Mesmo dentro do futebol feminino, o nicho é restrito. Poucas são as mulheres atuando como treinadoras nas equipes brasileiras. Emily Lima é uma das exceções. Fez sua carreira como atleta, defendendo clubes como São Paulo e Santos, além de passar pelo futebol europeu. Neste tempo, também se preparou para seguir na modalidade após pendurar as chuteiras. E, desde 2010, trabalha à beira do campo. Passou pelas equipes femininas da Portuguesa e do Juventus. Em 2013, deu um passo além, como técnica das seleções brasileiras sub-15 e sub-17. Por fim, em janeiro de 2015, foi anunciada como a nova comandante do São José Esporte Clube, um dos principais clubes entre do feminino, dono de três taças da Libertadores.

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Pelo São José, Emily conquistou o Campeonato Paulista de 2015 e foi vice-campeã Brasileira no mesmo ano. Agora, tenta o seu primeiro título nacional na Copa do Brasil. O segundo jogo da decisão será realizado nesta quinta, contra o Audax/Corinthians (editado às 22h30: o time de Osasco venceu por 3 a 1 e ficou com a taça). Na ida, empate por 2 a 2 no Estádio Martins Pereira, em São José dos Campos. Já a volta acontece no Estádio José Liberatti, apesar da tentativa de dirigentes mudarem a realização para o sábado, na Arena Corinthians. A intenção era fazer a final feminina como feminina como preliminar de Corinthians x Chapecoense, pelo Campeonato Brasileiro, o que acabou não sendo aceito pelas equipes diante do horário do pontapé inicial, às 13 horas – sob óbvio risco de condições desgastantes às atletas.

Às vésperas da importante partida, Emily falou com a nossa reportagem. Bateu um papo longo, analisando principalmente o panorama do futebol feminino no Brasil e as condições de trabalho para as treinadoras mulheres no país. Uma conversa que também permeou a seleção brasileira, a realidade do São José e as iniciativas na América do Sul. Confira:

Trivela: A gente sabe que não é uma situação só particular do futebol feminino, mas o número de técnicas é reduzido no esporte em geral. O que você vê um empecilho para isso na sua modalidade?

Emily Lima: Primeiro, acho que a gente, ao invés de ter o crescimento no número de ex-atletas que viram treinadoras, sofre com o desinteresse delas. Dificilmente você sobrevive só com o futebol feminino, mesmo sendo treinadora. Você precisa ter outra fonte de renda. Depois, acho que a CBF ou as federações precisam criar cursos de capacitação para as treinadoras. Ou licenças, algo parecido com isso, que é o que outras federações fazem aí fora. Por exemplo, Portugal dá uma bolsa para as ex-atletas da seleção que quiserem fazer o curso da Uefa. Ele dá um meio para as que querem seguir no futebol, na gestão ou em outras posições. Mesmo aqui no São José, as jogadoras estão estudando para serem nutricionistas, fisioterapeutas, professoras de educação física, mas não treinadoras em si. O desinteresse está muito grande e a gente tem que tentar trazê-las para nós. Se o número já é pequeno e o desinteresse é grande, dificilmente teremos treinadoras.

Trivela: Essa questão das ex-jogadoras não virarem treinadoras acontece mais por conta da falta de interesse ou pela falta de incentivo da CBF?

Emily Lima: Um pouco das duas coisas. Porque você imagina: essas meninas trabalham por 12, 14 anos, algumas até mais, com todas as dificuldades que o futebol feminino tem. E depois ela ainda vai querer continuar nesse meio, sendo que pode estudar paralelamente, fazer faculdade e buscar sua vida em outra coisa? Então eu acho que é um pouco das duas coisas. A falta de incentivo das federações e da CBF em capacitar as treinadoras, as ex-atletas em si, e o desinteresse também. É 50% de cada um.

