“Você está perguntando o que é mais importante, o título do Brasil ou a invasão dos Estados Unidos em nosso país? Nós temos fome todos os dias. Nós temos problemas todos os dias. Os americanos falam sobre invadir todos os dias. Mas temos apenas uma Copa do Mundo a cada quatro anos”.

A frase acima foi dita por um haitiano a um repórter americano, após a decisão da Copa de 1994, e está registrada no livro ‘Football Against The Enemy’, de Simon Kuper. Em um conturbado momento político do país caribenho, algo um tanto quanto corriqueiro, o governo americano tentava forçar a queda da junta militar que dera um golpe de estado três anos antes. Bill Clinton cogitava a invasão do exército americano na ilha e a operação chegou a ser montada, o que apenas não aconteceu porque, diante da iminência do ataque, a junta haitiana optou por negociar a renúncia com a comitiva liderada por Jimmy Carter e restabelecer a democracia. De qualquer maneira, o episódio representa a relação da população haitiana com a seleção brasileira, algo que se consolidou principalmente com o famoso Jogo da Paz realizado em 2004, em Porto Príncipe, durante a missão de paz da ONU no país.

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A torcida dos haitianos tem a ver com o encantamento pela Seleção e com a própria identificação entre dois povos miscigenados. Mais do que isso, a proximidade entre os países aumentou desde a década passada, de questões humanitárias à busca de refugio. “Por muito tempo, os haitianos torceram pelo Brasil. Eu penso que uma das coisas que influenciaram isso é a diversidade da Seleção, com mais negros e mestiços. E, obviamente, Pelé. Isso ajudou os haitianos a criarem uma relação com os brasileiros. Há torcedores da Argentina, mas não muitos”, explicou o meio-campista da seleção local, Jean-Marc Alexandre, em 2016. E a Copa do Mundo de 2018, mais uma vez, evidenciou a paixão que o Haiti possui pela camisa amarela. Foram vários vídeos mostrando a loucura que tomava as ruas do país após os triunfos do Brasil, em especial depois da vitória agônica sobre a Costa Rica durante a segunda rodada.

Mas se o futebol é um elemento de união e esperança, como os próprios haitianos provam, ele pode ser utilizado como uma ferramenta de alienação. E, sem se diferenciar de outros cantos do mundo, o governo do Haiti tentou se beneficiar da comoção durante o Mundial de 2018. No dia das quartas de final entre Brasil e Bélgica, os políticos locais deixaram para anunciar um considerável aumento no preço dos combustíveis do país, com o fim de subsídios. Entretanto, a vitória brasileira não veio, a população percebeu a manobra e iniciou uma onda de protestos. A força economizada para celebrar se tornou impulso para se manifestar. Resultado: oito dias depois, o premiê haitiano anunciou a sua renúncia e o governo voltou atrás na decisão, congelando os aumentos.

A história é contada por Richard Ensor, chefe do escritório da revista The Economist na Cidade do México. Em fevereiro, o FMI solicitou que o Haiti retirasse os subsídios dos combustíveis, em meio a um acordo para o acesso a US$96 milhões em doações, além de empréstimos a juros zero durante os próximos dois ou três anos. O governo local decidiu esperar e imaginou que o momento ideal de anunciar o aumento era durante a tarde de 6 de julho, enquanto já acontecia o primeiro tempo de Brasil x Bélgica na Copa do Mundo. A gasolina aumentou 38%; o diesel, 47%; e a querosene, 51% – este, um item essencial à população mais pobre, usado largamente nas casas sem energia elétrica. Segundo Ensor, os políticos imaginaram que a população estaria muito ocupada comemorando uma vitória do Brasil e, assim, não protestaria contra o aumento dos preços.

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A notícia anunciada pela TV estatal durante o jogo ganhou as redes sociais em pouco tempo. Pois foi aí que a arrancada de Romelu Lukaku, o golaço de Kevin de Bruyne e os milagres de Thibaut Courtois fizeram toda a diferença. Apenas cinco minutos depois da derrota brasileira, o povo tomou as ruas, mas não por motivos felizes. Começou a bloquear vias e a queimar pneus, em meio à revolta pela decisão do governo. A concentração das manifestações aconteceu principalmente na região metropolitana de Porto Príncipe.

Por alguns dias, ocorreram vários protestos violentos no Haiti. As ruas foram tomadas por carros incendiados e barricadas, enquanto os voos internacionais foram cancelados. Aconteceram também saques e ao menos três pessoas faleceram. Haitianos e turistas precisaram se refugiar em locais seguros. O aumento se tornou o estopim a uma população que sofre com a altíssima inflação, o baixo poder econômico, o desemprego e a miséria. Os distúrbios civis, em consequência, levaram às mudanças. Durante o final de semana, o premiê Jack Guy Lafontant anunciou que a medida tinha sido temporariamente suspensa.

“Eles pensaram que o Brasil iria ganhar e, enquanto as pessoas comemoravam, os protestos sobre os combustíveis seriam menores. O presidente Jovenel Moïse não considerou que, acima de tudo, a política não é o que está na sua cabeça, mas o que você faz. Não houve melhora em nada no país que tenha sido resultado do governo. Ele acha que tem feito algo sério, mas não está vivendo na realidade”, apontou o senador Patrice Dumont, ao Miami Herald. Segundo o parlamentar, era possível reduzir o déficit orçamentário com outras medidas.

