Mario Mandzukic e Harry Kane estarão em lados opostos da semifinal desta quarta-feira, em Moscou, buscando uma vaga na final. Nenhum deles joga por seleções que estavam entre as favoritas para chegar a esta fase. Essa é uma situação que não é novidade para nenhum dos dois. Aliás, é até tranquilo quando se fala em dois jogadores que, por vezes, se viram deixados de lado e tiveram que provar a sua capacidade em campo com muito esforço nas poucas chances que tinham. E sempre se provaram ser mais do que pareciam.

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Um dos principais nomes da Croácia nesta campanha na Copa, Mario Mandzukic não é aquele jogador que ganha as capas dos jornais, seja por ser um talento indiscutível, seja por marcar uma tonelada de gols. É, porém, um dos jogadores que faz o time jogar melhor, porque sabe se esforçar e buscar espaços para que os gols saiam. Mesmo nos momentos mais artilheiros da sua carreira, ele se destacou muito por isso: ser um atleta de dedicação acima da média.

Com 1,90 de altura, é um centroavante que poderia ser visto como clássico estereótipo da posição. Um 9 típico, daqueles grandalhões que marcam gols de cabeça e fazem o pivô. No caso de Mandzukic, estará enganado quem pensar isso. Não que ele não tenha sido um centroavante típico na carreira. Em geral, ele foi um camisa 9 mesmo, mas suas características que chamam a atenção é a capacidade de trabalho sempre pelo time. Surgiu no NK Zagreb, na sua Croácia, mas ficou pouco tempo. Foram só 11 jogos, três gols e uma transferência ao badalado Dinamo Zagreb. Por lá, se destacou muito atuando bem e marcando gols e brilhando pelo time. Foram 112 jogos, 53 gols e 36 assistências.

Seu salto para uma grande liga veio quando o Wolfsburg resolveu apostar no atacante em julho de 2010. Ele chegou como uma aposta e, com Grafite e Edin Dzeko ainda comandando time, teve um grande desafio: como jogar em uma equipe que já tem dois centroavantes? Ele não teve problemas com isso. Versátil, conseguiu atuar pela ponta esquerda. Algo que se tornaria uma alternativa na sua carreira muitas vezes, por clube e seleção. Após a saída de Grafite e Dzeko, passou a comandar o ataque do time, até que em 2014 o Bayern de Munique decidiu leva-lo para a Baviera. No Wolfsburg, foram 60 jogos, 20 gols e 12 assistências.

Pelo Bayern, viveu dois momentos bem diferentes. Primeiro, com Jupp Heynckes, era o centroavante do time campeão da Champions League. Depois, com Pep Guardiola, foi mais questionado. Insatisfeito, deixou o clube dois anos depois de chegar, se transferindo para o Atlético de Madrid de Simeone. No Bayern, fez 88 jogos, marcou 48 gols e deu 14 assistências. O centroavante viveu apenas uma temporada em Madri, com 43 jogos, 20 gols e cinco assistências, sem empolgar. Quando a Juventus bateu à sua porta, ele abraçou o desafio de ir ao futebol italiano. Uma temporada depois de chegar a Turim, ele viu o clube contratar outro atleta para a posição, Gonzalo Higuaín, por impressionantes € 90 milhões. Fim da linha para o croata?

Nada disso. Mais uma vez, Mandzukic se impôs no time, atuando inclusive como ponta pelo lado esquerdo, fechando espaços, marcando o adversário até a própria área. Foi assim que o time chegou, mais uma vez, à final da Champions League, com golaço do camisa 17 (seu número preferido, que ele usa também na seleção croata) na final, mas derrota. Em agosto de 2017, pouco depois da dolorida derrota para o Real Madrid, o técnico da Juventus, Massimiliano Allegri, falou sobre a importância do atacante. “Mandzukic nos dá fisicalidade ao defender e atacar. Quando estamos sob pressão, confiamos nele em certa medida”.

Finalmente, chegou à Juventus e se transformou em um jogador de destaque sendo um trabalhador pelo time. São 129 jogos, 34 gols e 18 assistências. Se tornou titular e importante.

Na seleção croata, a sua versatilidade já deu opção aos técnicos para trabalhar com diferentes formações táticas, inclusive o usando como ponta pelo lado esquerdo. E foi assim, inclusive, que ele brilhou nas quartas de final. Era assistido por muitos conterrâneos, que ele patrocinou. Pagou € 3.337 para que os habitantes da sua cidade, Slavonski Brod, acompanhassem o jogo com cerveja de graça. Viram o camisa 17 fazer uma jogada pela ponta esquerda, cruzando para Kramaric empatar o jogo com a Rússia por 1 a 1.

