Talvez você tenha passado esse feriadão prolongado inerte, alheio ao que acontecia no mundo do futebol. E, mesmo que estivesse ligado, talvez nem soubesse que nas entranhas do Brasil um novo campeão surgiria. O Mané Garrincha, uma das empoladas arenas da Copa, coroou o vencedor do torneio mais alternativo do Brasil. A Copa Verde teve sua primeira edição neste ano, reunindo clubes do Norte, do Centro-Oeste e do sempre isolado Espírito Santo. E o Brasília é o primeiro a triunfar, em uma eletrizante decisão contra o Paysandu.

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A Copa Verde tem seus pontos contestáveis. Em certa maneira, serve como mecanismo político da CBF para satisfazer as federações, especialmente por oferecer uma vaga na Copa Sul-Americana. Porém, qualquer relutância desaparece junto com o racionalismo em uma final empolgante. A rejeição é encoberta pela emoção. O futebol, em sua essência, é capaz de deixar de lado o debate, por mais que ele deva voltar quando a poeira abaixa.

Isso que o jogaço desta segunda-feira foi capaz de fazer. A atmosfera em Brasília era incrível antes mesmo da partida. Depois da virada no primeiro duelo por 2 a 1, com uma imensa prova de fanatismo no Mangueirão e em seus arredores, a torcida do Paysandu resolveu invadir Brasília. Compareceu em massa, dividiu as cores entre o vermelho e o azul celeste, se fez mais barulhenta durante a maior parte do tempo. Ao todo, foram 51 mil ingressos distribuídos, um número satisfatório, mas também explicado pelos subsídios dados pelo governo de Brasília a 40 mil deles – a média de custo de cada entrada foi de cerca de R$ 3,80. Nem todos os que receberam ingressos estiveram presentes, é claro. E, apesar de tudo isso, o espetáculo notável.

Já em campo, não dá para dizer que a partida foi um primor. Ainda assim, o que interessa mesmo no futebol é o magnetismo que a bola consegue exercer sobre os olhares de todos. E isso não faltou na final da Copa Verde. Foram alguns lances de pelada, o que não minimizou a tensão e a empolgação com o duelo. O Brasília abriu o placar graças a um pênalti (marcado após um ‘milagre’ do defensor adversário, que espalmou a bola em cima da linha) e anotou o segundo logo no início do segundo tempo, com Alekito, o que garantiria o título. Aos 39 do segundo tempo, contudo, o Papão foi buscar o tento que lhe daria sobrevida, com Leandro Carvalho, que levaria a decisão aos pênaltis.

O goleiro Matheus defendeu logo a primeira cobrança do Brasília, o primeiro candidato a herói. No entanto, chute a chute, os batedores iam prevalecendo. A taça parecia nas mãos do Paysandu até o último tiro dos paraenses, de seu ídolo maior, o atacante Lima – o Limatador, Limandzukic, Limandowski ou seja qual for seu apelido preferido. Só que o goleiro Artur foi buscar, adiar qualquer comemoração. E, depois de duas séries alternadas, o arqueiro do Brasília se consagrou de vez. Talvez inspirada pelo corte de cabelo no melhor estilo Dida, que talvez também tenha intimidado seu adversário, defendeu o chute de Heliton. Coube a Fernando marcar o gol do título, 7 a 6 nas penalidades. Uma infelicidade imensa de Matheus, que deixou a bola escapar de seus dedos, tocar o travessão e entrar.

Comemoração mais do que merecida do Brasília, de campanha marcante. Eliminou CENE, Cuiabá, superou o tenso clássico com o Brasiliense na semifinal e conseguiu se impor sobre o Paysandu – que também merece palmas pela paixão demonstrada por sua torcida, digna de uma fase muito melhor do que a vivida na Curuzu recentemente. Aos colorados, resta a festa pelo título mais importante da história do clube. E esperar mais de um ano para disputar a Copa Sul-Americana de 2015, mesmo sem saber direito como será a vida no próximo semestre. Afinal, por mais que sobre emoção, racionalismo não é o forte dos poderosos de nossas federações, ainda mais quando há interesse político em jogo.

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