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Pressionado pelo setor privado e pelo parlamento, o presidente Moïse convocou o premiê Lafontant para discutir o impasse político. No Haiti, os poderes como chefe de estado são divididos. O presidente aponta o premiê, que é ratificado pelo congresso. Ele se torna o responsável por designar ministros e secretários, além de fazer a aproximação com o parlamento quanto às políticas públicas e o exercício da lei. Em contrapartida, Moïse também poderia destituir Lafontant. Presidente da Câmara de Deputados, Gary Bodeau declarou: “Os haitianos perderam a confiança no governo. Lafontant precisa sair. Eu disse a eles para não aumentar os preços. Avisei que o país ficaria em chamas. A campanha de comunicação não funcionou. Eles não falaram sobre o assunto suficientemente”.

Algumas das consequências geradas pelo aumento no preço dos combustíveis logo foram ratificadas, como as novas tarifas no transporte público. A postura dos chefes de estado aumentava a insatisfação com um governo criticado pela má administração pública e pelo escândalo de corrupção em kits escolares que levou à demissão de um ministro. Pesavam ainda declarações feitas pelo presidente Moïse quando era candidato, em 2016, criticando duramente o governo interino da época por propor o aumento na gasolina.

O governo até tentou diminuir o descontentamento e segurou o premiê enquanto pôde. Na última terça-feira, as revoltas se apaziguaram um pouco e o presidente prometeu ampliar a rede elétrica aos haitianos, assim como melhorar as rodovias do país. O estado também ressaltou que o Haiti possui o menor preço de combustíveis na América Latina entre os países que não produzem petróleo, 43% mais barato do que na vizinha República Dominicana. Com o fim dos subsídios, haveria uma economia de US$160 milhões, que seria repassada ao saneamento básico ou ao pagamento policiais, que não recebiam seus salários desde junho, até o dia em que a medida foi oficializada. O Ministro das Finanças ainda garantiu que apenas um quarto da população se beneficiava com os preços subsidiados.  Nada que diminuísse as tensões.

Antigo premiê do Haiti, Jean-Max Bellerive questionou as medidas: “Fiquei chocado. Na minha cabeça, pensei que o governo estava pronto. Como Moïse não tinha uma oposição forte e estruturada contra ele, pensou que possuía capital político para impor uma medida impopular. Em qualquer país, aumentar o preço da gasolina é uma medida muito sensível, e ainda mais no Haiti. É um ponto de discussão política, não apenas uma decisão econômica”.

No sábado, sob ameaças de mais revolta, o premiê Lafontant cedeu à pressão e, enquanto o Congresso preparava a sua destituição, ele renunciou. “Continuaremos as consultas que iniciamos com todas as instituições, para que possamos escolher um premiê que lidere o governo e o congresso sem demora. Para formar um governo que é inclusivo. Violência não colabora com o desenvolvimento ou a democracia. Eu entendo a situação de muitos compatriotas com o desemprego, a fome e a miséria. Estamos trabalhando por eles”, apontou o presidente Moïse, logo após a renúncia. Seu principal desafio é escolher um nome que apazigue as tensões.

O tema, de qualquer forma, ainda continuará sendo vital ao governo haitiano.  Porta-voz do FMI, Gerry Rice defendeu a postura do governo do Haiti, ainda aguardando a implementação dos aumentos: “Os subsídios exercem uma pressão significativa nas contas fiscais do país. Uma importante parte desta reforma foi, de fato, fortalecer as receitas, o que permitiria ao governo haitiano melhorar os investimentos públicos e aumentar a rede de segurança social. Continuaremos apoiando o Haiti para que desenvolvam uma estratégia de reforma revisada. Uma alternativa seria a redução gradual dos subsídios e, outra, garantir medidas compensatórias para proteger os mais pobres”. O estado já vinha implementando vouchers nos transportes públicos aos mais carentes e cantinas públicas com alimentação gratuita.

Por outro lado, Philip Alston, especialista da ONU, criticou a estratégia do governo para aplicar as medidas: “O FMI tem consistentemente subestimado a importância de calibrar suas recomendações para o contexto político específico, sem levar em conta até que ponto elas são politicamente viáveis e socialmente sustentáveis. Isso garantiu uma revolta e minou os programas que o fundo está tentando implementar. O FMI diz que os subsídios beneficiam mais as classes média e alta do que os pobres, mas precisa trabalhar gradualmente, em um exercício de longo prazo. As consequências sociais, econômicas e políticas de cortes deste tamanho são muito grandes”.

Se o Haiti quiser contar com o apoio do FMI, os cortes nos subsídios serão importantes para que consiga acessar os fundos negociados. Ajustes orçamentários e soluções interinas estão entre os caminhos possíveis nos próximos meses. O ponto será dialogar com a população que sente os efeitos imediatos da mudança. Agora, sem uma Copa do Mundo para dividir as atenções.