As eleições presidenciais da Fifa serão em junho de 2015, daqui a 17 meses, e não há candidato definido. Michel Platini, presidente da Uefa, é um nome muito provável, mas o anúncio só deve acontecer depois da Copa do Mundo do Brasil. O atual chefe da entidade Joseph Blatter havia prometido que faria seu último mandato, quando se reelegeu em 2011, só que começa a indicar que está mudando de ideia. Deve tomar uma decisão entre maio e junho. Correndo por fora, apareceu nesta sexta-feira uma terceira via, o que pode deixar o pleito ainda mais interessante.

O francês Jérôme Champagne chamou a imprensa para um anúncio em Londres, na próxima segunda-feira, e a expectativa é que anuncie a sua própria candidatura. Para isso, precisa do apoio de pelo menos uma federação nacional filiada à Fifa, o que não será problema. O diplomata, que chegou a ser primeiro-secretário da embaixada da França no Brasil, passou 11 anos na entidade que administra o futebol mundial e era muito próximo de Blatter – foi o arquiteto da campanha do suíço nas eleições de 2002 .

Champagne foi forçado a deixar a Fifa justamente porque estava ficando muito íntimo dos presidentes das federações e articulando sua candidatura ao pleito de 2011. No final de 2009, dois desses representantes reclamaram com Blatter, durante o sorteio da Copa do Mundo da África do Sul, na Cidade do Cabo, que ele estava abusando do seu cargo de diretor de relações internacionais da entidade. A sua relação com o suíço já estava deteriorada porque o Blatter promoveu Jérôme Valcke a secretário-geral em 2007 ao invés de Champagne, que foi o sub-secretário entre 2002 e 2005. A saída do francês foi oficializada no começo de 2010.

A primeira movimentação dele para se posicionar como um possível candidato foi um documento que publicou em 2012 com 26 páginas que contém as suas opinões sobre as questões mais polêmicas do futebol. “Eu decidi falar porque as eleições de 2015 serão tão importantes para o futuro do esporte que não podemos ter uma coroação”, disse Champagne, segundo o jornal inglês The Guardian.

A sua principal bandeira é reformar o comitê executivo da Fifa. Para ele, a entidade é formada pelas federações e elas deveriam ter mais poder que as confederações – o que não seria necessariamente algo bom, mas descentralizaria um pouco o comando. Atualmente, o comitê é formado por oito-vice presidentes e 16 membros, todos indicados pelas federações e pelas confederações.

A antiga amizade com Blatter o impede de criticar o suíço pelos escândalos de corrupção mais recentes da Fifa, e esse talvez seja seu maior pecado. A culpa, na opinião do francês, é justamente essa estrutura viciada da entidade. “Precisamos democratizar o comitê executivo, colocar mais representantes das federações nacionais. Precisamos de mais mulheres, representantes dos jogadores, das ligas e dos clubes. O cerne do problema é o comitê executivo e a forma como ele funciona”, explicou.

Desde que deixou a Fifa, Champagne vem trabalhando como consultor de futebol em regiões de conflito como Kosovo, Palestina, Israel e Chipre e conhece o poder de transformação que o futebol pode ter. Por isso, caso eleito, deve advogar a favor das causas dessas nações e ignorar aquela regra tácita da entidade, que perdura desde os tempos de Stanley Rous, de não misturar o esporte com a política. “A Fifa não está em uma posição de atuar como pacificadora, mas deveria tomar todas as iniciativas possíveis para criar a tradição da ‘diplomacia futebolística’ para reduzir os conflitos regionais”, afirmou em entrevista à revista Inside Sport Africa.

Ele também se preocupa com o excesso de estrangeiros em clubes europeus e critica as formas que eles encontraram para passar por cima das regras. Por exemplo, pela naturalização ou contratação de jovens promessas de agremiações menores. “A proporção de jogadores desenvolvidos nos clubes nunca foi tão pequena enquanto, ao mesmo tempo, os melhores jogadores não-europeus gravitam em torno da Europa, desfalcando os clubes não-europeus de seus talentos e prejudicando os campeonatos locais desses países”, justificou.

Platini, ex-jogador, se vendia como uma opção para revitalizar a Fifa, mas, nos últimos anos, também se envolveu em polêmicas, como a eleição que cedeu a Copa do Mundo de 2022 para o Catar. A alternativa a “tudo isso que está aí” talvez seja realmente um francês, mas não o vencedor de três Bolas de Ouro. Champagne, um mero diplomata de 55 anos, tem poucas chances contra os presidentes da Uefa e o da Fifa, no entanto, se melhorar o nível do debate, já cumpriu bem o seu papel.