Com a chegada de Cristiano Ronaldo à Juve, talvez o cenário mude. Mas nunca dá para duvidar de um jogador como Mandzukic. Por isso, mesmo que a Croácia nunca tenha ido além da semifinal da Copa, como já tinha chegado em 1998, há potencial para se fazer história, também com outros protagonistas, como Luka Modric e Ivan Rakitic. O técnico croata, Zlatko Dalic, alerta: “Mandzukic é a alma da Croácia”.

Kane, das desconfianças a capitão inglês

Harry Kane é um jogador que aos 24 anos já parece muito mais experiente do que de fato é. Ele contou que foi dispensado pelo Arsenal, onde jogava, aos oito anos de idade. Passou pelo time do seu bairro, depois foi convidado a jogar no Watford, até que o Tottenham o viu jogar e levou para as categorias de base. Se eu disser que o resto é história, estarei pulando momentos fundamentais da carreira de Kane.

Aos 18 anos, foi emprestado por meia temporada ao Leyton Orient, outro time de Londres, de janeiro a junho de 2011. Um ano depois, novamente foi emprestado por meia temporada ao Millwall, de janeiro a junho de 2012. Em agosto de 2012, ele foi emprestado ao Norwich, mas novamente ficou só um semestre, voltando ao Tottenham no início de fevereiro de 2013. Seria, então, imediatamente repassado ao Leicester, em fevereiro de 2013. Lá, inclusive, jogou com Jamie Vardy, hoje seu companheiro de seleção. Ambos foram reservas, por algumas vezes.

Depois de ir bem no Millwall, o jogador tinha a esperança de jogar pelos Spurs, mas os empréstimos continuaram. E no Leicester, os questionamentos à sua carreira começaram. Não de ninguém mais, mas dele mesmo. Ele mal jogava pelo Leicester, então na segunda divisão, e o atacante se questionava: “Como irei jogar pelo Tottenham se nem consigo jogar em um clube da segunda divisão?”. Foi quando ele contou que a história de Tom Brady o motivou. Escolhido apenas como o 199º na sua turma do draft, ele se tornou um dos maiores de todos os tempos. Ele viu como Brady era subestimado pelos eu físico, por não parecer um grande quarterback. E como ele se via naquilo: as pessoas não o achavam um atacante com físico apropriado, não parecia o atleta que ele tentava ser, o jogador que sonhava ser.

De volta ao Tottenham, em junho de 2013, Kane seria emprestado de novo. Aos 20 anos, não teria espaço no clube, mais uma vez, e poderia tentar a sorte em outro lugar. Mas em uma conversa com o técnico André Villas-Boas, ele decidiu que queria ficar. Que ia buscar a sua chance, mesmo com o treinador português querendo que ele fosse emprestado. Ele decidiu que mostraria, nos treinos, que poderia jogar. Mesmo que isso custasse meses sem entrar em campo, talvez sem nem ir para o banco. Com Villas-Boas, ele não jogou, mas o técnico acabou demitido. Com Tim Sherwood, ele teve a oportunidade que sonhava. E aí sim, podemos dizer: o resto é história. Ele encantou, marcou gols, mostrou ser um atacante incrível. Tornou-se ídolo, sensação.

Só que ainda havia um questionamento. Na temporada 2013/14, ele teve suas primeiras chances com Sherwood, no final da temporada. Marcou seu primeiro gol na liga, contra o Sunderland, em 7 de abril de 2014. Foi em 2014/15 que ele brilhou. Foram 31 gols em 51 jogos. Virou titular, destaque. Mas aí a pergunta que vinha era: será que ele não é o chamado “one season wonder”, aquele que não passa de apenas uma temporada fora de série?

As temporadas seguintes provaram que não. Mais do que um centroavante goleador em boa fase, ele foi artilheiro da liga em 2015/16 (com 25 gols em 38 jogos) e 2016/17 (com 29 gols em 30 jogos). E só não foi artilheiro na temporada seguinte, 2017/18, porque Mohamed Salah teve uma campanha absolutamente espetacular, com 32 gols pelo Liverpool. Kane alcançou a sua melhor marca na carreira na Premier League, com 30 gols em 37 jogos.

A desconfiança de ser um “one season wonder” mudou completamente. Kane, aos 24 anos, foi escolhido pelo técnico Gary Southgate como o capitão da equipe. Na Inglaterra, isso é algo muito importante e a liderança de Kane, tão jovem, chama a atenção. Ainda mais em um elenco com líderes como Jordan Henderson, capitão do Liverpool, que tem 28 anos. Se alguém ainda duvidava de Kane, ele já marcou seis gols na Copa e é o principal candidato a terminar como Chuteira de Ouro do Mundial da Rússia.

Nesta quarta, em Moscou, tanto Mandzukic quanto Kane estarão onde muitos nem imaginariam quando eles começaram. Nas semifinais da Copa, brigarão por mais um passo rumo a uma glória que os marcará para sempre.