Os dirigentes do Náutico apresentam o técnico Dado Cavalcanti

Enquanto os dirigentes discordam, o Náutico definha

A sede do Náutico estava cheia de gente. Era dia de definir o novo presidente, e o clube realiza eleições diretas com os sócios. Quase todos passaram por lá, inclusive Paulo Wanderley, que deixava o cargo depois de o clube ser rebaixado para a segunda divisão com o maior orçamento da sua história. Fosse o principal culpado ou não, personificava o fracasso do time, lanterna da primeira divisão e nas manchetes por causa de salários atrasados. Foi agredido física e verbalmente pelos presentes. Nesse clima, ganhou o candidato de oposição, o engenheiro Glauber Vasconcelos. O racha não funcionou e a gestão profissional ficou apenas no discurso. A situação continua periclitante, e o alvirrubro corre risco de cair mais uma vez. Desta vez para a Série C.

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Perdeu quatro das últimas cinco partidas que disputou pela segunda divisão, inclusive uma partida atrasada contra o Vasco e o clássico com o Santa Cruz. Esse último resultado causou a demissão do técnico Sidney Moraes, o segundo da nova gestão. O terceiro é Dado Cavalcanti, velho conhecido do torcedor. O Náutico está em 15º lugar, a dois pontos da zona de rebaixamento. A preocupação maior é a queda livre e a lista de problemas, sempre aumentando.

Glauber Vasconcelos disse que encontrou R$ 12 mil em caixa quando assumiu a presidência, o suficiente para comprar uma lambreta, mas menos que o necessário para um carro zero. Paulo Wanderley rebateu que deixou até muito porque achou apenas R$ 87 da gestão anterior, de Berillo Junior, da qual foi vice-presidente. De qualquer forma, a vida financeira da maioria dos clubes brasileiros – e isso inclui os grandes – costuma mesmo ser uma eterna correria atrás do próprio rabo. Wanderley afirma que fez uma única antecipação de verba, de R$ 300 mil da Federação Pernambucana, e nega que tenha deixado R$ 14 milhões de novas dívidas.

“Pelas nossas informações, até agora, em sete ou oito meses de gestão, eles não pagaram um centavo de débitos da nossa gestão”, rebate o ex-presidente à Trivela. “O que temos são oito meses de uma gestão que afastou todas as grandes lideranças do clube, todos que poderiam em certo momento ajudar e abrir as portas. Todos estão muito magoados pela forma como estão sendo tratados. Tem gente boa no grupo deles e no nosso também, mas eles se vangloriam de serem as únicas pessoas boas e honestas na terra”. Ele se refere a diretores que costumavam colocar dinheiro no clube, mas a vitória da oposição interrompeu os investimentos. “Como quem venceu é da oposição, os diretores que sempre investiam no Náutico abandonaram o clube”, explica o jornalista Thiago Wagner, do Jornal do Commercio.

O curioso é que não há nenhum tom alarmista na situação do Náutico. Paulo Wanderley acha que o rebaixamento, com 20 pontos em 38 partidas, foi resultado apenas de “um time que não deu liga” e que “não vê como um grande problema” o clube subir um dia e cair no outro. “Isso sempre vai acontecer com o Náutico, independente de receber R$ 47 milhões”, explica. E Glauber Vasconcelos, por sua vez, deixou a entender que os problemas do clube são até naturais. O salário estava um mês atrasado, segundo ele, “caminhando para dois”, mas seria pago. E, afinal, não há clubes devendo ainda mais? “É o problema de qualquer time que cai da Série A para a Série B”, diz. “Cai com todos os problemas da Série A. Fizeram um esforço ano passado que não deu certo e todo o reflexo ficou para esse ano. O Vasco caiu, mas manteve a receita. Então conseguem subir na boa e fazer um campeonato tranquilo. Nós não”.

Dois números em especial assustam quando o assunto é o planejamento do Náutico. O time teve dez técnicos em dois anos, segundo o Diário de Pernambuco, e contratou 45 jogadores, apenas em 2014. Quase quatro times completos em menos de dez meses. “Eu recebi o clube com seis jogadores”, informa. “Um titular, um reserva e um terceiro goleiro. Tivemos que montar um time. Qualquer clube do Brasil joga com um elenco de 34, 35 jogadores. Nosso problema de contratação foi isso, tive que contratar um elenco inteiro”. Wanderley classifica esse discurso como mais uma das “muitas inverdades para as quais o torcedor precisa estar atento”. “Eles colocaram vários para fora, vários jogadores que estavam atuando conosco e o time ficou diminuto”, rebateu.