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(Tião Martins/PMSJC)

Trivela: Outra questão importante é sobre as categorias de base. De certa forma, o desenvolvimento das categorias de base no futebol feminino não poderia melhorar esse panorama das treinadoras mulheres? Afinal, é mais fácil ser uma treinadora do que um treinador na base para trabalhar com as meninas, até pela questão psicológica.

Emily Lima: Com certeza, isso seria fundamental. E aí é onde eu vejo que abriria o mercado. Porque, hoje, vamos falar na Copa do Brasil. São 32 equipes, mas a gente não tem 32 treinadoras para estar à frente dos times. Não por capacidade, mas simplesmente porque não tem. Na Copa do Brasil, são seis treinadoras contando comigo. Pouco. Isso em uma modalidade que, olhando lá fora, tem muita mulher trabalhando na função ou mesmo como assistente. E lá fora tem assistente mulher trabalhando no masculino. Então, eu foco na cultura do país mesmo. Eu acho que a gente vem mudando esse perfil não só no esporte, mas em todas as áreas. Você pode ver que as mulheres estão começando trabalhar em áreas que antes não trabalhavam. É cultural, é ir ganhando espaço. Com o tempo a gente vai se desenvolvendo melhor, mostrando a cada dia que somos capazes. Porque, senão, ela não serve por ser mulher. Quando olham que a gente tem capacidade para fazer aquela função, acabam acreditando. O homem não precisa provar que é capaz, mas a gente precisa provar a cada dia que nós somos capazes de estar nesta função. Eu acho que é uma questão cultural, mas as coisas estão mudando

Trivela: Você não acha que, no futebol, não existe uma barreira maior em relação ao resto da sociedade neste ponto? Um preconceito maior?

Emily Lima: Sim, com certeza. No futebol muito mais. E não falo só entre treinadoras, mas também entre as atletas. Na minha época, quando eu jogava, era eu no meio de 50 moleques. Hoje não é assim. Por isso que eu falo que as coisas estão desenvolvendo. Hoje, 20 meninas jogam no meio de 50 moleques. A procura das meninas pela modalidade é muito grande, cresceu demais. Eu iniciei um projeto junto com o pessoal do Juventus em 2011, uma escolinha de futebol feminino. O coordenador falou: “Tem seis meninas só”. Eu disse que não tinha problema, iríamos iniciar com as seis. E quando eu saí, em 2013, eram mais de 20 meninas, a base do time que disputa o Paulista. É preciso acreditar, porque a procura existe. Os clubes precisam abrir as portas para que elas possam fazer o que gostam e trabalhar.

Trivela: Hoje, olhando para a situação como está, e até por estarmos em uma época na qual futebol feminino volta a “adormecer”, após as Olimpíadas: o que pode ser feito para acelerar o desenvolvimento do futebol feminino?

Emily Lima: A gente tem que continuar caminhando e trabalhando da maneira como vem fazendo. Não podemos ter essa comparação, que fizeram nas Olimpíadas, com o futebol masculino. Nós perdemos com esta comparação. Isso prejudica a gente. Temos que esquecer o futebol masculino, trabalhar com o feminino. A Olimpíada trouxe o que de bom? Isso, isso e isso. Então vamos trabalhar, e não comparar. Repercutiu nas redes sociais, vendeu camiseta pra caramba? Vamos trabalhar para que as pessoas possam conhecer a modalidade. Porque as pessoas só conhecem Pan-Americano, Copa do Mundo e Olimpíada. Porque ninguém está sabendo que teve a final da Copa do Brasil, ninguém soube do Paulista, do próprio Brasileiro. Alguma TV transmitiu o primeiro jogo da Copa do Brasil?

