Quando César Sampaio comemorou o título brasileiro de 1994, não imaginava que o Palmeiras demoraria pelo menos 22 anos para comemorar o próximo, que pode ser sacramentado neste domingo, com um simples empate contra a Chapecoense, no Allianz Parque. Com aquela conquista, a equipe financiada pela Parmalat tornou-se o adversário a ser batido no futebol nacional, mas a sorte no Brasileirão nunca mais apareceu: perdeu a final de 1997 para o Vasco, a comissão técnica priorizou outras competições, como a Libertadores, a gigante do leite foi embora, o dinheiro também sumiu e uma série de erros administrativos levaram o Palmeiras à segunda divisão duas vezes.

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O processo de reconstrução foi longo e ainda é discutível se ele foi concretizado. É verdade que o Palmeiras mostrou um poder de investimento muito grande nos últimos anos, mas não podemos nos esquecer da contribuição financeira que saiu dos bolsos particulares do Paulo Nobre. César Sampaio, gestor de futebol há dez anos, embora admita que esse não é o modelo ideal, vê com bons olhos a administração Nobre. “O dinheiro acaba encobrindo o que o Palmeiras não fez de certo”, afirma, em conversa com a Trivela, o ex-gerente de futebol do clube, entre 2011 e 2012. “Mas acho que já existe uma mudança. Nós víamos muitas instituições sendo usadas em benefícios próprios, tirando dinheiro dos clubes ou alavancando negócios próprios. Hoje, já vemos uma prática diferente”.

E, como resultado dessa prática, o Palmeiras fortaleceu-se e se candidata a brigar por títulos em um futuro próximo, segundo César Sampaio. “O Palmeiras vive um novo momento e um momento muito bem alicerçado. Isso que eu acho legal”, disse.

Como você está vendo essa campanha do Palmeiras, tão perto de ser campeão brasileiro?

Creio que é o resultado de uma gestão profissional, na pessoa do Paulo. Nos dois primeiros anos de mandato, ele procurou reposicionar a marca e fez um trabalho de reengenharia financeira para que, em um segundo momento do mandato, investissem forte no futebol, montando uma equipe competitiva. Nós ficamos felizes quando essas equipes organizadas vencem. Acaba sendo exemplo para aqueles que pretendem não só vencer, mas estar entre os melhores, com sustentabilidade.

Dentro das diretrizes de boa administração, porém, não costuma constar o presidente do clube colocar dinheiro do próprio bolso no clube, como fez o Paulo Nobre. Isso diminui os méritos administrativos dele?

Acho que, para você trabalhar com sustentabilidade, o prazo é maior. Não pode pensar em menos de dez anos. O Palmeiras antecipou isso porque teve um caixa muito forte. Não entendo que isso seja um exemplo a ser seguido, até porque não são todos os clubes (que têm um presidente disposto a abrir os bolsos). Com essa prática de gestão, você acaba comprando etapas e, muitas vezes, não aprende com os erros. O dinheiro acaba encobrindo o que o Palmeiras não fez de certo. Algumas falhas são escondidas pelo dinheiro. Mas houve a consciência de trabalhar em prol da recuperação da marca e da instituição. Claro que tem muito da paixão do Paulo pelo clube e do poder aquisitivo dele para fazer isso. Mas acho que já existe uma mudança. Não vou voltar muito no tempo, mas nós víamos muitas instituições sendo usadas em benefícios próprios, tirando dinheiro dos clubes ou alavancando negócios próprios. Hoje, já vemos uma prática diferente.

Você ficou no Palmeiras até janeiro de 2013. Olhando de fora, o que mudou daquele Palmeiras que foi campeão e foi rebaixado para esse que pode ser campeão dois anos seguidos?

Bom, o dinheiro, como já falamos. Mas (também) um investimento na infraestrutura, na profissionalização, nos departamentos de apoio direto ao futebol. A contratação de um treinador canalizando o departamento de inteligência, que passa pelos analistas de desempenho e mercado, para fundamentarem o que o treinador pensa. O treinador é um vendedor de ideias e, quando você consegue trazer atletas dentro do perfil para aquilo que você pensa, fica mais fácil de vender (as ideias) e dos atletas comprarem a ideia e disso dar certo.

Muitos jogadores importantes do Palmeiras eram desconhecidos, como Tchê Tchê e Moisés. Como você vê essa montagem do elenco do Palmeiras?

É um time bem encaixado. Hoje, no futebol moderno, o diferencial são as transições, quanto tempo você demora para abrir e fechar, com e sem a bola. Esse conceito está muito claro na equipe do Palmeiras. Não joga um futebol brilhante, em certo momento, até pragmático, mas tem jogadores muito comprometidos com o sistema, com o esquema, e o Gabriel Jesus, que é a cereja do bolo, o diferencial do time.

