As peñas (ou penyas, em catalão) são estruturas muito particulares do futebol espanhol. São uma espécie de fã-clube oficial de um clube, mas com poder de representatividade e sem a conotação das torcidas organizadas. Em português, a tradução mais próxima seria tertúlia, um termo que, convenhamos, soa tão estranho como uma palavra estrangeira.

Para as grandes equipes, ter um bom relacionamento com as peñas é fundamental. O Barcelona até criou um ombudsman para as suas, Ramón Térmens. Ele esteve no Brasil para conversar com a penya barcelonista de São Paulo e deu uma entrevista à Trivela. Ele falou sobre seu trabalho, a contratação de Tata Martino e como a imagem histórica do Barcelona ajudou a internacionalizar a marca.

A entrevista foi realizada antes de Sandro Rosell renunciar à presidência do clube após as dúvidas sobre a contratação de Neymar. Mas Térmens confirma que a equipe pagou diretamente ao pai do jogador para ter preferência em relação a outros clubes. “Quando se fala de tantos milhões de euros, o mais importante é a decisão do jogador.”

Qual que é exatamente o seu papel como ombudsman de penyas do Barcelona?

Sou o defensor do movimento penístico no Barcelona. É um cargo institucional. Meu trabalho é coordenar e ordenar o movimento penístico. Depois de um congresso no verão, em julho, as penyas tornaram-se um movimento independente, que têm a sua própria organização, com 35 áreas de trabalho em todo mundo. A estrutura de trabalho se chama o Conselho de Penyas. Entre o conselho e o clube há um representante do clube que trata dos conflitos entre as penyas e o próprio clube. É o primeiro clube do mundo que tem essa figura. É uma ideia do Sandro Rosell. Me pediram, pela minha experiência histórica, conhecimento e cabelo branco, experiência.

Quantas penyas o Barcelona tem?

Em todo o mundo, 1.400. Basicamente, 600 na Catalunha, 600 no resto da Espanha e 200 no resto do mundo. Tem em São Paulo, Nova York, Rio, Buenos Aires, Oslo, Copenhague, Tóquio, Xangai, Cingapura.

Que tipo de conflitos surgem nessas penyas?

Dois tipos diferentes. Conflitos entre as próprias penyas e entre as penyas e os clubes. O clube, na distribuição das entradas para uma final, por exemplo, não é justo com as organizações. Algumas se sentem pouco atendidas por questões formais e pessoais. Eu coordeno e tento fazer as pessoas serem razoáveis.

Como que o senhor lida com a diferença de cultura entre as penyas?

Cada penya tem uma organização independente, os torcedores têm suas próprias organizações e festas e temos que respeitar. Não é a mesma coisa uma penya em Tóquio, no Brasil ou em Barcelona. Há um denominador comum. Quando você está mais longe de Barcelona, o movimento é mais puro. Quanto mais se aproxima de Barcelona, fica mais contaminado por interesses. Viver o movimento penístico a 20 km de Barcelona não é o mesmo que vivê-lo a 500 km ou a 5 mil km. Para muitos, ver um jogo no estádio do Barça é o sonho de uma vida. Para quem mora perto de Barcelona, é uma coisa normal. 

O Barcelona tem essas torcidas ao redor do mundo, bem diferente do que ocorre aqui. O que os clubes brasileiros deveriam fazer para internacionalizar a marca?

O Barcelona é um clube muito especial porque historicamente falando nasceu em um bairro e depois foi representante de uma cidade e de um país, que é Catalunha. É um país com cultura própria, língua própria, sua maneira de entender a vida. Os catalães têm interpretado muitas vezes, principalmente na ditadura do Franco, que o Barcelona era uma representação, uma maneira democrática de entender a cultura da Catalunha no mundo. O Barcelona é um canal, um movimento. Outros clubes não têm isso, não representam uma área geográfica particular. O Arsenal é um clube de Londres, mas não representa Londres. O Barça é a representação de Barcelona.

