SÃO PAULO - No meio das ladeiras, um homem carregava sua boneca inflável, calmamente, pelas ruas da Vila Madalena, o bairro dos bares em São Paulo. Eles iam abraçados, apertadinhos, embora o abraço dele não fosse correspondido (bonecas infláveis são reconhecidamente seres sem coração). Não sei muito bem o que leva uma pessoa a ver um jogo do Brasil, na Copa do Mundo, ao lado de sua boneca inflável. Pode ser apego. Pode ser afeto. Pode ser amor. Mas, certamente, não é solidão. Alguns metros depois, o homem e sua boneca foram tragados pela multidão que se espremia pelas ladeiras da vila. Nunca vi uma boneca inflável ser recebida por tantas pessoas ao mesmo tempo.

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Um brasileiro e sua boneca inflável

Um homem e sua boneca inflável: existe amor em SP (foto: Leandro Beguoci)

Poderia ser só uma cena exótica, mas não era. O mundo que pariu a boneca inflável se tornou lei na tarde desta segunda-feira – antes, durante e depois o jogo no qual Neymar arrasou Camarões. Essa cena foi só mais uma entre as tantas do dia em que a Vila Madalena, mergulhada em loucura e delírio, se tornou um buraco negro de todas as energias paulistanas neste Mundial.


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Minha casa fica a meia hora a pé do coração do bairro. Eu decidi encarar as ladeiras porque queria descobrir o lugar pelo qual as pessoas brotavam do chão. Tal como um descobridor de galáxias, eu queria saber de onde vinha a energia da qual tanta gente falava. Eu tinha passado o dia inteiro caminhando. Fui ao centro da cidade, à Avenida Paulista, passei por um punhado de bairros mais e menos conhecidos. Nada de Copa, pelo menos não na sua versão descontrolada. As bandeirinhas estavam lá, uma ou outra rua pintada, umas janelas com umas bandeirolas. Nada demais. Só que a tarde veio, o jogo do Brasil foi se aproximando. Enquanto andava até o metrô Vila Madalena, vez ou outra eu ouvia uma corneta, um “vai, Brasil!”, uma buzina fora de ritmo. A cidade começava a pulsar.


O funk tomou as ruas das brigaderias, das queijarias e das cafeterias

Quando cheguei, esbaforido (não recomendo as ladeiras da Pompéia), às portas do metrô Vila Madalena, já havia gente colorida por tudo quanto era lado. Uma procissão laica caminhava pelas escadarias que ligam a estação ao coração do bairro. Várias pessoas estavam vivendo seus dias de ambulante nos degraus. Estudantes, moradores, uma multidão vendia cerveja, papel para enrolar maconha, cigarro, uísque, o que pudesse se transformar em incentivo extra para ver a partida (afinal, somos brasileiros e desistimos fácil de um jogo em nome de alguns momentos de picardia).

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Algumas pessoas estavam tão empolgadas que faziam pirocóptero peniano (o ato de urinar enquanto se dá uma reboladinha) nos muros do escadão, como se estivessem fazendo uma performance dirigida por José Celso Martinez Corrêa, um dos mais criativos e extravagantes diretores de teatro do Brasil. Em um determinado momento, um menino resolveu urinar no outro, como se estivesse praticando chuva dourada. Pensei, vai dar problema. Mas, aparentemente, nenhum deles entendeu muito bem o que estava acontecendo e, após a união pela uréia, se abraçaram. É a Copa da União dos Povos, amigos.


Torcida brasileira chega pelas ladeiras da Vila Madalena

Enquanto eu avançava ao coração da Vila, a multidão ia se adensando. Aos poucos, foi ficando cada vez mais difícil para andar. Os passos foram ficando mais curtos. Se não estivesse tão quente, eu poderia dizer que dava passos de pinguim. Até que não tem jeito. Uma hora eu parei – e não por vontade, mas por impossibilidade mesmo. Travei perto de um grupo de meninas, na faixa dos 20 anos. Tive muita sorte. Assim que parei, elas começaram a soltar uma sucessão maravilhosa de frases. “Quero um neozelandês”, disse uma delas. “Mas por que um neozelandês?”, perguntou a outra. “Quero que ele me faça de canguru e me leve na sua bolsa”, arrematou, confundindo toda a minha cabeça. Eu acho que ela queria dizer Austrália, mas cada um sabe o que quer (vale o registro: há, sim, cangurus na Nova Zelândia). E, vale dizer, como mostrou a Folha de S.Paulo dia desses: sim, os caras estão arriscando um inglês maroto e o portunhol selvagem para se passar por gringos na Vila Madalena. Não vi funcionar, mas as pessoas tentam mesmo assim. Vale até enrolar um italiano e dizer “Io, Roma!!!”

