A Copa do Mundo é uma bela vitrine aos seus países-sede. O evento em si é uma grande oportunidade para trazer turistas. E não custa nada para os organizadores os colocarem na rota de lugares belíssimos. No Mundial de 2014, a cidade que mais tende a ganhar notoriedade internacional graças ao torneio é Natal. Que, mesmo maior e com o futebol bem mais vivo entre sua população, poderá aprender um pouco com Seogwipo, o paraíso natural da Coreia do Sul que foi incluído na Copa de 2002.

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A ilha de Jeju, onde está localizada a cidade, foi considerada uma das sete maravilhas naturais do mundo, em eleição realizada em 2011. Sempre foi um destino muito procurado por turistas da península sul-coreana, mas poderia ganhar ainda mais impulso com a visibilidade do Mundial. Foi o que pensaram as autoridades do país no final dos anos 90, ao construírem aquele que foi apontado pelo Livro Guinness dos Recordes como o estádio mais belo do mundo. Faltou apenas pensar na parte mais lógica: o esporte.

Balneário turístico na Copa do Extremo Oriente

A candidatura de Coreia do Sul e Japão foi ratificada para sediar a Copa do Mundo de 2002 seis anos antes. De início, os dois países asiáticos eram concorrentes na disputa pelo Mundial, mas resolveram unir forças para terem mais chances. Deu certo. Na votação do Comitê Executivo da Fifa, a campanha conjunta superou o México por aclamação dos dirigentes, sem precisar nem mesmo de votação formal. O desafio a partir de então organizar a primeira Copa da história em dois países.

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O primeiro entrave estava na escolha das sedes. Tanto sul-coreanos quanto japoneses já tinham imaginado as cidades beneficiadas em suas candidaturas independentes. Para manter os interesses, resolveram dividir o Mundial em dois: 16 seleções se fixariam apenas na Coreia do Sul durante a primeira fase, enquanto as 16 restantes se manteriam no Japão. Da mesma forma, as chaves dos mata-matas até a final também ficaram separadas entre os dois países.

Apesar disso, sul-coreanos e japoneses preferiram manter um número inflacionado de 10 estádios para cada lado. As 20 sedes daquela Copa receberam entre três e quatro jogos, não mais do que um nos mata-matas. Nem todas se justificavam. Embora a J-League e a K-League fossem campeonatos bem distribuídos pelos territórios nacionais, interesses além dos esportivos pesaram para a escolha das cidades.

Jeju sequer tinha um clube profissional. A província de 590 mil habitantes, todavia, possuía um forte apelo para ser apontada como uma das sedes: a ilha ao sul da península coreana é um dos maiores chamarizes de turistas do país. Embora a indústria e a pesca tenham seu papel, turismo é o verdadeiro motor da economia local. Anualmente, Jeju recebe cerca de 6 milhões de visitantes.

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O clima temperado, com média anual de temperatura de 16,6ºC, é um dos principais atrativos. As praias são bastante frequentadas, mas a estrutura geológica do local oferece passeios por montanhas, cachoeiras, cavernas e crateras de vulcão, também populares entre os turistas. E, com a realização da Copa do Mundo, a intenção dos sul-coreanos era aumentar a promoção de Jeju como destino mundialmente conhecido. Mais do que as partidas no estádio local, a repercussão da imprensa sobre a Copa ajudaria nessa intenção.

A construção do Jeju World Cup Stadium

Assim como aconteceria em Nelspruit oito anos depois, o estádio de Jeju fazia referência aos pontos turísticos em sua arquitetura. A estrutura da construção se assemelha à boca de um vulcão (o próprio campo está a 20 metros abaixo do nível do mar), enquanto a cobertura lembra a vela dos barcos dos pescadores locais. Além disso, a própria localização da obra ajudava a ressaltar as belezas naturais, a cerca de um quilômetro da costa sul, com o mar visível por parte das arquibancadas.