Você disse que o futebol do Palmeiras foi pragmático em certos momentos e houve essa discussão, se jogava bem ou jogava mal. Você acha que o Palmeiras jogou mal mais vezes do que um time campeão costuma jogar e acha que o Cuca acertou em adotar uma estratégia mais pragmática?

Eu trabalhei com o Felipão, que tinha mais ou menos o mesmo conceito. Claro que, tecnicamente, acho que tínhamos jogadores melhores. Mas eu acho que o objetivo maior do jogo é não tomar gol e fazer gol. É assim que eu vejo o Palmeiras. Um time que se preocupa em não tomar gol. Sem a bola, todos têm função defensiva. Com a bola, fazer gol. Vemos Moisés e Tchê Tchê chegando de trás, os dois zagueiros com participação ofensiva, o próprio Zé Roberto. São esses os princípios. É uma equipe que joga encaixada. Não tem essas variáveis que vemos na Europa, mas um futebol de resultados. Acho que não existe o método correto. Existe aquilo que o treinador acredita e tentar fundamentar isso com treinamentos e que os jogadores comprem essa ideia.

Quando você foi campeão brasileiro em 1994, você imaginava que demoraria pelo menos 22 anos para o Palmeiras repetir aquele título?

Não. Jamais. Pelo contrário, o Palmeiras havia se tornado o adversário a ser batido, mas outras competições foram priorizadas – no caso, a Libertadores -, depois saiu a Parmalat e aí, sem investimento, ficou mais difícil montar equipes fortes. Acho que é um processo. Ainda não conquistou o título. Falta um ponto. Precisamos ter cuidado. Eu vejo que tem eleições agora e, se a chapa do Paulo ganhar (Maurício Galiotte é candidato único), o Palmeiras vai estar entre os melhores. Isso que é importante, e aí, vencer é regularidade. O Palmeiras vive um novo momento e um momento muito bem alicerçado. Isso que eu acho legal.

Quem foi o melhor jogador do Palmeiras no Campeonato? Moisés, Dudu, Gabriel Jesus?

Eu vou fazer uma menção honrosa: o Jaílson. Eu não esperava, e acho que nem ele, esse desempenho que ele vem tendo, essa responsabilidade de substituir o Prass. Esses outros atletas também são destaques interessantes, mas o que ele tem feito nos últimos jogos é digno de reconhecimento. A pressão… o Prass já pegou a sombra do Marcos, ele já pegou a sombra do Prass, então teve toda uma atmosfera que ele teve que administrar.

Ainda mais porque, na última vez que o Prass machucou desse jeito, o Palmeiras quase caiu.

Sim. E ele entrou depois. O Vagner entrou primeiro. Eu acompanho a carreira dele um pouco também, então, (vou) parabenizá-lo.

Gostaria de voltar a trabalhar no Palmeiras, já que a sua experiência não foi tão boa assim?

Ao contrário, foi a melhor experiência que eu tive.

O time foi rebaixado.

A gente aprende muito mais quando as coisas não acontecem do que quando acontecem. Para mim, como gestor, já estou há dez anos nessa área, e foi o momento que mais contribuiu para o que eu sei hoje, que não é muito, estamos sempre buscando conhecimento. Fiquei meio como testa de ferro ali, pela imagem, pelo meu histórico no clube também. Mas foi muito bom profissionalmente. Aprendi muito do que não se deve fazer na gestão de um clube.

O que você aprendeu daquela época?

Priorizamos a Copa do Brasil, que dava vaga na Libertadores. Não tínhamos reposição. Tínhamos uma verba curta. O Marcos parou, o Assunção machucou, o Valdivia machucou, o Barcos machucou, o Luan machucou. Perdemos muita qualidade.

O que você aprendeu a não fazer naquele episódio?

Acho que nós focamos muito em uma competição e achamos que daria para colocar o avião no automático. Em nenhum momento, na gestão de um clube, você pode traçar um plano de voo e colocar no automático. Você tem que estar com o avião na mão. Achei que dispersou um pouco depois da Copa do Brasil, no retorno para o Campeonato Brasileiro.

O que você anda fazendo hoje em dia?

Estou na parte de gestão. Fiz o curso de treinador da CBF, a licença “B”, e estou próximo de fechar com um clube. Logo mais, estou no mercado de novo.

Como treinador ou como gestor?

Como gestor. Fiz curso de treinador para estar atualizado porque montamos a comissão técnica. Eu fiz de análise de desempenho em setembro e o de treinador agora.

Que clube é esse? Primeira divisão? Segunda divisão?

Ainda não posso falar. Logo mais vocês vão saber.

No dia seguinte, César Sampaio foi anunciado como executivo de futebol do Fortaleza.