Depois de 15 anos atuando no futebol mexicano, defendendo as cores de nove equipes diferentes, é até complicado para o atacante Eder Pacheco fazer comparações entre o estilo de jogo do futebol brasileiro e do país azteca. Casado com uma mexicana e com cidadania local, o paranaense de 36 anos tem reconhecimento e nome no futebol local, mas é praticamente desconhecido no país natal.

Atualmente defendendo as cores do Correcaminos, o atacante é um dos artilheiros do clube com melhor elenco e líder isolado da Liga de Ascenso. Uma equipe que está há quase duas décadas distante da elite, mas aposta no brasileiro e no seu histórico goleador e vitorioso nas divisões de acesso para retornar ao topo do futebol mexicano.

Em entrevista exclusiva para a Trivela, Eder falou sobre as dificuldades enfrentadas para se consolidar no futebol mexicano, a diferença no estilo de jogo para o futebol brasileiro e também sobre os motivos para a diminuição no número de brasileiros que brilham por lá. Confira:

Você defendeu alguns clubes conhecidos no início da carreira. Como foi sua passagem no futebol brasileiro?
Eder Pacheco: Comecei na base do Fluminense. Fiquei três anos, dois no juvenil e um no juniores. Foi uma experiência muito boa, me ajudou muito na carreira. Pela Ponte (Preta), disputei uma Taça São Paulo de Juniores e depois fui para o Vila Nova-GO. Foram todas experiências incríveis, só tenho a agradecer.

E como apareceu a oportunidade de ir para o futebol mexicano?
Eder Pacheco: Foi em outubro de 1998. Um empresário brasileiro, o Carlos Peters (Luiz Carlos Peters, ex-jogador do São Paulo e à época presidente do Penapolense-SP) me trouxe para o Atlético Mexiquense, filial do Toluca. Joguei um campeonato e fui pro Cruz Azul Hidalgo, filial do Cruz Azul.

Comida, língua, cultura são sempre empecilhos para a identificação dos jogadores brasileiros nos países estrangeiros. Passou por isso no México?
Eder Pacheco: Com certeza. Passei por todas essas dificuldades. No começo foi muito complicado, eu não falava nada, a comida era diferente, muita pimenta, sabor diferente. Demorou um pouco, mas me acostumei. Conheci minha esposa logo que cheguei e ela me ajudou muito a superar todas essas dificuldades.

Você também tem passagem pelo futebol argentino e vietnamita. Como surgiram essas oportunidades?
Eder Pacheco: Fui para a Argentina no ano 2000, defender o Argentinos Juniors, mas fiquei somente um ano. Tive um problema no joelho, precisei operar e depois ficou complicada minha permanência. Voltei pro México e tive problemas com um empresário, fiquei sem time, em uma situação cada vez mais complicada. Cheguei a ficar quatro anos sem jogar profissionalmente. Até que surgiu o Vagner (Vagner Martins dos Reis), um brasileiro que vivia no México e me convidou para ir jogar no Vietnã.

E como foi sua passagem pelo futebol asiático?
Eder Pacheco: Foi muito difícil ter que ficar longe da minha família, mas foi a melhor experiência que eu já tive no meio do futebol. Um país completamente diferente, idioma, comida, cultura. Só tenho a agradecer. Aprendi a valorizar muitas coisas que estando no México ou no Brasil não dava muita importância.

Por que voltou ao futebol azteca em 2007?
Eder Pacheco: Quando eu voltei do Vietnã, mais motivado a continuar jogando profissionalmente, tive a oportunidade de ir pro Morelia, e eu já estava naturalizado, não ocuparia uma vaga de estrangeiro. Eu cheguei para a filial do Morelia, mas logo depois de apenas um jogo fui chamado para o primeiro time. Joguei na primeira divisão com o Morelia e depois com o Puebla, até surgir uma boa oportunidade em um time que não atuava na elite. Não tive muita continuidade na primeira divisão e esse foi um fator que não me favoreceu.

Você viveu grande fase por Alacranes e León, sendo inclusive artilheiro da segunda divisão. Como foi esse período?
Eder Pacheco: No Alacranes de Durango eu fui muito bem. Fui artilheiro da Liga de Ascenso (segunda divisão mexicana), individualmente foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Mas no coletivo, meu melhor período foi mesmo no León. Subimos para a primeira divisão, depois de dez anos na segunda. O time chegava até as finais e perdia. A torcida estava um pouco decepcionada, mesmo sempre lotando o estádio. Foi incrível participar dessa conquista. Na final, no jogo decisivo para o acesso, eu fiz o terceiro gol. Foi inesquecível.

Especificamente no León, você atuou no time que foi campeão da segunda divisão. Como foi essa campanha?
Eder Pacheco: Foi fantástica. Minha relação com o (técnico uruguaio Gustavo) Matosas sempre foi muito boa, assim como com todo o elenco. Era um grupo muito unido, sempre reuníamos nossas famílias e isso foi fundamental para conseguirmos o acesso.

