“Gol do Emelec”. A frase fantasmagórica, dita no ouvido de Léo Moura, certamente ecoou na cabeça do torcedor rubro-negro ainda assombrado pelo velho trauma. Três eliminações consecutivas na fase de grupos da Libertadores deixaram os seus temores. A situação nesta quarta-feira até era favorável ao Flamengo – mais do que o time merecia, por aquilo que produziu nas partidas anteriores no torneio. Uma vitória simples contra o adversário mais fraco da chave bastaria para, enfim, romper a sina. Pois o Fla conseguiu, mas não sem a sua dose de adrenalina. Em um Maracanã novamente cheio, o time se manteve afobado durante a maior parte do tempo, ansioso demais para definir o resultado. Assim, o triunfo dependeu das boas atuações de alguns jogadores: Diego Alves, Renê, Réver, Cuéllar e, sobretudo, Éverton Ribeiro. O camisa 7 foi o protagonista que se espera e, desta vez, mudou a frase fatal com dois gols no Emelec. Comandou a vitória por 2 a 0, que representa um grande alívio à massa.

O Flamengo claramente sentiu falta do Maracanã cheio nas duas partidas anteriores como mandante na Libertadores. A desatenção foi um problema evidente contra River Plate e Independiente Santa Fe. Assim, a magnética correspondeu. E se não lotou completamente as arquibancadas, compareceu em número razoável, em mais de 40 mil presentes. A energia que os rubro-negros precisavam para evitar os riscos e fazer logo o seu serviço, evitando ampliar o drama na competição continental.

Durante os primeiros minutos, o Flamengo demonstrou grande ímpeto. Vinícius Júnior comandava o ataque com suas escapadas pela esquerda e teve uma grande chance logo de cara. Porém, também necessitando do resultado, o Emelec não seria mero espectador na noite. Posicionou-se de maneira adiantada e tentou explorar as costas dos laterais, incomodando durante certo tempo. Para conter qualquer susto, Cuéllar tinha um papel fundamental na cabeça de área, mandando prender e soltar. Um dos melhores jogadores rubro-negros há tempos, o colombiano fez atuação acima de sua própria média, especialmente pela facilidade em desarmar. Renê, pela esquerda, também cumpria bem o seu papel na marcação e acelerava a saída. Já pela direita, Everton Ribeiro combatia e distribuía.

O Fla cresceu a partir dos 20 minutos. Ainda errava alguns passes, com Paquetá e Vinícius Júnior por vezes pecando pelo excesso, mas tinha facilidade nas transições e parecia que logo mataria o jogo. As chances foram aparecendo, apenas o gol que não. Aos 23, Everton Ribeiro cobrou uma falta na direção de Juan e o veterano exigiu uma defesaça de Esteban Dreer, em bola que esbarrou no travessão. As boas jogadas vinham em profusão, embora faltasse um pouco mais de calma na conclusão. Paquetá avançava bastante pelo meio, Vinícius Júnior explorava a diagonal e Everton Ribeiro circulava, o que contribuía para a fluidez da equipe, em seu jogo vertical.

Outra boa chance viria novamente com Juan, aos 43, quando recebeu cruzamento livre de marcação e cabeceou para fora. O Emelec só voltaria a responder depois disso, tentando principalmente as bolas alçadas. Mas na única vez em que Diego Alves foi exigido, era para desviar um recuo perigoso de Réver. Nos acréscimos, os rubro-negros perderam Juan, lesionado. A saída do zagueiro, aliás, gerou uma confusão, em partes, semelhante ao que ocorrera no fim do jogo em Bogotá: o juiz decidiu apitar o intervalo quando os Eléctricos tinham um escanteio, dando motivos às reclamações dos visitantes.

Por aquilo que criou, o Flamengo tinha mais qualidade para sair em vantagem no primeiro tempo. E marcar um gol logo se mostrava cada vez mais necessário, para evitar a pressão. Por sorte, a comemoração veio logo aos três minutos do segundo tempo. Jogadaça entre Vinícius Júnior e Juan pela esquerda, com o ponta aproveitando a passagem do lateral. Diego deu a sequência, mas prendeu demais a bola e preferiu finalizar quando poderia ter passado a Henrique Dourado. O rebote sobrou para Everton Ribeiro e o camisa 7 pegou na veia, balançando as redes.