Torcida do Barcelona levanta bandeiras da Catalunha no Camp Nou

Torcida do Barcelona levanta bandeiras da Catalunha no Camp Nou

Mas além disso, houve um trabalho para o Barcelona ser conhecido em outros países, para ter torcida no Japão, nos Estados Unidos. Faz turnês, joga amistosos, tem site em várias línguas.

O Barcelona, até 2000, era um clube que não tinha uma projeção internacional sólida porque era um muito fechado dentro de Barcelona, da Espanha e da Europa. Havia outros clubes, como Manchester United e Real Madrid, com mais expansão internacional. Filosoficamente, os diretores dessas equipes fizeram um trabalho comercial muito maior. O Barcelona, a partir de 2003, 2004, abriu-se muito ao mundo. Isso foi acompanhado por outra coisa muito importante. O Barcelona tem um estilo próprio de jogo, com jogadores que foram formados no próprio Barcelona, formados na escola do Barcelona, e que acreditam em um estilo de jogo muito construtivo, em que os jogadores são artistas da bola. Sai um pouco do futebol físico e vai para o futebol arte. E isso apaixonou o mundo. Uma coincidência dessa abertura e um futebol que todos gostam de ver jogar. Foi a soma de dois fatores. 

Como o senhor está vendo essa transição do time do Tito Vilanova para o Tata Martino?

Não sou uma pessoa muito preparada, tecnicamente falando. Eu acredito que o Barcelona historicamente, todos os grandes times, com Kubala, Maradona, Cruyff, o Dream Team de 92, com Cruyff de treinador, depois com Rijkaard, eram equipes basicamente com jogadores de fora, grandes estrelas do futebol mundial. Os jogadores da própria cantera eram complementos. Quem mudou isso foi Guardiola. Quando ele, por razões pessoais, saiu, o sucessor natural era Tito Vilanova. Mas o Tito teve um problemas de saúde e não poderia continuar. O Rosell decidiu apresentar ao Zubizarreta a possibilidade de contratar Martino. Rosell o conhecia muito bem quando era representante de Nike aqui no Rio de Janeiro. Tratou com o presidente do Paraguai que era proprietário de um clube [Libertad] e conheceu Martino, o treinador. Tiveram uma certa amizade, e Tata Martino foi uma das diferentes possibilidades. Finalmente decidiram por Tata, mas não sei por que ele e não os outros. Você teria que perguntar para o Zubizarreta.

O que está achando de Neymar?

Neymar era um jogador que todos que conhecem o futebol dizem que é diferente. É um jogador que tem particularidades muito interessantes, muito boas, e não há um que diga que Neymar não é especial. O Barcelona quer ter os melhores jogadores. Por isso, naturalmente, foi tratar de assegurar a contratação de Neymar. Há um ano ou dois, pagou € 10 milhões a seu pai e sua família para ter a opção de compra. Quando foi contratar, outros quiseram pagar mais, mas penso duas ou três coisas. Ele encontrou um entorno muito interessante, de jogadores brasileiros como Dani Alves, Adriano, que conhecem o Barcelona. Ele está em um jogo que não é físico, se é bom ou ruim, não vou opinar, mas Barcelona tem um jogo muito mais criativo que o do Real Madrid, Chelsea ou Manchester. Quando se fala de tantos milhões de euros, o mais importante é a decisão do jogador.


Uma resposta para “Diretor do Barça: “Arsenal não representa Londres como nós representamos Barcelona””

  1. Alessandro Galvão disse:

    O interessante é que o diretor demonstra claramente que não é preciso ser um amante do futebol para ser um bom dirigente. Ele claramente não está à vontade em assuntos técnicos, mas na sua área é eficiente. A estrutura de apoio ao simpatizante torcedor e sócio que esses clubes têm é brutal. Visitar Camp Nou ou o Bernabeu é constatar a capacidade organizacional do Barça e do Madrid. Como em outras áreas, o Brasil está muito longe desse tipo de organização, e duvido que algum dia a tenha.

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