A gente não pode se enganar. Nós que estamos na modalidade, sabemos que o reconhecimento vem de quatro em quatro anos. A Olimpíada dá aquele boom e depois morre. Apagou tudo e agora a gente recomeça. Mas eu acredito que a cada ano vamos somando algo a mais para a modalidade. Você vê que a CBF já criou junto com o Ministério dos Esportes este Brasileirão Caixa; a federação paulista faz um trabalho diferenciado, com uma ex-atleta que sabe da modalidade; estão estudando melhorias para 2017. Então, é dar espaços nas federações a pessoas que conhecem a modalidade. Não é para botar o meu amigo, e sim uma ex-atleta ou um dirigente que tenha essa capacidade para desenvolver. E não leva tanto dinheiro quanto eles falam.

(Tião Martins/PMSJC)

(Tião Martins/PMSJC)

Trivela: Aproveitando que você citou o trabalho da Aline Pellegrino, na federação paulista, como você vê o intuito de contratá-la e como está sendo a relação neste início?

Emily Lima: Eu estou vendo o trabalho um pouco de longe, porque não participei de nenhuma reunião ainda, não fui convidada. Sei de longe, mas sei que o trabalho dela vai ser de grande importância para a modalidade. Independente se eu seguir ou não na modalidade, vai ser bom. Porque eu estive há muitos anos, pretendo ficar, mas se eu tiver qualquer outro convite para trabalhar no masculino, na base do masculino, eu vou seguir a minha vida. O futebol feminino é bastante complicado também devido às pessoas. É muito ego, muita briga por poder. Uma modalidade que não tem nada e ainda existem egos, que eu vejo que no masculino não há. Lá as coisas são resolvidas da maneira que precisam ser resolvidas e ponto final. Eu venho pensando muito no que eu vou fazer no ano que vem, devido a isso. Gostaria de ficar aqui? Muito. Mas muita coisa vai ter que mudar. Se não mudar, eu não consigo mais. Eu fui até o meu limite, espero que a gente consiga essa Copa do Brasil, com todas as dificuldades que nós tivemos, e aí partir para uma outra caminhada.

Trivela: Tocando neste ponto do futebol masculino, na Europa vemos alguns exemplos de treinadoras inseridas neste universo. Como você analisa uma possível ponte aqui no Brasil? Quais as diferenças no trabalho?

Emily Lima: Eu não vejo dificuldades. Para ser treinadora, primeiro eu vou ter que provar, como assistente, que eu tenho capacidade para estar ali. O São José dos Campos FC [outro clube da cidade] está me dando uma oportunidade de fazer esta ponte. Ao término da Copa do Brasil, eu vou para o sub-20, que disputará a Copinha, para fazer toda a preparação. Será uma experiência muito boa. Devido à licença que eu tenho da CBF, preciso de 40 horas de estágio e eu vou aproveitar este convite. Tentar somar o máximo que eu puder com o treinador, o Guilherme, que é a pessoa que me convidou. As coisas vão acontecer. Eu preciso só estar preparada e trabalhar. Eu acredito nisso.

Trivela: A Conmebol teve uma iniciativa neste novo regulamento da Libertadores que é a de exigir que os participantes no masculino criem a sua equipe feminina. Como você vê isso? É algo paliativo ou pode ir para frente?

Emily Lima: Eu acho que é válido. E isso vai acontecer. Vai pegar e vai dar sequência. Primeiro, porque existe uma pessoa chamada Lorena Soto. Ela é ex-atleta, fez toda a sua formação na universidade americana e hoje podemos dizer que coordena o futebol feminino dentro da Conmebol. Ela está levando novas ideias. Fora isso, a Colômbia está montando um campeonato de futebol feminino profissional, com 18 equipes. Isso também vem de encontro com o que a Libertadores pretende. A Conmebol está nos ajudando, a Fifa nem fale. E a CBF, vendo as coisas acontecerem, não poderá ficar para trás. Eu acredito que essa iniciativa vai começar a contagiar e as coisas vão acontecer. Esse projeto da Colômbia é muito interessante. O da Libertadores também. E não só porque o time feminino será criado, mas porque ele precisará ser mantido o ano inteiro. Isso é o mais importante. Porque se eles obrigam a ter apenas durante a Libertadores, em um mês montariam o time, pronto, acabou. A forma como fizeram foi a mais inteligente para ajudar o feminino.

