A Copa do Mundo de 2026 será a primeira que terá a sua sede escolhida depois do escândalo Fifagate, que devastou a entidade e levou dezenas de dirigentes presos, além do afastamento de outros tantos, como o ex-presidente Joseph Blatter, por irregularidades. Por isso, o modelo de votação foi alterado, assim como os famosos cadernos de encargos da Fifa para sediar o Mundial. Tudo para tentar tornar o processo mais transparente, diante de tantas suspeitas de irregularidades que permearam a escolha da Rússia para 2018 e Catar para 2022. É nesse cenário que Marrocos tenta, pela quinta vez, conquistar o direito de ser sede da Copa.

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A Copa 2026 será a primeira com 48 seleções, o que exigirá muito mais do país sede. Afinal, são 50% mais de seleções em relação às edições com 32 times, que vigoraram desde 1998 – até 1994 eram 24 seleções. Se esperam, portanto, mais jornalistas e mais torcedores do que jamais tivemos em Copas do Mundo. Marrocos apresentou uma candidatura ousada de sediar sozinho esse evento contra uma candidatura de três países, sendo os três enormes: Estados Unidos, Canadá e México. E a candidatura dos três, chamada de Candidatura Unida, aposta justamente em infraestrutura já pronta como um trunfo para a maior Copa da história.

Marrocos é um veterano em candidatura para sediar Copas do Mundo. Esta será a sua quinta tentativa. Antes, concorreu para sediar em 1994, 1998, 2006 e 2010. Nesta última, o país era o grande favorito, já que havia o rodízio de continentes e aquela edição seria, necessariamente, na África. Acabou derrotada pela África do Sul. Desta vez, Marrocos contará com o apoio de toda a África para tentar levar a Copa ao país pela primeira vez. E um dos motivos que a faz estar na disputa é justamente a mudança no sistema de votação.

Quando foram escolhidas as sedes da Copa de 2018 e 2022, em dezembro de 2010, a votação era restrita ao Comitê Executivo da Fifa, formado por 25 membros (naquela eleição de 2010, tr6es estavam suspensos e não puderam participar da votação). A falta de transparência da votação e as suspeitas de compras de votos fizeram com que o presidente da Fifa eleito após o Fifagate, Gianni Infantino, decidiu mudar o sistema.

Agora, todos os países membros da Fifa têm direito a um voto para escolher o país sede. Isso significa que 207 países terão direito a votos (são 211 membros, mas quatro não podem votar: as quatro candidatas). Isso, em tese, dificulta muito a compra de votos. E, mais do que isso, o fato de ser aberto torna as coisas mais transparente. E também mais político, em certo modo. E isso pode ser favorável a Marrocos.

Isso porque a Confederação Africana de Futebol (CAF) tem 56 membros. É muito provável que todos, ou quase todos, votem pelo Marrocos. O fato do voto ser aberto faz com que não apoiar uma candidatura do continente possa ser um problema para ser gerido pelas federações de futebol depois, internamente, já que se relacionam muito.

Jamil Chade, correspondente do Estadão em Genebra, e que cobre a Fifa há muitos anos, leva em conta esse aspecto na sua análise sobre as candidaturas. “Há um ano eu disse que Marrocos não tinha nenhuma chance de lutar contra a América do Norte, que conta com dinheiro, infraestruturas e a tradição do futebol no México. Mas agora, apesar de achar que os Estados Unidos têm mais chances, acredito que Marrocos é uma ameaça real para a outra candidatura”, disse ele ao jornal El País.

“Os Estados Unidos poderiam receber a Copa amanhã mesmo e os benefícios para a Fifa seriam extraordinários. Marrocos, no entanto, não mudará a história financeira da Fifa. Além disso, Gianni Infantino, o presidente da Fifa, está fazendo uma campanha deliberadamente a favor dos Estados Unidos. Foram os americanos que ajudaram Infantino a ser eleito presidente em 2016. Ele tem uma dívida política com eles”, disse ainda Jamil Chade.

Antes, com apenas 25 votos para definir a sede da Copa, comprar votos era muito mais simples. “Bastavam 13 votos para conseguir ser sede da Copa. Saía muito barata a compra. Agora, é igualmente fácil de comprar votos, mas o total sai mais caro, porque há muito mais gente. A candidatura vencedora precisa de 104 votos, muitos deles pertencendo a países muito pobres”, explicou Jamil Chade.

O fator político

Além de todos os 54 votos da África, Marrocos conta com um aspecto geopolítico: a rejeição ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por sua política externa. Espera, assim, conquistar diversos votos da Ásia e também alguns da Europa. Em entrevista à ESPN americana, diversos dirigentes de federações afirmaram que Marrocos já teria votos em várias confederações, suficiente para ameaçar e até vencer a candidatura tríplice norte-americana.