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O estádio foi construído na parte menos povoada da ilha, a cidade de Seogwipo, com 155 mil habitantes. Foram apenas três jogos da Copa no local: Brasil 4×0 China, Eslovênia 1×3 Paraguai e Alemanha 1×0 Paraguai. O suficiente para garantir alguns milhares de turistas, exposição ao turismo local, a presença dos dois finalistas no início de suas campanhas. Benefícios imediatos, mas nada a longo prazo. O estádio não foi dos mais caros, custando US$ 120 milhões, e estruturas temporárias permitiram que sua capacidade fosse reduzida de 42 mil espectadores para 35 mil, diminuindo também os gastos da manutenção. Ainda assim, o ônus era todo do governo da província de Jeju, que já tinha bancado as obras. Sem um clube que o utilizasse, o estádio não passava de um enfeite na bela paisagem da ilha.

Vista aérea de Seogwipo

Vista aérea de Seogwipo

Os estádios como pretexto para expandir a K-League

O Campeonato Sul-Coreano era relativamente recente quando a Copa foi levada para o país. A K-League passou a ser organizada a partir de 1983 e, como no Campeonato Japonês, estava fortemente ligado aos chaebols, os conglomerados empresariais sul-coreanos. Os clubes não eram apenas bancados por grandes indústrias, como também carregavam seus nomes – Hyundai Horang-i, Daewoo Royals e Suwon Samsung Bluewings são alguns dos exemplos mais conhecidos. Entretanto, essa estrutura ia na contramão dos planos da federação sul-coreana, que almejava uma competição distribuída pelo território nacional.

A chegada do Mundial era uma ótima ferramenta para os dirigentes executarem seus planos. Em 1996, quando se definiu a Coreia do Sul como sede, nove times faziam parte da K-League. A partir daquele ano, os organizadores da liga passaram a exigir que nenhuma cidade contasse com mais de uma equipe. Uma medida que afetava diretamente Seul, na época com três clubes: Ilhwa Chunma, LG Cheetahs e Yukong Elephants. E que, além de entrar no projeto de descentralização do futebol no país, mas também servia para a preparação à Copa.

Como o estádio de Seul impactou em Jeju

Apesar da existência do Estádio Olímpico de Seul, inaugurado para os Jogos de 1988, a Coreia do Sul planejava erguer para o Mundial um estádio exclusivamente para o futebol. O problema é a prefeitura da capital não tinha fundos para a obra integralmente. E expulsar os times de Seul era uma forma de pressionar as empresas para bancar a construção. Ficaria com a franquia da cidade quem aceitasse a proposta.

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O problema é que Ilhwa, LG e Yukong não aceitaram o abuso, transferindo suas sedes para cidades na região metropolitana de Seul a partir de 1997. E os organizadores da Copa tiveram que ceder na construção do estádio. Durante algum tempo ainda se estudou a possibilidade de reforma do Estádio Olímpico, mas o Estádio da Copa do Mundo de Seul acabou saindo do papel naquele mesmo ano, com suas obras iniciadas em 1998.

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A partir de então, a missão dos sul-coreanos era ocupar seus estádios da Copa. Erguer novas casas para o futebol no país, em certa medida, era também mostrar o incentivo à K-League. Cinco clubes ganharam estádios novos em suas cidades. Já o LG Cheetahs, cujos donos participaram da disputa pela construção pelo Estádio da Copa do Mundo de Seul, mudaram-se da vizinha Anyang para assumir a administração do local e foram rebatizados como FC Seoul.

Ao mesmo tempo, três das seis maiores cidades do país passaram a contar com novos clubes a partir de 2003: Incheon (2,9 milhões de habitantes), Daegu (2,5 milhões) e Gwangju (1,4 milhões). Não à toa, as três cidades mais populosas da Coreia do Sul que ainda não tinham clubes na K-League, com um mercado grande o suficiente para viabilizar suas criações. Clube das forças armadas, o Gwangju Sangmu foi profissionalizado, enquanto Daegu e Incheon United foram fundados do zero. Formas de consolidar a empolgação com a Copa do Mundo meses depois do fim do torneio.

