Este será um sábado como Campinas não vive há cinco anos. Pela primeira vez desde 2013, Guarani e Ponte Preta farão o Dérbi Campineiro, válido pela Série B do Brasileirão. Um jogo cercado de expectativas, mas também de tensões, gerando uma série de medidas de segurança para o encontro no Brinco de Ouro. E, indo além do presente, o clássico possui uma história riquíssima. Aproveitamos a oportunidade para relembrar duas ocasiões notáveis, uma para os bugrinos e outra para os pontepretanos. Em 1978, um triunfo no dérbi marcou o início do caminho do Guarani rumo à conquista do Brasileirão, assim como impulsionou a carreira de Careca. Já em 1981, na definição do primeiro turno do Paulistão, a Ponte se deu melhor em uma partida eletrizante e chegou à sua terceira final estadual em cinco anos. Momentos célebres de uma era de ouro, que merecem ser recontados:

Guarani 2×1 Ponte Preta, Brasileiro de 1978

Segundo o guia da revista Placar sobre o Campeonato Brasileiro de 1978, o Guarani “queria ser apenas competitivo”. Iniciava a campanha com um elenco composto por apenas 15 profissionais, completado por juvenis, e o técnico Carlos Alberto Silva ressaltava a necessidade de quatro reforços, entre eles um centroavante. Já a Ponte Preta, que havia perdido alguns destaques em relação ao vice-campeonato Paulista no ano anterior, também tinha suas limitações, mas gerava bem mais expectativas sobre o que poderia aprontar naquela competição.

O clássico aconteceu na oitava rodada da primeira fase do Brasileirão. O Guarani só havia sofrido uma derrota, na estreia para o Vasco, e começava a demonstrar certo potencial. A Ponte Preta, com dois revezes em seis jogos anteriores, tentava manter uma série invicta de sete partidas no Dérbi. E no Brinco de Ouro, uma das apostas de Carlos Alberto Silva era Careca. Se a diretoria não tinha trazido o centroavante solicitado, o treinador aproveitava o talento do garoto de 17 anos. Na rodada anterior, contra o Confiança, ele anotara seu primeiro tento no torneio nacional. Seguiu entre os titulares e, pela primeira vez como profissional, enfrentaria os rivais.

Em uma tarde memorável, diante de 21 mil pagantes no Brinco de Ouro, Careca foi o cara. As tensões começaram antes mesmo que a bola rolasse. O Guarani, que descartara durante a semana inteira a presença de Zenon, entrou com seu maestro. Já a Ponte, para tentar esfriar os adversários, demorou 12 minutos para sair dos vestiários. Quando finalmente a partida teve início, os campineiros fizeram um confronto aberto, em que os dois goleiros trabalharam bastante. Mas os pontepretanos não souberam brecar o fenômeno do outro lado.

Careca abriu o placar aos 38 minutos do primeiro tempo. Já aos 15 da etapa complementar, repetiu a dose. “Careca fez uma partida brilhante e somente foi contido pelas faltas dos zagueiros da Ponte, sobretudo Juninho”, descreveu a Folha de S. Paulo do dia seguinte. Diante da desvantagem no marcador, a Macaca partiu para o abafa. Descontou aos 34, com Lúcio. Já aos 44, o lance capital. Dicá só não igualou porque Neneca operou uma defesaça, negando o empate aos rivais em cima da linha. Triunfo por 2 a 1 e festa dos bugrinos, que assumiam a vice-liderança do grupo.

O tamanho daquele Dérbi para o Guarani é representado por Carlos Alberto Silva. O treinador deixou o gramado às lágrimas, dizendo que era “a maior vitória da minha vida”. Além disso, exaltava Careca, analisando que o prodígio “tem tudo para se transformar num grande craque”. A partir daquele clássico, o garoto se afirmou na linha de frente do Bugre. E o resto (principalmente o gol na decisão contra o Palmeiras) é história.

Ponte Preta 3×2 Guarani, Paulista de 1981

Os anos áureos do Dérbi estavam muito bem estabelecidos em 1981. O Guarani já havia sido campeão brasileiro. A Ponte Preta, por sua vez, vinha de dois vices no Paulistão e tinha chegado à semifinal do Brasileirão daquele ano, em maio – sucumbindo apenas para o Grêmio, que ficaria com a taça. Além disso, jogadores de Seleção despontavam em ambos os elencos. E depois das semifinais do estadual de 1979, os rivais voltavam a se encarar por uma vaga na decisão do Campeonato Paulista, em agosto de 1981. Após deixarem os grandes para trás na fase de classificação, fariam as finais do primeiro turno.

O primeiro jogo, no Brinco de Ouro, acabou marcado pela briga das torcidas nas arquibancadas. Dentro de campo, a Ponte Preta foi superior durante a maior parte do tempo e abriu o placar logo após o intervalo, com Serginho. Entretanto, o Guarani partiu para cima na reta final do duelo e, a dez minutos do fim, Jorge Mendonça cobrou uma falta no capricho, decretando a igualdade em 1 a 1. O regulamento não deixava muito clara qual a situação para a partida de volta. Os pontepretanos alegavam que se classificariam com um novo empate, baseando-se no parecer de um assessor jurídico da federação paulista. Por outro lado, os bugrinos refutavam esta teoria e ameaçavam entrar na justiça desportiva, caso isso acontecesse.

Dentro do Majestoso, porém, a Ponte Preta evitou que o episódio fosse levado aos tribunais. O time de Jair Picerni resolveu a situação dentro de campo, em uma partida repleta de emoções. Os 22 mil pagantes comemoraram o primeiro gol aos 30 minutos de jogo, em um belíssimo chute de Osvaldo. O pontepretano dominou no peito e, de costas para o gol, sem olhar, deu um sutil toque para encobrir o goleiro Birigui. O Guarani, ainda assim, empatou o confronto aos 45. Após confusão na área, Ângelo chutou fraco, mas a bola desviou e venceu Carlos.

Logo na volta para a etapa final, aos três minutos, um erro bisonho de Birigui deu a vantagem de novo à Ponte. Após um recuo, o goleiro se esforçou para evitar que a bola saísse pela linha de fundo, mas deixou o presente para Serginho concluir. O Bugre empataria de novo, em cabeçada de Jorge Mendonça na pequena área, e quase virou quando Lúcio, ao receber um passe de calcanhar de Careca, carimbou a trave. A Macaca se segurava como podia, inclusive parando o ataque adversário com entradas duras. Todavia, aos 36, em um raro ataque dos pontepretanos, Odirlei soltou a bomba de canhota e concluiu a vitória por 3 a 2.

Entregue, o Guarani não reagiu mais. E o apito final culminou em uma enorme invasão de campo no Majestoso, com a torcida da Ponte indo à loucura por mais uma decisão no Paulistão. O time de Jair Picerni ainda ficou a dois pontos de voltar à final do segundo turno, mas não conseguiu superar o São José, que seria derrotado pelo São Paulo. Já na finalíssima, contra os tricolores, a Macaca segurou o empate por 1 a 1 no primeiro encontro. No entanto, a derrota por 2 a 0 no segundo jogo faria os campineiros amargarem outro vice-campeonato. O gosto por derrubarem os rivais, de qualquer maneira, segue lembrado.