Trivela: Esse caso da Colômbia, de alguma forma, pode servir de espelho para uma melhora no Brasil?

Emily Lima: A CBF tem muitos espelhos. É só ela olhar para Estados Unidos, Suécia, Alemanha. E agora a Colômbia fazendo o mesmo modelo lá de fora. Existem os espelhos, mas não há o interesse de fazer. Quando o futebol feminino começar a dar o retorno que eles esperam, vão investir mais. Como o futebol é um negócio, e o futebol feminino só dá despesa, vão esperar até o limite. Penso que a Fifa está investindo muito no futebol feminino porque, mais para frente, será uma modalidade que também vai dar dinheiro.

Trivela: Mesmo nos grandes clubes, você acha que a ideia da Libertadores pode vingar? Porque outras experiências não duraram muito.

Emily Lima: Eu vejo com bons olhos. Não tem como ver com olhos de que não vai dar certo. As pessoas não conhecem a modalidade e, quando conhecem, se apaixonam. Eu sempre falo isso. É claro, é uma modalidade que ainda não dá retorno financeiro. Mas com o investimento de qualquer clube grande, com 1%, você faz o feminino. É começar para ver como as coisas vão se encaminhar. Eu acredito que vai dar certo.

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Trivela: Entrando um pouco na questão de mulheres no papel de comando, Marco Aurélio Cunha declarou em agosto, ao site Dibradoras: “Não tem mulheres na comissão técnica da seleção feminina atualmente, estou pensando em dar essa contribuição, mas é preciso ter mulher preparada, capacitada”. Gostaria de saber a sua opinião sobre esta posição, pensando também nos demais cargos.

Emily Lima: É uma declaração infeliz da parte dele, porque existem mulheres capacitadas. E ele acabou soltando um comentário infeliz. Eu já estive em reuniões na CBF, por conta do comitê de reformas do qual faço parte, e foi uma das discussões que eu tive com ele. “A gente precisa de mulher capacitada”. Ele nunca veio aqui ver o meu treino. Ele nunca foi lá Bahia ver o treino da Dilma. Ele nunca foi no Sul ver o trabalho da Tatiele. Existem mulheres, só que eles não vão ver. Já foram pesquisar? Quem disse que o treinador que assumiu ou que vai assumir é capacitado? A gente não sabe também. A gente está falando de futebol feminino. Então, algumas colocações às vezes são infelizes.

Não sei se é porque ele sempre trabalhou no masculino e tem a visão do masculino, mas é muito complicado você ouvir isso, que está há muitos anos no futebol feminino. Ver uma pessoa que chega de paraquedas e não procura saber. Mas não é assim que funciona. A partir do momento que eu chego em um ambiente, vou querer saber onde estou pisando, como funciona. Eu não vou dizer que é assim que funciona, do meu jeito. Eu vou ter humildade o suficiente para querer aprender, para querer saber. Daqui a cinco, dez anos, eu vou falar que sei. “Não existe mulher capacitada”. Mas enfim, a gente releva. O que vale para mim é continuar trabalhando. E quando surgir qualquer oportunidade, estar preparada. E quando ele ver que não era aquilo, que ele perceba que falou besteira. Eu deixo para que ele, mais para frente, reflita e peça desculpas – nem para mim, mas para as demais treinadoras que merecem respeito.

Trivela: Pensando nessa questão dos dirigentes e de quem está no comando, você, como alguém que vê por dentro, sente que o futebol feminino é uma moeda de troca política? Tanto pelo Marco Aurélio Cunha quanto pelo Vadão? A gente criticou na Trivela o trabalho coletivo do Vadão durante as Olimpíadas, principalmente na semifinal, e ele continua à frente da seleção. Algo que no masculino, provavelmente, seria inconcebível.