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Faltava apenas Seogwipo. Dos 13 times que participaram da K-League em 2004, nove tinham estádios da Copa. Pohang Steelers e Chunnam Dragons, contudo, estavam satisfeitos com suas casas particulares, construídas no início da década de 1990. O Ilhwa Chunma, um dos expulsos de Seul, se fixou por três anos em Cheonan, antes de se mudar para a cidade de Seongnam – um acerto com a prefeitura local dava ao clube o Tancheon Sports Complex, inaugurado para servir de apoio ao Mundial. Já o Yukong Elephants tinha se tornado Bucheon SK e também ganhou uma das subsedes da Copa, o estádio Bucheon, aberto em 2001.

O fim da espera por um dono

Depois da Copa de 2002, com o impasse sobre a redistribuição da K-League, o Jeju World Cup Stadium ficou vazio. Pior, em agosto daquele mesmo ano, o tufão Rusa danificou parte da cobertura – o que rendeu diversas críticas sobre a segurança da construção. A seleção sul-coreana, que disputou amistosos contra Estados Unidos e Inglaterra em Seogwipo às vésperas da Copa, só voltou à cidade uma vez. Foi em 2007, quando derrotou o Iraque também em um amistoso. Além disso, apenas jogos das equipes olímpicas e sub-20.

Em 2005, o primeiro evento desde o Mundial, com a extinta Copa dos Campeões A3 (que reunia os vencedores das ligas de China, Coreia do Sul e Japão) sendo sediada no balneário. Já em 2007, o estádio recebeu a Copa do Mundo Sub-17, com nove jogos realizados no campo. Opções parcas para um estádio que sequer foi planejado para ser multiuso.

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Porém, o alento maior para os cofres públicos aconteceu um ano antes, em 2005, quando finalmente o governo da província conseguiu negociar a vinda de um clube da K-League: o Bucheon se tornou Jeju United. Ainda que a SK (antiga Yukong, a empresa dona da equipe) mantivesse raízes na Grande Seul, cedeu a franquia para Seogwipo na tentativa de atenuar os prejuízos com o elefante branco. Naturalmente, houve protestos da torcida em Bucheon, descontentes com a transferência. Nada que impedisse a mudança.

Vista do Jeju World Cup Stadium, em Seogwipo (AP Photo/Yonhap)

Vista do Jeju World Cup Stadium, em Seogwipo (AP Photo/Yonhap)

O Jeju United passou a ocupar o estádio de Seogwipo efetivamente a partir de 2007. O problema é que a fase da equipe não ajudava a empolgar e a crise econômica a mantinha entre os últimos colocados da K-League. A partir de 2010, com o vice-campeonato na liga, houve uma melhora de desempenho. Nada que empolgasse tanto assim os torcedores da ilha. Nas últimas três temporadas, o Jeju esteve entre as sete melhores médias de público, mas com apenas 7 mil torcedores por partida. O Seoul, rival do clube antes da mudança, se aproxima dos 15 mil. Pior, esse patamar também é insuficiente para fechar as contas da construção e manutenção do estádio.

O futuro do Estádio de Jeju

Nos últimos meses, a pressão pública sobre os gastos do governo da província de Jeju com o elefante branco da Copa de 2002 tem aumentado. Para tentar tornar o estádio mais rentável, o Ministério da Cultura investiu na construção de centros culturais no entorno do estádio, tentando atrair mais turistas ao local – em especial, os chineses. O déficit com a administração do Jeju World Cup Stadium nos últimos 12 anos é calculado em aproximadamente U$ 4 milhões. Segundo as previsões, as novas instalações renderiam US$ 150 mil ao mês.

Por mais que o turismo ajude a amenizar o peso das contas, não foi isso que evitou que o estádio de Seogwipo se tornasse um elefante branco. Se demorou para haver apelo para que um clube de médio porte se mudasse para a ilha, para grandes eventos ele é nulo – ao contrário do estádio Incheon Munhak, que está sem clube da K-League desde 2011, mas que em setembro receberá os Jogos Asiáticos, o principal evento esportivo do continente. E agora, depois de mais de dez anos de prejuízo, finalmente as autoridades de Jeju encontraram uma solução para que sua mais bela obra da arquitetura não se tornasse mera paisagem em um paraíso de belezas naturais.

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