Contudo, você não seguiu no clube para disputar a Primera División. Tem algum arrependimento, já que os Esmeraldas foram campeão do último Apertura?
Eder Pacheco: Eu tinha um ano de contrato com uma cláusula de renovação automática por mais um se o time subisse para a primeira. Mas apareceu o interesse do Correcaminos, oferecendo um contrato de dois anos. Era um salário melhor, mais tempo de contrato, eu já estava com 35 anos. Aí você pensa em todo o tempo que ficou parado, nas dificuldades que passadas junto com a família. Esses dois anos me dariam uma certa tranquilidade. Por isso aceitei vir pro Corre. Não me arrependo. Lógico que eu seria feliz se tivesse sido campeão com o León na Liga MX, mas estou tranquilo pela segurança que o Correcaminos me deu.

Há muita diferença entre o futebol praticado na Liga MX e na Liga de Ascenso?
Eder Pacheco: Eu acredito que não. Muitos jogadores que já atuaram nos dois níveis falam até que é mais difícil o (a Liga de) Ascenso. Opino da mesma forma: se na Primera División é correria, na segunda é pior ainda.

Pelo Correcaminos, você fez parte do time que foi vice-campeão da Copa MX Apertura 2012. O time sentiu muito o baque pela derrota nos pênaltis?
Eder Pacheco: Foi uma campanha muito boa. Não estávamos bem na liga, mas na copa o time fez um grande papel. Na decisão, a disputa foi para os pênaltis e aí pode ser para qualquer um. Não tivemos sorte, ou melhor, não fomos capazes de acertar todos os pênaltis e perdemos, mas a campanha foi muito boa e marcou o torcedor.

O clube investiu bastante e vem fazendo boas campanhas desde que você chegou, alcançando a Liguilla nos dois últimos torneios. Qual a expectativa para o Clausura?
Eder Pacheco: O time está bem, mas a Liga de Ascenso é uma competição muito irregular, não tem muito favoritismo. O maior problema que enfrentamos é que todos os outros times querem ganhar do Correcaminos. Se entrarmos em campo concentrados temos tudo pra ganhar, caso contrário os outros times entram em campo comendo a grama, querendo mais a vitória contra nós do que contra os demais por essa força, a liderança e os investimentos.

Você é um dos artilheiros do time na temporada ao lado do Roberto Nurse, uma lenda entre os goleadores da Liga de Ascenso. E tem ainda a concorrência do argentino Saucedo, um dos maiores artilheiros da história do clube. Como é essa disputa?
Eder Pacheco: Muito saudável. Além do mais, nos damos muito bem fora de campo. Nossas esposas são amigas e nós também. Claro que são grandes jogadores, goleadores também. Agora estamos jogando os três. E ninguém quer sair do time. Então temos que dar o melhor e, no fim, isso é bom pro time, que só tem a crescer.

Como você vê a participação dos brasileiros no futebol mexicano? Tem contato com algum?
Eder Pacheco: A participação dos brasileiros está um pouco apagada, mas sempre tivemos muita presença aqui. Hoje os principais são o Sinha (Toluca), Danilinho e Juninho (Tigres UANL) e o Leandro Augusto (Pumas UNAM). Na Liga de Ascenso tem o Leandro (Carrijo, artilheiro da segunda divisão pelo Celaya), jogador muito bom e perigoso, que ainda não tive a oportunidade de conhecer, o Neto Potiguar, que foi meu companheiro no Lobos (BUAP) e é um excelente jogador, o Rodrigo (Bronzatti, defensor) no Dorados e outro Rodrigo (Follé, também defensor) no Leones Negros.

O que falta para mais brasileiros darem certo como você no futebol mexicano?
Eder Pacheco: Eu acho que aqui no México, para o jogador vingar, ele tem que correr, lutar, dar carrinho. Como centroavante, por exemplo, é difícil você ver isso no Brasil. Além disso, o jogador brasileiro não olha para o México como primeira opção. Alguns vêm para cá achando que vão deitar e rolar e não é assim. Não é fácil jogar aqui. E os mexicanos querem resultado imediato, muitos técnicos e dirigente não esperam o jogador se adaptar e isso também dificulta muito pro jogador estrangeiro.

Há muita diferença entre o futebol brasileiro e o futebol mexicano?
Eder Pacheco: O futebol mexicano é muito mais correria, São muito dinâmicos, mas jogam bem. Muitos técnicos estrangeiros passaram por aqui e fizeram escola, deixaram um legado, que os mexicanos souberam aproveitar. Os técnicos mexicanos são muito bem preparados, vão muito à Europa para se atualizarem. Individualmente, o jogador brasileiro é melhor, sem dúvida. Mas talvez não esteja acostumado a pressionar o adversário o tempo todo, algo muito comum por aqui.

Como é sua relação com os torcedores locais?
Eder Pacheco: Muito boa. Fazendo gols o pessoal reconhece sempre. Eu sempre procurei atender bem as pessoas que chegam pra conversar, pedem uma foto, um autógrafo. Recebo muitas demonstrações de carinho nas redes sociais, não só pela minha condição dentro de campo, mas fora também.