A questão dos treinadores é ainda mais interessante. O Náutico começou 2013 com Alexandre Gallo, que saiu para ser coordenador das categorias de base da seleção brasileira. Chegou Vágner Mancini, mas ele ficou apenas três meses. Silas o substituiu, conseguiu apenas duas vitórias em nove partidas e foi demitido. E isso tudo até junho. Zé Teodoro durou até agosto e Jorginho até setembro. O auxiliar Levi Gomes foi efetivado e teve o menor reinado do ano no clube: apenas cinco jogos. Marcelo Martelotte terminou a campanha, já virtualmente rebaixado. A nova gestão não troca de treinador como troca de camisa, mas já caminha para o terceiro.

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Lisca começou o ano e conseguiu o vice-campeonato do Estadual, com derrota para o Sport na final. O problema foi justamente esse. Não pode perder para o Sport em Pernambuco. “Ele fez um bom trabalho”, avalia Thiago Wagner. “O Sport tem um orçamento muito maior que o do Náutico, então foi quase uma vitória, quase um título. Mas a rivalidade é muito grande. Pode ganhar tudo, mas se perder para o Sport, está ferrado. Não era para ser esse pandemônio”. Glauber nega que tenha demitido Lisca e justifica essa saída porque o treinador “se indispôs com a diretoria”. De qualquer jeito, chegou Sidney Moraes. “Ele foi contestadíssimo porque estava no Vila Nova, que era o lanterna. Ninguém entendeu por que foi contratado”, completa Wagner.

Depois de dez jogos, um empate e cinco derrotas, Sidney foi demitido. A gota d’água foi a derrota para o Santa Cruz, mas também houve uma confusão com Elicarlos. O jogador é um dos líderes do elenco e foi afastado por deficiência técnica. Sidney comprou uma briga que não poderia vencer. “Elicarlos tem muito poder no Náutico. Foi afastado e praticamente pediu a cabeça do Sidney”, diz o jornalista. Mesmo assim, Elicarlos não foi imediatamente reintegrado ao elenco e ficou fora da partida contra o Vasco. “Foi um período em que estava nascendo a filha dele, então ele cuidou disso. Qualquer empregado tem direito a isso”, defende Glauber. “O técnico entendeu que ele não tinha um rendimento técnico suficiente e resolveu afastá-lo”, completou, sem querer criar polêmicas.

Tudo isso se soma ao fato de que o Náutico não manda mais as suas partidas nos Aflitos. Arrendou a Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, a 30 quilômetros da capital, e vem atraindo públicos cada vez mais baixos. Sem um forte fator casa, os resultados foram piorando. Glauber não acha que foi um erro se mudar para lá, mas culpa as autoridades públicas por terem prometido um investimento que ainda não veio. A Cidade da Copa, um empreendimento imobiliário que pretende levar shoppings e outros estabelecimentos comerciais para a região, ainda dá os seus primeiros passos. Todo o público da Arena precisa sair de Recife. E eu não sei se você alguma vez já tentou sair de Recife na hora do rush. “O trânsito não permite chegar às 19h30. É impossível. E a partir das 21h, o retorno é muito complicado. O trem fecha às 23h. Os investimentos não estão sendo feitos como o esperado. A Arena ficou praticamente só”, lamenta.

O futuro do Náutico promete ser tão complicado quanto o presente. O novo calendário da CBF prevê um mês de férias e 25 dias de pré-temporada. Mas com um orçamento pequeno e recebendo muito menos dinheiro da televisão, Glauber depende mais da bilheteria do que outros clubes. E não consegue pagar um elenco por 25 dias sem realizar partidas, nem tem verba para viajar e fazer amistosos. O resultado? Terá que dispensar os jogadores e começar tudo de novo em fevereiro. “Infelizmente, eu vou ter que montar um elenco no final da famosa pré-temporada. Não dá para passar janeiro inteiro sem ter como pagar o elenco. Nós vamos tentar manter os jogadores, mas com que receita? Temos que pagar, tem décimo terceiro. Como que eu faço isso sem receita?”, pergunta.

E curiosamente, pelo menos nesse ponto, Glauber e Wanderley concordam. Porque o calendário com mais pré-temporada é uma das bandeiras do Bom Senso FC, que ano passado ameaçou uma greve caso os débitos não fossem pagos como o prometido. Nada como um inimigo em comum para unir dois rivais. “Dos 24 meses da nossa gestão, deixamos dois meses sem pagar. O que me chamou a atenção naquele episódio do Náutico foi a interferência do Bom Senso. Aquilo foi uma questão política. Precisavam fazer um oba-oba e aproveitaram o Náutico, que era teoricamente mais fraco e estava rebaixado. Tentaram mostrar para a mídia que estavam trabalhando. Por que não fazem agora que tem times do eixo Rio-São Paulo com quatro meses de salários atrasados?”, pergunta.

O Bom Senso conseguiu a proeza de unir essas duas linhas de administração que discordam em quase tudo e cometeram os seus erros. Wanderley teve um grande orçamento, não conseguiu tirar o melhor dele e teve sete treinadores em um período de um ano. Glauber contratou demais, também trocou de técnico mais do que deveria, e manteve o hábito de atrasar salários. E enquanto eles discordam, o Náutico definha.

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