O jogo

Com 10 minutos de partida, a minoria das pessoas via a partida. Todos os bares com telões estavam tomados pelas invasões bárbaras. Eu, que não tinha chegado cedo nem comprado camarote, também estava do lado de fora. Por isso, eu continuava tentando avançar um punhado de metros pela rua Aspicuelta até a esquina da Mourato Coelho e, de lá, para algum lugar onde fosse possível ver o jogo sem tanto contato humano. Mas isso não impedia, claro, que as pessoas reagissem aos lances de Neymar. Mesmo sem ver nada, as pessoas se emocionavam como se fossem ondas, lá do mar. Bastava uma gritar para a multidão também abraçar um “uuuuuuuuuuuuuu”.

Um grupo de boiadeiros usava berrantes para expressar sua empolgação. Quando estava sendo arrastado pela multidão, fui parar bem perto de um deles. Senti um treco estranho. O cara tinha uma corda na mão. Perguntei, rindo, o que ele ia fazer com aquela corda. “Vou laçar a holandesa da minha vida”, respondeu, perguntando se eu poderia traduzir isso para um grupo de holandesas que estava tão perto (em distância), mas tão longe (a multidão, compacta, afasta). Eu dei tchau porque vi uma brecha e continuei andando. Barretos já é demais para mim.

Multidão

Multidão na rua Aspicuelta, na Vila Madalena: todo mundo no passo do pinguim (foto: Leandro Beguoci)

Assim que cheguei exatamente ao cruzamento da Aspicuelta com a Mourato, consegui finalmente elaborar o que estava acontecendo no centro nervoso da Vila Madalena. Prensado por vendedores de energéticos, uísque e gente descobrindo seu corpo como se não houvesse amanhã, finalmente cedi ao melhor nerd que existe em mim e fui buscar na física uma explicação para o que estava acontecendo naquela multidão aglutinada. Todo o clima de Copa, diluído na imensidão de São Paulo, foi sendo atraído para aquelas ruas estreitas. A Vila se transformou num imenso buraco negro, sugando todas as energias e as pessoas da cidade para um pequeno perímetro – especialmente quando comparado ao gigantismo da capital paulista. Todas as energias de São Paulo foram puxadas para aquela esquina. Nessas, quase a minha carteira foi junto.

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De tanto ir a estádio, aprendi que só se anda pela multidão com as mãos no bolso. Várias pessoas tentaram colocar a mão no meu bolso, mas, infelizmente, para elas, havia uma mão lá dentro. Uma delas olhou para mim, meio surpresa, como se esperasse um gringo disperso. Eu fiz a cara de “puxa, que pena”, o sujeito riu resignado, passou dando ombradas em outras pessoas e certamente levou mais um punhado de celulares e carteiras de pessoas que bebiam Skol litrão como se fosse long neck. Num determinado momento, porém, esfriou a barriga.

Loucura e delírio

Loucura e delírio na Vila Madalena: quem não tem uísque pesca com Skol Litrão (Foto: Leandro Beguoci)

Aquela situação ligou meu alerta de “vai dar merda”. Um punhado de bombadões queria passar pela multidão mais rápido do que os outros e estava disposto a fazer isso rosnando, mostrando os dentes. Um deles deu uma ombrada num gringo, ficou todo bravo e queria partir para cima do estrangeiro – mas logo percebeu que o gringo, um holandês, era muito maior e muito mais forte do que ele. E ai ele encarnou o papel de brasileirinho, baixou a cabeça e saiu resmungando que as meninas só dão bola para gringos otários. Claro, claro, ele certamente deve ser um gentleman em corpo de figurante da Malhação.

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Com muito esforço, tal como um Neymar tendo de jogar ao lado de Fred, o pé molhado de cerveja, finalmente consegui sair da muvuca. Na medida em que eu descia a rua Mourato Coelho rumo à Teodoro Sampaio, as ruas iam ficando cada vez mais vazias, apesar do jogo estar pegando fogo em Brasília. O clima de delírio e loucura se diluía, as pessoas guardavam mais distância umas das outras, até que a Copa sumir completamente dentro do ônibus que peguei para voltar para casa. Se não fosse o cobrador e seu radinho, seria mais um dia de feriado em São Paulo. Quando desci, no ponto da minha casa, a Pompéia parecia um refúgio zen (embora as pessoas estivessem buzinando e usando cornetas também). Eu tinha sobrevivido ao buraco da Vila.


Saída do metrô Vila Madalena, em São Paulo

Ontem, antes de ir à Vila Madalena, eu escrevi que São Paulo ainda estava tentando descobrir qual era a sua Copa. Não precisei de muito tempo para saber onde o Mundial está. Ele foi todo sugado para o coração da Vila Madalena e parece que nunca mais vai sair de lá. Porque apesar do perrengue, das carteiras batidas, da chuva dourada, das mulheres laçadas (que ideia pavorosa, medonha) e da boneca inflável, as pessoas estão indo ao bairro para viver, em um mês, as histórias de uma existência inteira. Do jeito que está, vai faltar vida para viver depois da Copa. O buraco negro vai ter sugado tudo, e ainda vai acordar de ressaca de uísque barato e Skol litrão.

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