O Emelec tentou partir para cima diante da desvantagem, com as entradas de Jefferson Montero e Luna. O Flamengo, por outro lado, não abdicava de sua postura ofensiva e tentava definir o duelo. Tinha dificuldades para finalizar com liberdade, entre alguns chutes bloqueados. Além do mais, o ritmo intenso proposto pelo time na primeira etapa dava sinais de desgaste nos jogadores. Quem parecia não sentir o peso da ocasião era Everton Ribeiro, quase sempre clareando as jogadas com inteligência, se apresentando em diferentes pontos do campo. Em compensação, seus companheiros não se mostravam na mesma sintonia, como o próprio Diego. O camisa 10 teve outra exibição ruim, especialmente pelas decisões erradas. Não à toa, chegou a discutir com Paquetá e Vinícius Júnior em momentos distintos.

O passar dos minutos, contudo, parecia custar os nervos do Flamengo. Diego Alves era um dos raros que conseguia transmitir o que o time precisava, gastando o tempo quando acionado. Não era o que se via em vários outros, como ficou claro aos 30, na melhor chance para o segundo gol. Em uma bola recuada por um jogador do Emelec, Vinícius Júnior ia saindo sozinho na cara do gol, mas desacelerou, preocupado com a marcação de um impedimento que não existia. Ainda teve tempo de partir e ficar de frente com Dreer, preferindo um passe a Diego, cortado pela zaga. Já na sobra, Paquetá prendeu demais e, quando foi desarmado, ficou reclamando de pênalti com a bola em jogo à sua frente. Show de erros que só mostrava a ansiedade exagerada. O próprio estádio ficava mais reticente.

A 15 minutos do fim, o Emelec subiu ao ataque, até por aquilo que precisava. Cuéllar seguia soberano à frente da zaga e Réver também ia muito bem dentro da área, controlando o jogo aéreo, além de exibir calma para sair. No entanto, a bagunça no Fla chamava os equatorianos e o empate só não saiu por um milagre de Diego Alves. Um cruzamento fechado de Preciado ia caindo em direção ao ângulo, mas o goleiro buscou com a ponta nos dedos. A sobra ainda pipocou na pequena área, até que fosse neutralizada.

Quando tinha que prender a bola e acalmar os ânimos, o Flamengo tentava partir com tudo ao ataque. E quase sempre perdia a bola, errando lances bobos no círculo central, que o sistema defensivo acabava consertando. Na reta final, Marlos Moreno entrou na vaga de Dourado e Jonas fechou o meio, saindo Diego. A bola, de qualquer forma, só parava quando caía nos pés de alguns poucos. No meio do ímpeto, ao menos, Paquetá sofreu uma falta na entrada da área. Deixou a bola preparada para uma batida monumental de Everton Ribeiro, no ângulo de Dreer, que nada pôde fazer. O golaço coroou a noite do camisa 7 e botou os rubro-negros nas oitavas de final.

O Flamengo de Maurício Barbieri ainda é um time em formação e o elenco tem suas lacunas. Mas é importante notar como alguns jogadores vão rendendo melhor nas últimas semanas. Há algumas certezas na equipe, com Diego Alves correspondendo, Réver liderando, os dois laterais comprometendo menos, Cuéllar protegendo muitíssimo bem, Paquetá dando gás nas transições, Vinícius Júnior ganhando confiança. E há um Everton Ribeiro começando a justificar o investimento, por ser o cara que pega a bola e faz o time funcionar, sem deixar de se desdobrar também sem a posse. O que aprontou nesta quarta é o que o flamenguista espera.

E, sem mais responsabilidades tão grandes, o Flamengo parte à última rodada decidindo a liderança do grupo contra o River Plate. Só uma vitória dentro do Monumental de Núñez pode botar os rubro-negros na primeira colocação, diante da vantagem de dois pontos dos millonarios. Para quem sempre chegava ao desespero no último compromisso, a classificação antecipada representa bastante. Que o Emelec não seja um bom time, embora tenha melhorado em relação ao encontro em Guayaquil, esta vitória é daquelas para mudar a chavinha. Uma história diferente se escreve, a partir das oitavas. O Fla, ainda assim, precisa ter consciência que esta é uma etapa e há muito a melhorar. Tanta afobação pode ser custosa nos mata-matas, onde a Libertadores separa os meninos dos homens.