Você que ainda não aceitou o fim da série “Entidades Místicas do Futebol Brasileiro”, fique ligado na segunda temporada. Agora, falaremos sobre as lendas do futebol europeu. Este texto foi inicialmente enviado na Newsletter da Trivela, na última sexta-feira. Assine agora e não perca nenhuma edição, toda sexta no seu e-mail!

Tudo começa em algum time lá da cortina de ferro, cheia de mistérios desde a época da União Soviética. Ele é habilidoso, técnico, tem um vídeo de lances que dão a sensação que é um jogador promissor. “Teve um jogo do sub-17 que ele acabou com a Alemanha”, diz alguém que acompanha categorias de base. As histórias começam a surgir. Se profissionalizou aos 16, fez gols em clássicos locais, deu um drible desconcertante na fase preliminar de Champions League.

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Eis que um time de uma liga importante o contrata, cheio de expectativas. Ainda com idade de adolescente, com maioridade ainda recente, ele começa a temporada como reserva de um time médio da Itália, mas os apelidos já o dominam. Messi da Transilvânia, Zidane polonês, Neymar dos bálcãs, Iniesta croata, você escolhe: ele sempre traz o peso da comparação com um craque habilidoso que está por aí.

A temporada começa devagar, com o técnico colocando o jogador só no final dos jogos. A torcida, impaciente, quer ver o projeto de craque ao vivo, jogando mais. Só que o técnico diz que ele ainda não está pronto. O treinador, experiente, solta que o jogador ainda é franzino, está se adaptando à liga, que é mais forte, e que ainda é “filé de borboleta”.

Vários veículos começam a cobrir os lances incríveis que ele faz no treino. Ou melhor: nos 15 minutos de bobinho que as câmeras de TV podem filmar. O canal de TV do clube começa a dar espaço ao jovem jogador, que ainda mal sabe falar o idioma do país onde joga agora. Ele conta a sua história, tem uma relação com guerra civil ou os tempos do domínio soviético, craques do passado do seu país são lembrados.

A temporada já passa da metade e o jogador ganhou poucos minutos em campo. O jogo que ele começou como titular não foi bem, mas há diversos motivos apontados por torcedores e analistas. Jogou fora de posição, o time todo foi mal, o adversário encaixou a marcação… A esta altura, o time não está bem, o técnico é demitido e a torcida se enche de esperança que aquele craque de nome difícil possa ajudar o time a sair da parte de baixo da tabela.

Enquanto isso, especulações já colocam o jogador em um clube grande na temporada seguinte. Ele termina em alta, jogando mais, mostrando alguma habilidade, mas falhando em levar o time mais para cima na tabela. A transferência para um clube maior acontece e ele começa tudo de novo, agora em outro país.

Só que ali, os lances de habilidade cessaram, mesmo nos treinos. Repórteres locais já falam em timidez excessiva, em um jogador que desperdiça habilidade em lances pouco úteis e os companheiros não parecem confiar muito. Depois de seis meses jogando pouco, ele é emprestado para um time da Grécia para ver se deslancha, com mais minutos e em uma liga menor.

A compilação de lances no Youtube era razoável, o que o fez ser vendido para um time menor, mas de uma liga grande. Ele já não é mais promessa, já tem 24 anos e ainda não conseguiu se firmar na seleção do seu país. Mas a ideia que ele é um jogador de talento persiste. Os bons lances, porém, são raros. Gols então, cabem em um vídeo curto na internet. Ele se torna reserva de um time pequeno, força a barra para sair e fica sem clube.

Ninguém mais ouve falar dele, até que vem a Eurocopa e o seu país está classificado. Só que ele agora atua em um time do seu país, como um destaque, mas sem ser o craque que se esperava. Mesmo no seu país, é criticado pelas atuações irregulares e a sua presença na seleção é até contestada. Ele vai à Eurocopa, mas fica no banco. Entra em um jogo contra uma seleção grande e, depois de dominar a bola com habilidade, tenta um lance elaborado. Tropeça. Cai. Põe a mão no rosto, com vergonha.

Por anos, ninguém ouviu falar. Até que ele aparece jogando em um time da Letônia que joga a Liga Europa. Já tem 34 anos e as referências a ele são “é aquele, que jogou não sei onde e nunca vingou”. Uma promessa que não se fez. Mas todo mundo continua pensando: “Ah, se ele tivesse levado a carreira a sério…”.

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