Emily Lima: Não só dentro do futebol masculino, mas no feminino essa manutenção nunca existiu. Eu estou há 25 anos na modalidade e todos os treinadores que não obtiveram o resultado esperado foram embora. Isso foi surpreendente. Ou ele tem uma força muito grande ou algo ali acontece. A gente só pode pensar isso. Quando acaba um ciclo olímpico, temos que pensar já no próximo. Acabou em agosto, temos que pensar em renovação, no que vai acontecer, acompanhar o Mundial Sub-20. Eu tenho que, no amistoso seguinte, como foi contra a França, preciso das atletas do meu próximo ciclo. Será que a Formiga vai estar na próxima Olimpíada? Eu acho que não. É trocar, renovar. Por isso que a gente não consegue renovar, porque fica na mesmice e não tem peito de arriscar. Na própria Copa do Brasil e no Brasileiro, existem muitas atletas que podem ser trabalhadas na seleção. Não é uma crítica, mas é uma maneira que eu vejo, que eu sempre vi. Acaba o ciclo, muda tudo se não deu certo, ou mesmo se deu certo – muitas vezes dá certo e muda. Começa uma nova metodologia de trabalho, um novo treinador que vem com outra cabeça. E o Vadão continuou. Espero que seja um planejamento melhor elaborado do que o que foi. Isso que a gente espera. Se ele continuou, parabéns. Agora, as coisas precisam mudar.

A gente precisa melhorar a cada dia. E dependemos muito do trabalho que a CBF faz. Eu não reclamo da CBF, como muitas vezes as pessoas falam, que não investe ou não está nem aí. Porque ela dá todas as condições para a seleção feminina principal, sub-20 e sub-17. Quando eu estive lá, era assim. Com dificuldades? Muitas, mas não é dificuldade financeira, de não ter estrutura. É tudo de primeira qualidade. A dificuldade é, como não há o desenvolvimento da modalidade dentro do país, eu tinha que fazer das tripas coração para convocar as meninas da base. Porque não tem competição. Você tem que fazer seletiva, trazer menina. Mas na principal eu já vejo outra realidade. É escolher a dedo. Se vai estar preparada ou não, não sei – muitas vezes não, porque não teve a base. A gente precisa formar atletas inteligentes. Porque o material, na principal, tem que ser pronto. E aí sim buscar o resultado.

Isso tudo é minha opinião. É como vejo a modalidade, como eu trabalharia não só dentro da seleção brasileira, mas em qualquer seleção. Talvez porque eu vivi lá dentro, também como atleta. Isso facilita. Eu não faria tudo igual. Eu pegaria o modelo do Renê Simões, que é um treinador que eu tenho como espelho, e chamaria ele para conversar. Só que isso não existe aqui, os treinadores não se comunicam no futebol feminino. É um grande problema. Para agregar, para a gente mudar a nossa realidade, tem que conversar e se reunir. Imagine se todas trabalhassem no mesmo modelo, não ajudaria a seleção? Eu acho que sim. A parte física, tática e técnica. Isso para mim não é o ideal, mas dentro do que a gente vive no futebol feminino, seria. Se todas as categorias tivessem competição, igual o masculino, naturalmente as coisas iriam acontecer. Mas, como não tem, a gente precisa achar as ferramentas para ir à batalha. Só quem está lá dentro sabe o quanto é difícil. Porque estar fora e ficar criticando não é o ideal. O ideal é dar sugestões. A gente tem que tentar se ajudar de alguma maneira.

(Tião Martins/PMSJC)

(Tião Martins/PMSJC)

Trivela: Essa ideia de planejamento que você falou, me pareceu um pouco contrária ao que a CBF fez em relação a esse último ciclo olímpico. Como você analisa a seleção permanente?

