Entre as ausências na convocação de Tite rumo à Copa do Mundo de 2018, nenhuma é mais comentada que a de Arthur. Não é difícil cair aos pés do talento do Grêmio, até pelo nível de suas atuações desde a conquista da última Copa Libertadores. As lesões recentes são um entrave ao jovem, até pela falta de sequência que enfrentou neste ano. Ainda assim, muita gente preferia vê-lo entre os 23. Se não fosse para ganhar terreno na Rússia, ao menos para ajudá-lo com rodagem, a quem tem bola para disputar mais alguns Mundiais no futuro. Não vai ser agora.

O caso de Arthur, aliás, remete a outros tantos no passado da Seleção. É comum que um ou mais jogadores, a cada Copa, sejam levados pelo Brasil para ganhar tarimba. Alguns casos são emblemáticos, afinal. Qualquer um cita de cor a oportunidade dada a Ronaldo e a Kaká nos dois últimos títulos brasileiros, em ambientes que ajudaram a forjar o caráter dos futuros líderes da equipe nacional. Ou então os torcedores se lembram de Neymar, negligenciado por Dunga em 2010, embora pudesse realmente ter auxiliado no Mundial da África do Sul. Como ele, há mais exemplos ainda, tal qual Enéas, que provocava suspiros na Portuguesa durante o início dos anos 1970 e, mesmo testado por Zagallo, aos 20 anos acabou de fora do elenco levado para Alemanha Ocidental em 1974.

Abaixo, relembramos 11 jogadores que foram à Copa do Mundo com este rótulo de “futuro da Seleção”: igualmente jovens, com poucas partidas na equipe nacional e que pareciam ser preparados ao longo prazo. Alguns deles até entraram em campo, ainda que o planejamento fosse mais amplo. Vale ressaltar que não consideramos necessariamente os mais jovens que já tinham certo espaço – vide o Pelé de 1958, Tostão de 1966 ou Clodoaldo de 1970. Além disso, priorizamos um nome por Mundial. Confira:

Moacir (1958)

Pelé é o suprassumo da precocidade quando se fala das apostas brasileiras em Copas. Vicente Feola teve o peito ao confiar no garoto de 17 anos. Mas a verdade é que, apesar de perder os primeiros jogos do Mundial, se recuperando de lesão, o camisa 10 já incendiava as partidas da equipe nacional. Deveria ser o titular, por mais que disputasse posição com Dida. Mazzola, aos 19 anos, era caso parecido. O rótulo de aposta ao futuro cabe melhor a Moacir, que despontara no time principal do Flamengo no fim de 1956. Voando no primeiro semestre de 1957, ganhou a primeira convocação juntamente com Pelé. E o meia seria integrado na preparação da Seleção rumo à Suécia, se destacando nos treinos e amistosos. O problema era concorrer com Didi pela camisa 8, já em seu segundo Mundial e um dos mais tarimbados do grupo. Assim, o novato de 22 anos serviu de alternativa no banco. Defendeu o Fla até 1961, ganhando mais uma convocação em 1960, antes rodar a América do Sul.

Jair da Costa (1962)

Embora a Copa do Mundo de 1962 seja lembrada por ter uma das maiores médias de idade da história da Seleção, elevada pelos vários remanescentes de 1958, também carregava uma boa dose de juventude. Pelé era nome óbvio, aos 21 anos. Coutinho tinha apenas 18, mas nem assim poderia ser considerado um novato, levando em conta a precocidade de quem estreou aos 14 anos e já vinha sendo utilizado frequentemente na Seleção. Amarildo, aos 22, começou a ser testado em 1961, graças ao sucesso do Botafogo. Talvez a maior aposta tenha sido mesmo Jair da Costa, também de 22. Sensação da Portuguesa vice-campeã paulista em 1960, fez apenas um amistoso em 1962, suficiente para ser reserva de Garrincha. Curiosamente, nunca mais entraria em campo pela Seleção, levado logo depois do Mundial à Internazionale, onde conquistou todos os títulos possíveis no timaço Helenio Herrera.

