elefante branco, o local reformado serviria de apoio para a competição. Estava no projeto a construção de um novo estádio olímpico para 80 mil espectadores – sim, eles cairiam no erro outra vez. Contudo, o COI rejeitou a candidatura em janeiro de 2004, considerando que a cidade não cumpria os requisitos mínimos de infraestrutura para as Olimpíadas.

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Para a Copa do Mundo, ao menos, Leipzig estava preparada. O Zentralstadion foi reinaugurado em julho de 2004, embora fosse utilizado parcialmente desde março. Naquela ocasião, a cidade recebeu um torneio amistoso entre Sachsen Leipzig, Werder Bremen, Estrela Vermelha e Club Brugge. E, no fim do ano, a seleção alemã fez sua primeira visita à arena, derrotando Camarões em amistoso. O teste final para que o estádio recebesse as partidas da Copa das Confederações de 2005. Foram três partidas em Leipzig, incluindo a estreia do Brasil, contra a Grécia, e a decisão do terceiro lugar, na qual a Alemanha derrotou o México por 4 a 3.

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Por fim, a Copa do Mundo de 2006. Leipzig foi um dos estádios que menos recebeu jogos, quatro da primeira fase e um das oitavas de final – a vitória da Argentina sobre o México. No entanto, o objetivo da cidade já estava cumprido. Não tinha mais gastos com o Zentralstadion, ganhava com a exposição da Copa do Mundo, transformava-se em símbolo do esplendor da Alemanha Oriental sob o capitalismo. Mas não queria dizer que a situação era perfeita.

A procura de um dono para o estádio

Logo o investidor do novo Zentralstadion percebeu o tamanho do problema no qual havia se metido. O principal clube da cidade na época continuava sendo o Sachsen Leipzig, que chegou à nova casa em 2003/04. Os jogos contra o Borussia Dortmund II e o Dynamo Dresden tiveram bons públicos, com mais de 20 mil presentes, e a média da reta final da temporada foi satisfatória, com 11 mil torcedores por partida. O problema é que isso não evitou o rebaixamento do Sachsen para a quarta divisão. Na Oberliga 2004/05, a média não passou dos três mil espectadores.

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Em abril de 2005, o administrador do Zentralstadion tentou vendê-lo, mas não conseguiu. A partir de então, sua busca foi por alguém que topasse investir no estádio. O Sachsen seguiu sua epopeia nas divisões menores, passando dos 10 mil espectadores apenas duas vezes e mandando alguns de seus compromissos no Alfred Kunze Sportpark, sua antiga casa. Além da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, os únicos grandes eventos foram shows de Paul McCartney, Genesis e Bon Jovi. O fato de o estádio estar localizado no seio de uma metrópole de 2,4 milhões de habitantes ajudava, mas não pagava todas as contas.

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A salvação para o empresário só veio a partir de 2009. Após tentativas que envolveram o próprio Sachsen, ele conseguiu costurar um acordo entre a Red Bull e um pequeno clube da região de Leipzig, o Markranstädt, que disputava a quinta divisão alemã. Era o quarto time de futebol adquirido pela empresa, que já contava com o Red Bull Salzburg, o New York Red Bulls e o Red Bull Brasil (com sede em Campinas). Ali nascia o RasenBallsport Leipzig, ou RB Leipzig – que, por conta das leis esportivas da Alemanha, não pode carregar o nome da empresa. Além disso, como a federação não permite que um clube tenha menos de sete investidores e que um deles possua mais de 51% das ações, nove funcionários da marca austríaca passaram a administrá-lo. Neste pacote, o maior atrativo era o Zentralstadion, que a partir passou a se chamar Red Bull Arena.

Um novo futuro para a Red Bull Arena

A partir da temporada 2009/10, o RB Leipzig começou a ocupar o estádio, mas apenas nos clássicos municipais. A trajetória começou na quinta divisão, na qual tinha também como rivais o Lokomotive Leipzig e o recém-rebaixado Sachsen Leipzig. Partidas cheias em que as torcidas dos clubes tradicionais, à beira da falência, aproveitaram para execrar os novos ricos – o presidente do Lokomotive chegou a comparar o RB com o Bayern de Munique. Naquela mesma campanha, entretanto, os Touros Vermelhos confirmavam o primeiro acesso.

Apesar da relevância que o RB Leipzig ganhava, a torcida local se manteve alheia nos primeiros anos, mas acabou cedendo aos poucos. A média de público cresceu gradativamente nas três temporadas seguintes, de 4,2 mil para 8,1 mil espectadores por partida. De qualquer forma, os maiores públicos aconteciam em visita de clubes tradicionais da Alemanha Oriental em baixa, como o Magdeburg, o Chemnitzer, o Carl Zeiss Jena e o Hallescher. Já as primeiras vezes que o número de presentes superou os 20 mil foi justo contra o Lokomotive, que ascendeu à quarta divisão em 2012/13. Naquela mesma temporada, porém, o RB subiu à terceira.

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Pela primeira vez em uma divisão realmente regional, o RB Leipzig começou a encher a Red Bull Arena. A média de público dobrou nesta temporada, chegando a 16,7 mil pessoas por jogo. A melhor da Terceirona e a 27ª no geral da Alemanha, nada mal para um clube que nasceu odiado. E o apoio dos novos torcedores ajudou bastante em mais um acesso, rumo à segunda divisão da Bundesliga. No jogo em que confirmou a conquista, 42,7 mil espectadores lotaram a arena, o recorde de público para um clube.

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O objetivo da Red Bull é tornar seu time de Leipzig campeão alemão. Ao mesmo tempo, vai transformando o estádio antes subutilizado em um dos mais lucrativos do país. A seleção alemã voltou à arena duas vezes desde 2009, para um amistoso e um jogo das Eliminatórias da Copa de 2010. Já a associação com a marca também ajuda a impulsionar o número de shows, com visitas de AC/DC, Bruce Springsteen, Coldplay e Depeche Mode.

Cada vez mais, a exposição do RB Leipzig ajuda o estádio e a cidade. Na segunda divisão da Bundesliga em 2014/15, deve atrair ainda mais torcedores, embora também mais protestos – comuns em jogos de times alemães bancados por companhias, como o Hoffenheim (SAP) e o Wolfsburg (Volkswagen), e que são ainda mais corriqueiros nas partidas da equipe da Red Bull. Para Leipzig, porém, essas manifestações pouco importam. A despeito das camisas tradicionais, foi justo o clube-empresa mais escancarado da Alemanha que salvou o símbolo da reunificação do país através do futebol.

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