O centro de Recife estava vazio. Um pouco assustador. Os prédios de arquitetura baixa, altas e largas portas, com arcos acima delas, janelas grandes e pequenas varandas, estavam fechados. Continuavam ali, onde estão há uns bons duzentos anos, mas poucas pessoas passavam à frente pelas calçadas. Um turista inglês andava com uma câmera na mão, buscando alguém para fotografar e foi decepcionado pelos moradores quase tanto quanto pela sua seleção. Não era um apocalipse zumbi. Era dia de São João.

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O dia 24 de junho é feriado em muitas cidades do nordeste, e Recife é uma delas. Por isso, não havia muita movimentação no centro histórico. Pelo menos enquanto o sol ainda não havia se posto. A maioria das pessoas preparava-se para as festas à noite ou simplesmente aproveitava a oportunidade para descansar. A maior movimentação era no Cais da Alfândega, que pulsava com colombianos, japoneses e brasileiros bons de festa acompanhando a Copa do Mundo.

O palco da Fan Fest pernambucana tem uma característica peculiar. Fica ao lado de um shopping center com quatro andares, praça de alimentação e, contrastando com o calor que costuma chocar os visitantes, um rinque de patinação no gelo. O mais legal dela, porém, é um terraço no último piso, no qual as pessoas podem encostar na grade e assistir às partidas ao mesmo tempo em que acompanham a vibração dos torcedores.

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O perfil jovem e festeiro dos frequentadores da Fan Fest começa a modificar-se à medida em que se anda por outras ruas quase desertas e de paralelepípedos no Recife Antigo. Ao chegar na Praça do Arsenal, no cruzamento da Rua do Observatório com a Rua do Bom Jesus, uma tenda antecipava a festa de São João que começaria ali em alguns instantes.

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Pelo menos no início, essa foi a celebração dos mais velhos. Casais acostumados a dançar o xote há tantos anos que não precisam nem pensar. A movimentação das pernas e dos braços está gravada na memória, como colocar a segunda marcha do carro depois de alguns segundos de aceleração. No palco, profissionais faziam movimentos aparentemente impossíveis para seres humanos comuns, ao som de um casal sanfoneiro, muito simpático.

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E como em todo evento durante o maravilhoso mês da Copa do Mundo, os estrangeiros são os detalhes mais interessantes. Dois alemães olhavam as danças e as músicas com interesse e um pouco de inveja. Confessaram a vontade de saber se mexer daquele jeito ao tentarem acompanhar o ritmo da sanfona, flexionando toscamente os joelhos para cima e para baixo, sem nenhum traquejo de dançarino. Mas ao menos estavam se divertindo.

No palco, um garotinho com no máximo três anos de idade e todo o traje de festa junina segurava um triângulo na mão, o qual tocava sem nenhuma habilidade e muita empolgação. Recebeu eventualmente a companhia de um mexicano, que sabia dançar forró tanto quanto consertar o motor de uma nave especial, mas aceitou o desafio de acompanhar a dançarina profissional. E não fez feio, como podemos apreciar no vídeo abaixo, antes de voltar ao público e permitir que o xote fosse tocado noite adentro, já com a companhia dos mais novos que pouco a pouco deixavam de celebrar a Copa do Mundo para comemorar o dia de São João.