Edu (1966)

Em meio à quizumba que foi a preparação da seleção brasileira à Copa de 1966, Vicente Feola pôde olhar de perto muita gente jovem. E parte deles até pintou na lista final, sobretudo no ataque. Tostão era um jovem fenômeno de 19 anos no Cruzeiro; Jairzinho causava vendaval no timaço do Botafogo aos 21; e Alcindo, o Bugre, já era importante na linha de frente do Grêmio aos 20. Mas nenhum deles se compara a Edu, o rapazote de 16 anos que se impunha no esquadrão do Santos – um clube que, aliás, nunca teve travas para confiar em seus prodígios. Jogou sete partidas na preparação ao Mundial, mas não saiu do banco de reservas, entre as opções por Paraná e o próprio Jairzinho. Caso fosse a campo, quebraria o recorde das Copas como o mais precoce de todos. Ainda assim, segue como o mais jovem a ser incluído na lista final. Seria reserva também nos Mundiais de 1970 e 1974.

Leão (1970)

A grande revelação do Brasil na Copa de 1970 é Clodoaldo, aos 21 anos. O meio-campista, já em afirmação no Santos, estreou com a camisa amarela um ano antes do Mundial e acabou se tornando intocável a partir de março de 1970, em solução que gerou também o deslocamento de Piazza para o miolo da zaga. Outro que poderia ter sido titular era o lateral esquerdo Marco Antônio, de 19 anos. Virou titular meses antes e vinha bem na preparação, mas virou reserva para que Everaldo segurasse mais na defesa e Carlos Alberto ganhasse liberdade pela direita. A aposta de Zagallo, de qualquer forma, era Emerson Leão. O arqueiro do Palmeiras participou de dois amistosos na preparação e acabou integrado ao grupo em cima da hora. Foi o escolhido para substituir o lesionado ponta Rogério, do Botafogo, em clara opção por dar experiência ao goleiro, quando sequer era costume chamar três atletas à posição. No fim, o camisa 22 se tornou um dos jogadores brasileiros com mais Copas, indo ainda a 1974, 1978 e 1986.

Zé Sérgio (1978)

O Brasil vinha com uma boa fornada de jovens promissores no final da década de 1970. Alguns deixados de lado por Cláudio Coutinho até viraram motivo de discussão. Mas ele também trazia os seus talentos sem tanta rodagem na equipe nacional, a exemplo de Jorge Mendonça, Polozzi e Carlos. O grande prodígio do time era Reinaldo, embora sua fome de gols já causasse devastações no Brasileirão desde antes. Já a cartada maior foi em Zé Sérgio. O ponta são-paulino vinha em crescente com o clube e demonstrava um talento desconcertante. Quatro amistosos a um mês do Mundial ratificaram seu chamado e, aos 21 anos, vestiu a camisa 7, mas não entrou em campo na Argentina. Importante na sequência de Coutinho e também com Telê, as lesões atrapalharam seu caminho.

Silas (1986)

O ciclo de preparação à Copa do Mundo de 1986 foi um dos mais bagunçados à seleção brasileira. Entre os problemas de gestão na CBF e as trocas de técnicos, a equipe nacional passou certo período inativo. Telê Santana reassumiu a um ano do Mundial e, com várias questões sobre os seus veteranos de 1982, realizou alguns testes. No fim, a lista final refletiu estas apostas, e Silas talvez seja a principal delas. Aos 20 anos, o “Menudo do Morumbi” ganhou seu espaço às vésperas da viagem ao México e entrou durante o jogo decisivo contra a França. Voltaria para ser o camisa 10 em 1990, apesar de reserva. Assim como ele, Valdo deslanchava no Grêmio e, levado à Copa, só estreou mesmo pela Seleção em 1987. São casos parecidos ainda nomes como Edivaldo e Júlio César, este se tornando titularíssimo e um dos melhores na campanha até as quartas de final.

