José Maria Marín não tem cabelos arrepiados, cara de louco e o Michael J Fox como amigo. Mas ele inventou a máquina do tempo, e uma muito melhor que o DeLorean turbinado com plutônio, cascas de banana e um capacitor de fluxo. Porque o presidente da CBF fez todos voltarem no tempo, e sem que ninguém tivesse nenhum jetlag dessa viagem.

O futebol brasileiro voltou à Idade Média, em um período em que o senhor feudal tudo podia e tudo fazia, e seus servos tomavam as pancadas que fossem que ainda tinham de baixar a cabeça e pedir perdão pela ousadia de reclamar. Afinal, ter a benevolência do duque local era o único modo de ter um lugar para dormir e trabalhar.

É esse tipo de relação que está por trás do escândalo do empréstimo cala-boca que a CBF propôs a Portuguesa. O clube está em confronto com a entidade pelo direito a uma vaga na Série A de 2014, e ainda assim pede um empréstimo de R$ 4 milhões a ela. Em troca, recebe uma minuta de contrato com uma proposta de acordo extrajudicial para não criar mais problemas ao STJD.

Pode-se aqui acusar a Portuguesa de amadorismo ou burrice por pedir empréstimo a um oponente, mas as relações do futebol brasileiro foram estruturadas por décadas para fazer que os clubes se tornassem dependentes das federações. Uma dependência política e econômica, que passou a ser tratada do modo menos sofisticado e discreto possível. É só ver como dirigentes ligados à reconheceram ter feito a proposta, como se não entendessem o caráter antiético dela, e ainda a trataram como algo natural.

A questão da proposta de acordo da não é o pedido de empréstimo da Portuguesa (praticamente todo mundo já pediu), se é uma admissão de culpa da CBF (tese bastante contestável) ou se ele denota algum temor da entidade de não conseguir fazer o Brasileirão de 2014 como previsto. É, sim, como ela escancara a relação de forças no futebol nacional. Uma entidade poderosa e rica impõe suas vontades diante de clubes que, com medo de eventuais represálias políticas ou econômicas, baixam a cabeça, mesmo depois de já terem tomado uma pancada.

Enquanto isso não mudar – e a criação de uma liga é o caminho mais simples -, podemos discutir o quanto for se a Justiça tem de colocar Portuguesa, Fluminense, Flamengo, os três ou ninguém na segunda divisão. Fará pouca diferença. Os clubes continuarão com medo da CBF, que exerce seu poder do modo mais medieval possível: dominação e generosidade calculada para quem não criar problemas. E o futebol brasileiro, que chegou a dar sinais de modernização no início dessa década, volta alguns séculos no tempo. É capaz até de algum clube criar o departamento de duelo de cavaleiros. O Marin talvez goste.

Duelo de cavaleiros medievais

Duelo de cavaleiros medievais


3 respostas para “Empréstimo da CBF à Portuguesa mostra que futebol brasileiro ainda vive no feudalismo”

  1. Ogg Valdo disse:

    Isso é Brasil… Um lugar onde as pessoas tem poder e veem estar acima das leis e principalmente pensando neles mesmos apenas, só para manter o poder… Vergonhoso.

  2. Giovanni Vitale Mazzanati disse:

    A Portuguesa pediu o empréstimo antes do escândalo, então não “amadorismo e burrice”.

    E dizer que Marin governa de modo feudal é um desrespeito… com o feudalismo. Na relação de suserania e vassalagem, ao menos, o vassalo recebia proteção militar em troca!

  3. hilton dominczak disse:

    Criação de liga não resolve nada, pois os cartolas são todos farinha do mesmo saco, envolvidos com a velha política, com velhos métodos de administração, com lavagem de dinheiro na compra de atletas. Enfim, o futebol brasileiro está falido, e só não vê isso quem não quer.

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