Era difícil assisti-lo. O futebol ucraniano passa pouco na televisão brasileira. E, mesmo que tivesse a frequência daquele comercial que tem a música do Ricky Martin, atrairia pouca atenção. Por isso, o meia Fernandinho entende as críticas às convocações que recebia de Mano Menezes quando atuava pelo Shakhtar Donetsk.

Agora, a situação do bastião do que a galhofa chamava de Cota Shakhtar é outra. Fernandinho joga no Campeonato Inglês, um dos mais vistos do mundo, divide o meio campo com Yaya Touré e tenta carregar o Manchester City para o título inglês. Por enquanto, faz um bom trabalho, tanto defensivo, quanto ofensivo, e espera, sinceramente, que o técnico Luiz Felipe Scolari esteja de olho.

“Acredito que estou em uma vitrine muito maior”, comentou em entrevista à Trivela. “O pessoal no Brasil não acompanha nada em relação ao campeonato ucraniano. Os jogos não são televisionados. Alguns jogos da Liga dos Campeões passam na TV. É difícil o pessoal acompanhar, analisar o desempenho dos jogadores, então até consigo entender um pouco dos críticos”.

O último jogo de Fernandinho pela seleção brasileira foi em fevereiro de 2012, ainda sob o comando de Mano, contra a Bósnia-Herzegovina. Felipão ainda não prestou atenção no jogador de 28 anos, natural de Londrina, e tem um grupo mais ou menos fechado. O problema é que se o meia repetir mais vezes nessa temporada a atuação que teve na goleada por 6 a 3 sobre o Arsenal, quando marcou duas vezes e foi o melhor em campo, vai ser difícil ignorá-lo.

Vale a pena ir para a Ucrânia?

Olha, para mim foi muito bom. Para o clube, na época, também porque compensou financeiramente. A primeira coisa que eu pensei foi na parte financeira. E depois, com o passar dos anos, comecei a ver que outras coisas valiam mais a pena. Agora, outro jogador ir para a Ucrânia, depende muito de cada um. Se é um jogador que está se destacando no Brasil, um fenômeno, acho que não seria legal ir para a Ucrânia, mas para outro país com mais visibilidade.

E como faz para sair de lá?

Para eu sair de lá foi difícil. Gostavam muito de mim. Eu tinha um relacionamento muito bom com todo mundo. O time estava montado, estávamos conseguindo jogar bem. Ganhamos quatro campeonatos consecutivos, fizemos bom papel na Liga dos Campeões, conquistamos a Copa da Uefa. Por conta disso, não queriam que eu saísse de lá, mas eu apelei, pedi, conversei. Tudo na base da conversa, com o presidente e o treinador. Expliquei para eles os objetivos que eu tinha na minha carreira. No final, deu tudo certo. Com muita dificuldade.

Disputar a Copa de 2014 ainda é um desses objetivos?

Sim, porque, mesmo jogando no Shakhtar, eu já tinha sido convocado, na época do Mano Menezes. Sempre acreditei que poderia fazer parte do grupo da seleção. Conquistei títulos nas seleções de base. Indo para a Inglaterra, eu acredito que estou numa vitrine muito maior. Todo mundo acompanha o Campeonato Inglês e um jogador que se destaca na Inglaterra tem mais chances de poder ser convocado.

Você ficava incomodado quando os jogadores do Shakhtar Donetsk eram convocados e havia aquele preconceito, aquela brincadeira com a suposta “Cota Shakhtar”?

Eu não sei se é um preconceito. No Brasil, temos liberdade de expressão, então podem falar o que quiser, não podemos privar ninguém de alguma coisa. Mas sempre tive minha cabeça tranquila em relação a tudo isso. Sabia que amanhã ou depois, isso poderia mudar. O pessoal no Brasil não acompanha nada do Campeonato Ucraniano. Os jogos não são televisionados. Alguns jogos da Liga dos Campeões passam na TV. É difícil o pessoal acompanhar, analisar o desempenho dos jogadores, então até consigo entender um pouco dos críticos.

Ter saído de um clube do Paraná, sem que muita gente nos centros maiores pudesse conhecê-lo ainda aqui do Brasil, atrapalha?

O Atlético estava em Curitiba, mas na época em que eu sai de lá, o Atlético foi vice-campeão brasileiro jogando muito bem e vice da Libertadores, perdendo para um time brasileiro também. Foram dois anos em que o time do Atlético estava muito bem, em todo o Brasil.

Sua primeira aparição nacional foi com a Seleção campeã mundial sub-20 de 2003. Daquele time, você é um dos poucos que ainda tem chances de ir pra Copa. Você esperava mais daquela geração?

Aquele time tinha muita qualidade. Para você ter noção, eu era reserva e era o mais jovem. Estava com 18 anos na época, mas os jogadores que estavam naquele campeonato seguiram carreira, de sucesso até, caso do Jefferson, do Botafogo, o Daniel Alves e o Adriano, do Barcelona. O Dagoberto, que foi campeão brasileiro agora no Cruzeiro, o Nilmar que teve passagens pelo Corinthians. Muitos jogadores tiveram sequência. Foi um grupo de vários jogadores que derem certo.