Bismarck (1990)

Sebastião Lazaroni tinha uma clara preferência ao Vasco da Gama. Natural, considerando o seu bom trabalho à frente dos cruzmaltinos, campeões nacionais no ano anterior – já sem o comandante, mas com uma base bastante moldada por ele. E em um grupo renovado, que contava com vários jovens talhados desde os Jogos Olímpicos de 1988, o vascaíno Bismarck se tornou o menino dos olhos do treinador. Campeão carioca em 1988 com Lazaroni e Bola de Prata no título do Brasileirão, a promessa já podia ser considerada uma realidade pelo que fazia até o momento. O meia ganhou as primeiras convocações em 1989 e vestiu a 7 na Copa, mas foi reserva. Até apareceu em uma das primeiras listas de Falcão após o Mundial, mas a transferência ao Japão, onde foi ídolo, logo minou o seu espaço com a Canarinho.

Ronaldo (1994)

Era impossível não se render ao talento imparável daquele garoto dentuço com a camisa do Cruzeiro. O Fenômeno, antes de ser denominado propriamente assim, tinha estreado em uma partida contra a Argentina, a três meses da Copa. Seu passe à competição, entretanto, veio num amistoso contra a Islândia, no qual acabou anotando um dos gols da Seleção. E em uma equipe que acabou aproveitando a polivalência de seus jogadores, mesmo sem ter reservas à altura de Romário e Bebeto, escolheu o garoto de 17 anos para ver o tetra do banco – preterindo outros nomes mais rodados usados durante o ciclo, como Evair, ou mesmo o ascendente Edmundo. Resultado: quatro anos depois, Ronaldo foi a grande certeza da Seleção, já aos 21 anos.

Kaká (2002)

Quando Djalminha acertou sua famosa cabeçada de Javier Irureta, já em maio de 2002, Felipão perdeu um nome que desejaria ter em sua lista. Poderia procurar jogadores mais tarimbados em substituição, como Alex. Preferiu confiar em Kaká, que havia correspondido muito bem nos amistosos no início daquele ano (a Islândia, de novo, esteve entre as vítimas), além de ter brilhado em edições recentes do Torneio Rio-São Paulo. Aos 20 anos, claramente era uma vaga para o futuro da equipe nacional, dentro de um elenco de tantas estrelas. A própria camisa 23 usada pelo garoto dava esta conotação de “última escolha”. No fim das contas, foi um dos principais jogadores da equipe nacional ao longo da década.

Fred (2006)

A Seleção de 2006 era repleta de cobras. E até quem tinha menos idade, possuía a sua trajetória na equipe nacional, a exemplo de Robinho, convocado a partir de 2003. A grande cartada de Carlos Alberto Parreira foi mesmo Fred, que já nem era mais o menino de América Mineiro ou Cruzeiro, transferido na temporada anterior ao Lyon. Quando desembarcou na Alemanha, o garoto de 22 anos tinha apenas três partidas com a Amarelinha. E correspondeu em sua principal chance, com a boa atuação diante da Austrália, no fechamento da fase de grupos. A falta de sequência e as lesões na França, contudo, barrariam sua continuidade nas convocações durante o ciclo seguinte.

Bernard (2014)

A Seleção que disputou a Copa do Mundo em casa possuía alguns jovens valores. Neymar e Oscar, aos 22 anos de idade, eram titulares absolutos. Já no banco de reservas, a aposta era em Bernard. O garoto vinha em ascensão no Atlético Mineiro e agradou nas chances anteriores que recebeu. Quando chegou a hora da verdade, porém, o Brasil x Alemanha foi pesado demais a um jogador que precisava resolver, mas não tinha experiência para isso. “Alegria nas pernas” virou sinônimo do fracasso no Mineirão, embora se questione também a montagem do elenco, que forçou o menos rodado da lista a tal fogueira. Hoje em dia vive um momento melhor no Shakhtar Donetsk, após passar por períodos difíceis, por mais das reações que gerem as lembranças.