O futebol argentino hoje é um grande refém. E você pode até escolher quem é o sequestrador. O principal acusado é sempre ele, Julio Grondona, eternamente todo-poderoso a acumular 35 anos na cadeira mais confortável da AFA, a cadeira presidencial. Entretanto, há também uma parte política no meio disso tudo. Com a maioria dos clubes com seus cofres quebrados, o que sustenta o Campeonato Argentino é o dinheiro do Fútbol para Todos, a transmissão televisiva que passou às mãos do Estado. E o que poderia parecer uma boa ideia naquele momento, na verdade, deixou o esporte à mercê de muitos interesses.

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A última novidade sobre o Argentinão lembrou o auge dos desmandos no futebol brasileiro. Em uma reunião que contou com a complacência dos cartolas, necessitados do dinheiro distribuído pelo governo e que antes passa pelas mãos de Grondona, foi aprovada uma nova fórmula para o campeonato nacional. A partir de 2015, não haverá mais Clausura/Apertura, Inicial/Final ou seja lá qual for o símbolo patriótico escolhido pelo governo. Será apenas um campeão, determinado após 30 rodadas. A competição também servirá para indicar três classificados à Libertadores, os clubes do país na Sul-Americana e, lógico, os rebaixados.

A quantidade de interesses escusos por trás da mudança, contudo, são muitos. O primeiro beneficiado, mais óbvio, é o Independiente. O grande clube que estava patinando para conquistar o acesso ganha uma chance bem mais robusta com o tapetão. Como era de se supor, há também a jogada política. Afinal, as eleições gerais (que incluem a escolha do sucessor de Cristina Kirchner na presidência) estão marcadas para outubro de 2015. Com o aumento de 30 clubes na primeira, o interior será o maior beneficiado, com novas províncias ganhando seus representantes na elite. Uma forma do kirchnerismo ganhar ainda mais terreno.

Por fim, há também uma jogada financeira. A partir de 2015, o futebol terá aporte de uma casa de apostas online, fiscalizado pela Loteria Nacional. E é de interesse deles contar com mais times na primeira divisão, algo para tornar o negócio rentável. Ainda assim, faltam trâmites com o Congresso. Além disso, Grondona também tenta aumentar as cotas de TV junto ao Fútbol para Todos. Como sabe que o governo é favorável à integração nacional através do Campeonato Argentino, a AFA quer mamar um pouco mais nas fontes federais e aumentar os 825 milhões de pesos anuais para até 1,1 bilhão.

Benefício dos grandes, uso político pelo governo e submissão aos interesses particulares. O tripé que sustenta no novo Campeonato Argentino é apenas um exemplo do muito que Grondona já fez na presidência da AFA. Mas, apesar da promiscuidade nas relações, ainda dá para sonhar com algum benefício. A oportunidade para os times do interior, por exemplo, ainda que seja forçada e deva prejudicar ainda mais a competitividade do torneio. Ou mesmo mais uma fonte de dinheiro para tentar reerguer os clubes, ainda que o meio esteja longe do ideal. E não pense que haverá igualdade na distribuição de dinheiro, já que Boca Juniors e River Plate ganharão dez vezes mais do que os 10 times que serão acrescentados.

Some-se a isso todos os problemas que a Argentina tem enfrentado com suas barras, chegando a proibir a presença da torcida visitante em todos os jogos do campeonato. Torcer não tem sido a missão mais fácil para os argentinos, por mais que o fanatismo exale das hinchadas sempre apaixonadas. Agora é ver como será a recepção a esse Frankenstein, remendado desde a sua criação, e que inclui alguma das partes mais podres da politicagem no futebol argentino.

Como será o futebol argentino nos próximos meses

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Primeiro semestre de 2014: a fórmula continua a mesma, com descenso de três clubes e acesso de outros três. O Independiente, na quarta colocação da Primera B, corre sérios riscos de não subir e há um temor nos quartéis da AFA quanto a isso.

Segundo semestre de 2014: o Campeonato Argentino será disputado em apenas meio ano, um torneio para determinar o campeão e sem descenso. Também haverá a definição de uma vaga para a Libertadores de 2015, assim como dos representantes na Sul-Americana. Enquanto isso, dos 22 participantes da Primera B, dez conquistarão o acesso. Serão divididos em duas chaves em que os cinco primeiros são promovidos. Neste ponto é que a vida do Independiente foi facilitada. E clubes como o Nueva Chicago, pronto para subir para a segundona, poderá conquistar dois acessos em seis meses. Já outros, como o recém-rebaixado Argentinos Juniors, pode ter uma promoção quase imediata.

O ano todo de 2015: É quando entra em vigor o novo Campeonato Argentino, com calendário anual, de janeiro a dezembro. Será disputado por 30 times, que se enfrentam em turno único. Na última rodada, os clássicos se repetem (sim, só eles acontecem duas vezes e, se o rival do clube não estiver na elite, seu adversário é determinado pela distância). Os três primeiros do torneio vão à Libertadores, do quarto ao 23º haverá uma Liguilla para a Copa Sul-Americana e somente dois serão rebaixados, por promedio – que se acumulará em relação aos anos anteriores.