Ver um país entrando em transe coletivo por causa da Copa do Mundo não é exclusividade do Brasil, que recebe a competição. A cena é comum em todos os cantos do mundo. Às vezes não é preciso nem a vitória, basta uma partida decisiva para que o ambiente seja contagiado. E se o sucesso na competição vier, mais insanidade e paixão nacional. Pois o Mundial costuma ser um grande trampolim para políticos promoverem seus interesses. Há quem use o desempenho da seleção para fazer demagogia, o que é mais comum. E também aproveite, de má fé, aqueles dias em que nada parece importar mais do que os resultados da equipe nacional.

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No México, o governo pegou embalo na campanha de El Tri para passar por cima da população. O PRI, partido do presidente Enrique Peña Nieto e que chegou a permanecer intocável no centro do poder por mais de 70 anos, marcou votações importantes no congresso entre os dias 10 e 23 de junho. Justamente a antevéspera da abertura da Copa e o dia em que a seleção mexicana enfrentou a Croácia, decidindo sua classificação às oitavas de final.

Na pauta dos parlamentares, a abertura da Pemex, a companhia nacional de petróleo (a Petrobrás mexicana), a investimentos internacionais. Uma reforma histórica, de importância fundamental para o país. E que acabou encoberta no debate público pelos resultados da equipe de Miguel Herrera, naturalmente. Em setembro de 2013, uma pesquisa apontou que 82% dos mexicanos eram contra a privatização, embora o governo garanta que a mudança na legislação também permitirá os investimentos locais.

A dívida pública da Pemex chega a US$ 1,15 bilhão, o que seria a maior preocupação do governo. Mas o povo já está vacinado contra processos do tipo. Durante a década de 1990, o país enfrentou diversas privatizações, incluindo do setor de telefonia. Algo que acabou beneficiando uma pequena elite mexicana e forçando a população a pagar pelo serviço mais caro do mundo. Parecido com o que aconteceu nas licitações de TV, beneficiando a Televisa e as grandes companhias, em detrimento das liberdades comunitárias, sobretudo indígenas.

Pior, em 1998, o congresso aprovou um resgate de US$ 67 bilhões aos bancos. Quem pagou? Os contribuintes. Uma relação de promiscuidade do poder com a elite, e não se limita a isso. A forma como o governo é leniente com a corrupção e inativo contra o tráfico de drogas são outras insatisfações crescentes.

O primeiro efeito concreto da abertura da Pemex à população deve ser sentido a partir de 2015, com o fim dos subsídios à gasolina. Algo que deverá ser reclamado pela população, certo ou não. Bem depois que o furor nacionalista pela seleção e pela Copa do Mundo acabarem. E a reação ao PRI nas urnas é que deverá ser a única chance de contra-ataque. Por mais que a população já esteja perdendo por goleada.