Num domingo em que o país inteiro ia às urnas, muitos brasileiros estavam interessados no que faria em Madri aquele que havia se tornado o “presidente de facto” desde o histórico 30 de junho, proclamado em Yokohama. Muita gente tinha guardado mágoa de Ronaldo. A convulsão na final da Copa de 98 e “a carta de Gunther Schweitzer” tornaram o Fenômeno, aquele que embalava os sonhos, em símbolo do fracasso em Saint-Denis. Mas não há impressão ruim no futebol que não se possa mudar em quatro anos, em uma nova Copa do Mundo que magnetize as massas. Foi o que o camisa 9 fez. Naquele junho guardado nas lembranças, o artilheiro viveu o seu próprio conto de fadas. A história de superação na qual venceu todos os seus dramas para se consagrar como pentacampeão do mundo. E em 6 de outubro de 2002, o herói iniciaria um novo capítulo de sua jornada, estreando pelo Real Madrid. Marcando o seu primeiro gol pelos merengues com apenas 60 segundos em campo.

A vida de Ronaldo havia sido conturbada nos meses anteriores, ao menos no âmbito dos clubes. Voltando de suas infindáveis lesões, mal jogou pela Internazionale em 2001/02. Disputou algumas partidas até meados de dezembro, quando se machucou novamente, até que o retorno definitivo acontecesse em abril. Só tinha entrado em campo seis vezes nesta reta final de temporada, o que fazia a aposta de Felipão ter um risco enorme. Porém, não era só o treinador da Seleção que estava de olho na recuperação do craque. Neste momento, o Real Madrid já começava a sondar o Fenômeno. Era um alvo de Florentino Pérez para continuar aumentando a constelação de seus Galácticos, após as transferências de Luis Figo e Zinedine Zidane.

Então, veio a Copa de 2002. E não preciso detalhar muito para vocês o que aconteceu. Oito gols, atuações fantásticas, papel decisivo na final. Ronaldo gastou a bola na Coreia do Sul e no Japão. Motivo mais do que suficiente para os merengues terem certeza do que queriam. O problema ficava por conta da Internazionale. Massimo Moratti havia investido bastante no Fenômeno, especialmente durante os anos difíceis de recuperação. Sabia, principalmente, que contava com um ídolo de gerações. O homem certo para encerrar o jejum na Serie A, que se alongava desde 1989. O dirigente interista se mantinha irredutível sobre as investidas. Chegou mesmo a aventar para a imprensa que os madridistas teriam que desembolsar US$100 milhões pelo craque.

A vontade de Ronaldo, todavia, não correspondia com a da Inter. E o maior empecilho para a sua permanência em Milão estava no banco de reservas: o técnico Héctor Cúper. O craque não se bicava com o treinador argentino, já tinha deixado isso claro. E a oferta do Real Madrid se encaixava perfeitamente à sua ambição. O melhor atacante do mundo se juntaria ao melhor time do mundo, campeão da Liga dos Campeões em maio e dono de três títulos continentais nas cinco temporadas anteriores. O casamento que soava como o mais letal possível. Mas que ainda demoraria a sair.

O Real Madrid precisou perseverar até 31 de agosto, o último dia da janela de transferências. A Internazionale queria seu craque. Até que o próprio Ronaldo deixasse o mais claro possível que não queria mais a Inter. Segundo pessoas próximas ao atacante, em entrevista aos jornais da época, a posição firme do Fenômeno desencadeou o negócio. Por €45 milhões, os merengues asseguravam a contratação do artilheiro da Copa do Mundo. O monstro que parecia tornar o esquadrão de Vicente del Bosque realmente imbatível. Já em Milão, muitos sentiram como se o brasileiro tivesse lhes virado as costas. Era acusado de ingratidão, por todas as esperanças depositadas nos anos de estaleiro.

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Ronaldo ainda demoraria a estrear. Com problemas musculares, passou mais de um mês trabalhando para se recuperar e, enfim, entrar em campo – apesar dos quilos a mais. Por isso mesmo, aquele 6 de outubro carregava enormes expectativas. Lula ou Serra? Unânime, apenas o Fenômeno. O craque que resgatou o orgulho do Brasil e que, novamente xodó, faria a sua estreia bombástica no Real Madrid. Relacionado por Vicente del Bosque, o atacante começaria no banco diante do Alavés. Ainda assim, não precisaria de muito tempo para conquistar os 75 mil presentes no Estádio Santiago Bernabéu. Um minuto já seria suficiente para anotar o primeiro gol com a camisa blanca, 11 às costas – como usaria ao longo de toda a temporada, até que Fernando Morientes, o dono da 9, deixasse Madri.

Com sete pontos nas três primeiras rodadas, o Real Madrid não empolgava tanto no início daquela campanha. Vinha de um empate contra o Valladolid e ocupava a terceira colocação no Campeonato Espanhol. Por isso mesmo, a obrigação de vencer o Alavés era ainda maior. E não demorou para o triunfo começar a se desenhar. Os madridistas jogavam fácil. Zidane abriu o placar com um belo gol por cobertura, enquanto Figo ampliou em um pênalti contestável ainda no primeiro tempo. O problema é que a tranquilidade relaxou os Galácticos e permitiu a reação dos visitantes. Magno descontou antes do intervalo. Já no início do segundo tempo, quando Del Bosque preparava suas primeiras alterações, Iker Casillas evitou o empate ao defender um pênalti. Era hora de mudar, de acordar o time. Então, ao 18 minutos, a placa subiu à beira do gramado, anunciando o número 11. Ronaldo entraria em campo, substituindo Javier Portillo – ex-canterano de 20 anos, que tentava se firmar entre os medalhões. Nas arquibancadas, os torcedores já o ovacionavam de antemão.