Não é difícil entender: países de maioria muçulmana, por exemplo, não devem votar na candidatura norte-americana. Mesmo que Trump não esteja mais no poder em 2026, a represália viria agora. E, além disso, há a questão da política esportiva em si: o país que votar nos Estados Unidos, pelo voto ser aberto, será cobrado localmente por esse voto.

“Não é tão óbvio que vença a melhor candidatura. Em 2010, venceu a África do Sul diante de Marrocos, que era melhor. Hoje, depois da investigação do FBI, está claro que se não fosse pela compra de votos da África do Sul, Marrocos teria vencido. Por outro lado, temos o fator Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos aborreceu muitos países e isso pode favorecer Marrocos. Além disso, dentro da Fifa há um sentimento de revanche contra o FBI, porque foram eles que destruíram o modelo de crime organizado que acontecia na entidade”.

Marrocos tem apostado em uma campanha que mostra a paixão do seu povo pelo futebol. Isso, porém, passa muito, muito longe de ser um fator importante na hora de votação, segundo Jamil Chade. “Depois de 20 anos cobrindo a Fifa, a única coisa que descobri é que o futebol não é o que determina as decisões. Catar era a pior candidatura técnica em 2022 e ganhou. E a Rússia era a pior candidatura técnica em 2018 e ganhou”, analisou Chade.

Sul-americanos com Marrocos?

Um dos continentes onde a reportagem da ESPN diz que os marroquinos conseguiram promessas de votos é justamente na América do Sul. Isso porque, diz a reportagem, os dirigentes daqui se sentem ameaçados pela justiça dos Estados Unidos, que prendeu alguns dirigentes daqui. José Maria Marin, presidente da CBF em 2014, está preso em Nova York. Marco Pólo Del Nero está no processo do Departamento de Justiça americano e sabe que não pode sair do país para não ser preso e deportado aos Estados Unidos para responder por crimes similares aos de Marin.

Com esse cenário, alguns dirigentes podem acabar votando em Marrocos. Só que isso significa também que esses dirigentes serão cobrados localmente por isso. Marco Pólo Del Nero não estará na votação, no Congresso da Fifa que acontece no dia 13 de junho em Moscou, mas o presidente da CBF em exercício no dia será cobrado pelo seu voto quando voltar ao Brasil. No dia 17 abril estão marcadas eleições na CBF e o candidato de Del Nero é Rogério Caboclo, atualmente diretor executivo da entidade, que será aclamado presidente, já que ele é candidato único. Quando ele exercer o seu voto em Moscou, será cobrado para explicar seus motivos quando chegar ao Brasil.

Temor de eliminação precoce

Um dos pontos críticos que se tornaram justamente um motivo para questionar a Fifa foram os relatórios técnicos das candidaturas dos países que querem sediar a Copa. Em 2010, os relatórios feitos pela própria Comissão da Fifa foram ignorados. Se levantaram diversas questões que poderiam ser problemas nas candidaturas da Rússia e especialmente do Catar, desde saúde dos jogadores pelo enorme calor no país do Oriente Médio até condições de infraestrutura e de trabalho nesses países.

Segundo reportagem da BBC, Marrocos precisará de investimento governamental para atender às exigências de infraestrutura no país. A estimativa é que precisará de 16 bilhões de dólares. Assim como já ouvimos antes em outras candidaturas, seja de países pequenos ou grandes, os organizadores afirmam que irão buscar parte desses recursos na iniciativa privada.

Desta vez, a Fifa afirma que os relatórios técnicos serão cruciais para as candidaturas. Por isso, eles podem inclusive eliminar os candidatos antes mesmo da votação, no dia 13 de junho. Marrocos pretende usar 14 estádios na Copa 2026. Cinco deles estão construídos (Marrakesh, Tanger, Agandir, Fez e Rabat), dois estão em construção (Tetuán e Uchda) e outros sete seriam construídos (dois em Casablanca, um segundo em Marrakesh, e os demais em Uarzazat, Nador, Meknes e Eljadida).

O grande temor da candidatura dos marroquinos é justamente não conseguir demonstrar ter condições de sediar o evento nas visitas técnicas da Fifa. Contra uma candidatura norte-americana rica e que aposta em infraestrutura já pronta, esse é um fator de fato que preocupa. Marrocos, porém, segue esperançosa que desta vez conseguirá receber uma Copa do Mundo no seu país, na quinta tentativa.