Emily Lima: Eu não acho a seleção permanente ruim. Eu achei o planejamento ruim. Porque em 2004, o professor Renê Simões fez a seleção permanente e ela durou cerca de seis meses. E não é que a seleção permanente não possa acrescentar ou tirar atletas. Você tem uma base. É como se fosse um clube. Com essa base você vai trabalhar e vai prepará-la à competição. O que foi feito? Eu ouvia do nosso coordenador, o Marco Aurélio, que a seleção era permanente, as atletas não. Então não é permanente. O que eu conheço como permanente, como a seleção americana faz e o professor Renê fez, é manter o máximo de atletas que estarão na competição. Para que todo mundo chegue igual fisicamente, taticamente, tecnicamente. Quanto mais elas se conhecerem dentro e fora de campo, melhor. O professor Renê tinha um staff de 15 pessoas, com psicólogo, preparador físico, assistentes, completo. A única atleta que ficou de fora foi a Marta, que tinha um patrocínio absurdo. Dentro da realidade do futebol feminino, ele não conseguiu trazê-la, mas ela era a exceção. O resto do grupo que jogou, esteve na permanente.

Nesta última seleção, foi o contrário. A maior parte do grupo que jogou as Olimpíadas estava fora do país. É difícil você brigar e se desgastar por causa disso. Fiquei muito triste de não ver a Formiga conquistar algo. Eu fiquei, porque ela está há anos e não conseguiu nenhum título. É muito tempo para não conseguir nada. E muito tempo que nós tivemos momentos bons de investimento para a seleção – não para a modalidade, mas para a seleção. Eu acredito que, em 2016, foi o ano em que mais se investiu na seleção permanente. Gastou-se muito dinheiro e o resultado não aconteceu de novo. Pelo contrário, caiu antes do esperado. A gente fica pensando, será que vai mudar? Será que vai continuar no formato que não deu certo? A gente fica aguardando. E para isso, a gente precisa se capacitar, trabalhar, conquistar os títulos. Porque eu estou em uma equipe que cobra resultado por conta do investimento. Aqui a seleção não muda nada e, se eu não conseguir resultados, eu vou para a minha casa.

Trivela: São José dos Campos é uma cidade potencialmente carente em futebol, com seu principal clube masculino (o São José Esporte Clube) na quarta divisão estadual. O feminino, por sua vez, vem conseguindo mobilizar bem a torcida. Como você vê esse trabalho e a realidade na cidade?

Emily Lima: São José tem espaço para o futebol masculino. Mas quando a gente fala de interior, você pensa muito em política. E o futebol masculino, desde que eu estou aqui, não anda devido a política. Politicamente, aqui, é muito difícil de se trabalhar. Também no futebol feminino, politicamente, dentro do São José. Se não existisse a prefeitura, não existiria o São José feminino. É como eu vejo. É totalmente dependente da prefeitura. E se o prefeito faz como no basquete? “Acabou, não quero”. Acaba a modalidade? Um time como o do basquete, que é tão bem visto na cidade, deu tantos resultados, e acaba do nada?

As pessoas que trabalham dentro do futebol feminino têm que buscar outros recursos. A cidade é muito grande, tem muitos investidores. E é uma equipe que está a todo momento sendo divulgada. Então, acredito que, se trabalhasse um pouco mais o marketing, a prefeitura seria uma ajuda, e não o patrocinador principal. Eu penso desta maneira. Porque, se no ano que vem eles falarem que não vão ajudar o futebol feminino (não acho que vai acontecer, mas é uma possibilidade), o time acaba, sem patrocinador. O clube, São José EC, só nos oferece a marca. A sede do futebol feminino é a Secretaria de Esportes. Agradeço a tudo que eles fizeram, não só por eu estar aqui, mas desde 2010, 2009, do jeito que estão trabalhando em cima da modalidade. O futebol feminino existe por causa das prefeituras. Imagina se elas deixam de investir? A primeira modalidade que cai é o futebol feminino. Mas o futebol feminino precisa caminhar com as próprias pernas, sem depender só disso.