E quão grande não foi a estrela de Ronaldo naquela partida? Logo na sua primeira participação, caixa. Trabalhou o início da jogada pelo lado esquerdo. Depois, a cortesia veio de seu velho amigo Roberto Carlos. O lateral cruzou em direção à área. E o centroavante, até então marcado por dois defensores, acabaria sem ninguém ao seu encalço. O camisa 11 passou por entre os dois adversários e, enquanto eles batiam cabeça, a bola viria limpa em sua direção. O craque a convidou para adormecer em seu peito, dominando-a com elegância. Enquanto os outros dois oponentes ainda tentavam entender o que acontecia, a redonda pingava no gramado, macia, pedindo para ser chutada. De frente para o goleiro Richard Dutruel, o artilheiro seria impiedoso. Chicoteou. A bola ricocheteou, antes de estufar o alto das redes. O primeiro gol do novo galáctico saiu com uma facilidade espantosa, mas graças ao seu puro talento. Os torcedores aplaudiam ainda mais entusiasmados. Os companheiros nem pareciam acreditar.

Pois aquela noite não terminaria ali para Ronaldo. O jogo que parecia difícil ficou totalmente aberto para os merengues. Participando bastante, o novo ídolo logo passaria a tabelar com seus novos companheiros, como se já fossem velhos conhecidos. Figo anotaria o quarto gol do Real Madrid, aos 26 do segundo tempo. E o quinto caberia, mais uma vez, ao Fenômeno. Em contra-ataque imparável, Steve McManaman serviu o brasileiro, que teve calma o para dominar e bater cruzado. O Alavés ainda descontaria mais uma vez, com Iván Alonso, fechando a conta em 5 a 2. O dono da goleada no Bernabéu, de qualquer forma, era só um. O presidente já empossado que concorreria com as apurações no noticiário do domingo pelo Brasil.

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“Estou certo que posso dar muito mais. Estava nervoso no banco, mas quando estou em campo isso não ocorre porque sei o que fazer. Foi uma noite maravilhosa. O Real Madrid pode marcar gols a qualquer momento com este time”, declarou Ronaldo, na saída de campo. Se sobrava autoconfiança, os dois gols que ele anotou referendavam qualquer declaração. Ele podia. “Isso não foi um filme. É a realidade. Se tenho a oportunidade de fazer sempre dois gols, todos vamos ser muito felizes. Sei que posso dar muito mais e dedico estes gols à torcida. Creio que vou divertir mais aqui do que na Itália, porque chegamos com seis ou sete jogadores ao ataque”.

Os gols não se repetiram na frequência daquele domingo. Mesmo assim, saíram aos montes ao longo da temporada. Se o craque balançou as redes apenas mais quatro vezes nos 12 jogos até o final de 2002, desembestou a marcar nos primeiros meses de 2003. Foram 18 gols em 22 partidas pelo Espanhol, liderando o Real Madrid ao título. Arrebentou justamente na reta final. A goleada por 4 a 0 sobre o Atlético de Madrid, com dois tentos do brasileiro, permitiu que os merengues assumissem a liderança na penúltima rodada, superando a surpreendente Real Sociedad. Já no compromisso final, mais dois para a conta, na vitória por 3 a 1 sobre o Athletic Bilbao, que desencadeou a festa dentro do Santiago Bernabéu. Na Champions, apesar da eliminação nas semifinais diante da Juventus, o Fenômeno adicionou mais uma história gloriosa à sua lenda: destruiu os sonhos do Manchester United em Old Trafford, com uma tripleta inesquecível que eliminou os Red Devils.

Por mais e mais semanas, os brasileiros acompanhariam avidamente aqueles finais de semana em Madri. Não era uma mera questão de “pachequismo”, mas de envolvimento pela epopeia que se escrevia diante dos olhos de todos. Naquele momento, o Real Madrid ganhava a simpatia de uma legião de pessoas no Brasil. Apesar das limitações tecnológicas da época, era o time incensado pelas mesas-redondas, de futebol vistoso no ataque e seguidas artes de seus craques. Ronaldo, entre os protagonistas do esquadrão.

Olhando para trás, 15 anos depois, a grandeza da passagem do Fenômeno pelo Bernabéu é menor do que a expectativa que se criou. Ele conquistou apenas aquela Liga como protagonista e não passaria das semifinais da Champions. Os Galácticos do Real Madrid logo seriam eclipsados por um fortíssimo Valencia e por um mágico Barcelona encabeçado por Ronaldinho. Ainda assim, a diferença entre o sucesso e o fracasso não deve ser medida apenas pelo peso dos troféus. Mais impactante foi a euforia que Ronaldo provocou. A empolgação por seu ressurgimento. Os lances fabulosos. Os 104 gols. Aquilo que a gente resgata sem muito esforço na memória e faz bater a nostalgia. Que eterniza na mente a imagem do artilheiro rompendo defesas com seu uniforme branco. Não era tão fenomenal como na década de 1990? Tudo bem. Nem por isso deixou de ser marcante.