A função de volante na Inglaterra é muito diferente dos outros países?

Se eu comparar com o Brasil, que é nosso país, é muito diferente, porque no Brasil estamos acostumados com um volante que sai para o jogo e outro que fica na defesa, dando proteção à zaga. Aqui, os dois têm essa possibilidade de poder sair para o ataque. Claro que nunca ao mesmo tempo. Quando um sai, o outro tem que ficar na cobertura, mas, no nosso caso, eu e o Yaya (Touré) procuramos revezar. A gente sempre procura ter esse balanço e esse equilíbrio.

E como está sendo a parceria com Yaya Touré, que vem sendo um dos melhores jogadores da Inglaterra nos últimos anos?

Está sendo legal. Tivemos a oportunidade de jogar juntos muitos jogos e, na medida que o tempo vai passando, vamos nos conhecendo mais, nos aprimorando. Espero que possa dar muito certo porque o investimento que o clube fez é para que conquistemos títulos.

Fernandinho e Yaya Touré são os pilares do Manchester City (Foto: AP)

Fernandinho e Yaya Touré são os pilares do Manchester City (Foto: AP)

E por que o Manchester City joga tão bem em casa e não consegue repetir as atuações fora dela?

A gente realmente começou a temporada com atuações diferentes fora de casa, uma derrotas que foram muito ruins para nós. Estamos buscando esse equilíbrio. Estamos conseguindo porque nossa última derrota foi no começo de novembro, e jogamos alguns jogos fora de casa. Empatamos e vencemos. Inclusive conseguimos vencer o Bayern de Munique (na Alemanha). Estamos conseguindo ganhar um corpo.

Dos três clubes grandes da Inglaterra que trocaram de técnico, o City é o que está se dando melhor, com o Manuel Pellegrini. Por quê?

Primeiro porque eu acho que ele tem grandes jogadores nas mãos dele, que querem ganhar, que querem vencer e que estão dispostos a pagar um preço alto para ganhar o título que o time quer. Claro que quando você troca de treinador, é complicado, para conhecer o estilo dele, mas nosso grupo está muito focado, querendo muito, com muita gana de ganhar os títulos.

O que mudou no time na Champions em relação aos anos anteriores, quando ele foi eliminado na primeira fase?

Pelo que eu percebi aqui, que o pessoal comentou, o City caiu em um grupo difícil nessas temporadas em que foi eliminados, e era um time novo que estava sendo montado, com jogadores novos. Acabou não encaixando muita. Esse ano, a coisa foi diferente. Tinham dois times muito abaixo do nível do City. Os jogadores que foram contratados esse ano têm uma certa experiência, jogaram a Liga, talvez essa seja a diferença.

Vocês conseguiram ganhar até do Bayern. Como ganhar dos caras?

Eu ouvi dizer muito, declarações aí no Brasil, que o Bayern relaxou, jogou em outro ritmo. Eles começaram muito bem, jogando em casa, com a torcida. Todo time que joga em casa joga em um ritmo maior. Depois disso, no segundo tempo, quando estava 2 a 1 para eles, adiantamos a marcação, estávamos marcando no campo deles, não estávamos mais dando a oportunidade de eles saírem com a bola, tocando. Acertamos a marcação, forçávamos a bola longa e ganhávamos a segunda bola.

O que deu para aprender de um jogo para o outro?

Sofremos bastante porque nós não fizemos o que fizemos no segundo jogo. Demos muito espaço para eles, deixamos que eles criassem muitas oportunidades e pagamos um preço caríssimo.

Quando vocês perceberam o que precisavam fazer?

Foi no decorrer do primeiro tempo (na Alemanha). Fizemos um gol, 2 a 1, e quando descemos para o vestiário, o Pellegrini ajeitou a marcação e voltamos totalmente diferentes.

O que passou na cabeça quando viram que enfrentariam outra pedreira, o Barcelona?

Na minha cabeça, não passou nada. Se você olhar, dos primeiros colocados, são todos times fortes. Então, não tinha muito o que escolher. O Barcelona foi o time sorteado, então eu penso que vai ser um grande jogo, todos vão querer acompanhar, porque fará bem para o futebol. Não tem nem como falar do Barcelona ainda porque aqui o campeonato não para. Antes de fevereiro, tem jogos que podem definir o nosso futuro na competição.

E se ganharem, é o jogo para falar que viraram grandes?

Estamos buscando esses resultados a cada jogo, a cada campeonato. Queríamos fazer uma boa primeira fase e conseguimos. Nenhum segundo colocado conseguiu tantos pontos. Agora o que nos resta é ganhar os jogos que temos aqui na Premier League antes de chegarmos na Liga dos Campeões.

Está acontecendo essa polêmica em relação a Manaus, palco da estreia da Inglaterra na Copa do Mundo. Estão perguntando sobre isso para você?

Perguntaram, mas a única coisa que eu pude falar é que eu sei que é muito calor lá, a umidade é muito alta. Nunca fui para lá, não sei como que é, não sei como funciona. A única coisa que pude passar é o que vejo através da imprensa daí.