A ocasião era nobre. Ariano Suassuna iria receber do presidente de Portugal uma homenagem, a Ordem do Infante Dom Henrique. No convite, o pedido sobre o traje era bem claro, “esporte fino”. No entanto, o escritor havia desistido de usar terno ou smoking. Vestia apenas roupas feitas por uma costureira popular, inspirado em um texto de Gandhi sobre a exploração da Índia. Então, teve uma ideia para não deixar de cumprir a recomendação daquele convite.

LEIA MAIS: Como o escritor João Ubaldo Ribeiro antecipou a falta de talentos no futebol

De calça, casaco e sapatos pretos, camisa e meias vermelhas, Suassuna foi à solenidade. E ninguém poderia dizer que estava desobedecendo as regras para a ocasião. “Meu time é o Sport e resolvi colocar a roupa preta com uma camisa vermelha. Desse modo, fica a finura e o esporte. No caso, Sport Fino”, dizia. E aquele passou a ser o seu traje em qualquer evento que pedisse mais pompa. Tão nobre quanto a ocasião era a sua paixão pelo Sport, o clube que o acompanhou por toda a vida.

Mesmo quando não havia solenidade, Ariano Suassuna aparecia com seu traje Sport Fino. No caso, a camisa rubro-negra. Chegou até a inspirar uma das últimas versões do uniforme, que trazia no dorso uma das frases do escritor sobre o clube. Porque o homem que será para sempre lembrado pela forma como transformava a imaginação rica em belas palavras na página de um livro, também traduzia como poucos o gosto de torcer por um clube de futebol. No seu caso específico, pelo Sport.

Nascido em João Pessoa, Suassuna mudou-se para Recife quando tinha 15 anos. Mas desde aquela época já amava o Sport, clube que adotou como enquanto crescia no sertão da Paraíba. Na cidade do Leão, o garoto passou a frequentar desde a juventude a Ilha do Retiro. E um de seus companheiros de estádio era ninguém menos do que João Cabral de Melo Neto, outro imortal da literatura e torcedor do América pernambucano – “um dos poucos”, brincava o amigo.

O que acontecia naquele campo de futebol não foi incorporado à obra de Ariano Suassuna de maneira mais direta. No entanto, os sonhos que vivia nas arquibancadas da Ilha certamente nutriram a mente do escritor, capaz de obras tão brilhantes e de ideias que incentivaram a cultura brasileira, sobretudo a nordestina. Os olhos brilhavam com Ademir, Almir, Vavá. Das mãos, surgiam Chicó, João Grilo, Quaderna. Não à toa, definiu que a emoção pelo título do Sport na Copa do Brasil em 2008 só foi semelhante à do lançamento do Auto da Compadecida, seu maior clássico. “Na ocasião, todas as peças que nos antecederam foram vaiadas, mas nós fomos aplaudidos, aclamados pelo público. Senti o mesmo que uma vitória do meu Sport”, disse, em entrevista ao Globo Esporte, em 2012.

Certa vez, antes de uma participação na TV, Suassuna foi testar o microfone do repórter. Soltou a voz: “Viva o povo brasileiro. Viva o glorioso Sport Club do Recife”. Dois de seus maiores gostos eram esses: exaltar seu povo e seu clube. Até pouco antes de sua morte, nesta quarta-feira, o senhor de 87 anos continuava homenageando os seus amores. A literatura brasileira perde um de seus mestres, assim como as arquibancadas sentirão falta de um grande apaixonado. Para nossa sorte, Ariano é eterno em suas palavras.

As palavras de Suassuna

Abaixo, uma coleção de frases de Ariano Suassuna sobre o Sport Recife. Que cabem a qualquer torcedor, a qualquer clube, tamanha a paixão pelo futebol.

“Discordo de quem disse que dentre as coisas menos importantes da vida, a mais importante é o futebol. O Sport, para mim, é – e sempre foi – uma das coisas mais importantes na minha vida”

“Ser Sport é inexplicável”

“O Sport é o primeiro sem segundo”

“Dizem que sou rubro-negro doente, mas não. Sou rubro-negro saudável. Doentes são os torcedores de outros times, que não sabem escolher”

“Felicidade é torcer pelo Sport”