Quais são seus planos futuros? Pensa em voltar ao futebol brasileiro?
Eder Pacheco: Gostaria muito de voltar a jogar no Brasil e encerrar minha carreira aí, mas a realidade é outra. Faço 37 anos em breve e no Brasil ninguém me conhece. Por isso seria quase impossível acontecer. O mais seguro e provável é eu encerrar a carreira aqui no México, mesmo.

Têm planos para quando largar o futebol? Você tem nacionalidade mexicana. Vislumbra algum futuro dentro ou fora do futebol no México?
Eder Pacheco: Ainda não decidi o que vou fazer depois. Tenho vontade de seguir no futebol aqui, mas não sei se dentro ou fora. Vamos ver o que aparece.

Curtas

México
– Seleção do site Mediotiempo da 8ª rodada do Clausura: Alejandro Palacios (Pumas UNAM), Rogelio Chávez (Cruz Azul), Darío Verón (Pumas UNAM), Julio Domínguez (Cruz Azul) e Edwin Hernández (León); Lucas Silva (Monterrey), Carlos Peña (León), Daniel Ludueña (Pumas UNAM) e Isaac Brizuela (Toluca); Carlos Ochoa (Chiapas) e Enner Valencia (Pachuca); T: Sergio Bueno (Chiapas);

Costa Rica
– Em uma rodada marcada por um Clássico Nacional sem emoções, Alajuelense e Saprissa empataram sem gols e seguem em segundo e terceiro lugares, com 17 e 16 pontos, respectivamente. Empate ruim para ambos, já que o Herediano goleou a Universidad de Costa Rica por 5×0 e assumiu a ponta do Campeonato de Verano da Primera Divisón, com 20 pontos em 9 jogos. Mesmo derrotado pelo Uruguay, o Limón segue em quarto na tabela;

El Salvador
– Com uma tranquila vitória sobre o Alianza no “Clásico del Odio”, o FAS alcançou seu quinto triunfo em seis jogos e segue na liderança do Clausura da Liga Mayor, com 16 pontos. Já o Isidro Metapán bateu o Luis Ángel Firpo fora de casa e manteve o segundo lugar, com 13. Com as derrotas, Firpo e Alianza caíram para o quinto e sexto lugares, respectivamente, enquanto o Águila segue em má fase, superado pelo Juventud Independiente e na vice-lanterna;

Guatemala
– Com um triunfo mínimo sobre o atual tricampeão Comunicaciones, a Universidad SC abriu boa vantagem no topo do Clausura da Liga Nacional, com 18 pontos em 8 partidas. O revés deixou os Cremas na quarta colocação, com 12 pontos, ao lado do arquirrival Municipal, que bateu o Halcones em casa. Suchitepéquez e Marquense venceram seus duelos e dividem o segundo posto, com 13 pontos;

Honduras
– Em uma partida emocionante, o Olimpia, mesmo com um jogador a menos, conseguiu a virada para cima do Savio e retomou a liderança isolada do Clausura da Liga Nacional, com 19 pontos em 9 jogos. Vice-líder, a Real Sociedad não passou de um empate sem gols frente ao Victoria e tem 17. Real España e Motagua dividem a quarta colocação, com 13 pontos, enquanto o Marathón perdeu mais uma, para o Vida, e ocupa apenas o oitavo lugar;

Panamá
– Uma imponente goleada sobre o Independiente fora de casa manteve o Árabe Unido na ponta do Clausura da Liga Panamenha, com 16 pontos em 8 partidas, ao lado do Plaza Amador, que bateu o San Francisco. Com a derrota, os Monjes ocupam a modesta sexta colocação, enquanto o atual campeão Tauro deu vexame em casa, perdendo por 3×0 para o Chorrillo e é o oitavo, com 7 pontos;

Jamaica
– Atual campeão, o Harbour View tropeçou novamente, empatou em casa com o August Town, somou sua sexta partida sem vitória e perdeu a liderança da National Premier League para o Montego Bay, que venceu o Cavalier e chegou aos 39 pontos em 22 jogos. Agora, as Estrelas do Oriente dividem o segundo lugar com o Waterhouse, ambos com 38. O Tivoli Gardens é o sétimo, enquanto o Portmore é apenas o décimo, com 25 pontos;

Trinidad & Tobago
– Com um empate sem gols frente ao Caledonia, o W Connection segue líder com tranquilidade na TT Pro League, mas somou sua terceira partida seguida sem vitórias. Com 34 pontos em 15 jogos, os “Savonetta Boys” têm oito de vantagem para Point Fortin e Central, que massacrou o lanterna St. Ann’s Rangers na rodada. Atual campeão, o Defence Force venceu com facilidade o San Juan Jabloteh e é o sétimo, com 16 pontos (mas em apenas 9 partidas), enquanto os “Reis de San Juan” são os penúltimos, com 11;

Nicarágua
– Com triunfos sobre Juventus e Municipal Jalapa, ambos fora de casa, Real Estelí e Walter Ferretti seguem na ponta do Clausura da Liga Nacional, com 19 pontos em 10 partidas. Tendo seu duelo contra o Chinandega adiado, o Diriangén está na terceira posição, com 15 pontos e um jogo a menos que os rivais.