Ilhas Virgens Britânicas é totalmente inexpressiva na Concacaf, atual 196º no Ranking Fifa, à frente apenas de Anguilla e Ilhas Turks & Caicos em sua confederação. Quem em sã consciência se disporia a comandar uma seleção tão ruim quanto Ilhas Virgens Britânicas? Qual a importância disso para o currículo de treinador? André Villas-Boas aceitou o emprego, em 1998, e deu seus primeiros passos da carreira de técnico. Agora, Gary White, atualmente técnico de Guam, espera seguir o mesmo caminho.

White foi atleta do Southampton e jogou por divisões inferiores da Inglaterra e da Austrália. Aos 21 anos, decidiu encerrar a carreira porque viu mais futuro para si como treinador. Como Villas-Boas, assumiu a seleção de Ilhas Virgens Britânicas para aprender. Aos 24 anos, subiu 26 posições no ranking da Fifa com o país. “Fui capaz de experimentar o que funcionava ou não em um time, um luxo importante para meu aprendizado como treinador e pessoa”, explicou em entrevista exclusiva à coluna.

Gary White também ficou sete anos em Bahamas e conseguiu ganhar 55 posições em um mês (setembro de 2006). Teve experiências na federação inglesa e no Seattle Sounders, dos Estados Unidos, com desenvolvimento de jogadores das divisões de base. Está na a seleção de Guam desde 2012 e vem conseguindo resultados expressivos: levou a pequena ilha do Pacífico à 160ª colocação, a melhor da sua história.

White tem a Pro Level License da federação inglesa, condecoração que apenas outros 15 técnicos possuem, mas ainda não chegou ao nível do seu colega português, que já passou por Porto, Chelsea e Tottenham. Na opinião dele, falta alguém como José Mourinho e Bobby Robson na sua vida.

“Villas Boas foi muito sortudo de estar cercado por grandes técnicos, que o ajudaram e deram-lhe o empurrão necessário na carreira”, lamenta. Para White, sua carreira está sendo construída pelo caminho mais difícil, o que a torna mais interessante. “Acho que isso vai me ajudar e também a meus times nos momentos difíceis e de pressão”, comenta.

Apesar de ter grandes projetos em Guam, Gary White não esconde o desejo de treinar times das elites do Japão e da Coreia do Sul no futuro próximo, ou quem sabe um time brasileiro. Seu grande sonho, porém, é comandar a seleção da Inglaterra. “Tenho um plano bastante concreto de treinar a seleção de meu país, mas ainda preciso passar por experiências maravilhosas que me farão evoluir ainda mais”, disse.  “Sinto a responsabilidade de ser um guia para os treinadores jovens que não tiveram carreira de atleta, mas preciso trabalhar em grandes clubes para que minha mensagem seja ouvida por mais pessoas. Não desista de seus sonhos, não importa o quanto digam que você não é bom o suficiente”.

Aos 39 anos, é isso que Gary White quer provar. Enquanto não chega a grande oportunidade da carreira, o jovem inglês vai ajudando Guam a subir de patamar, com o objetivo de ser a quinta melhor seleção do Leste Asiático até 2022 – Hong Kong, atual 144º no Ranking Fifa, é o adversário a ser batido. Será que Guam e White vão crescer juntos?

Ilhas Virgens Britânicas é ruim mesmo

Em toda a história, a seleção de Ilhas Virgens Britânicas jogou 75 vezes, com 14 vitórias, 12 empates e 49 derrotas. Os amadores atletas locais balançaram as redes adversárias em 69 vezes, mas a frágil defesa sofreu 240 gols.

O time já levou goleadas incríveis, como os 17 a 0 a favor da igualmente inexpressiva República Dominicana, em 2010, ou os 7 a 0 para Montserrat, em setembro de 2012. A equipe caribenha começou a jogar eliminatórias em 2002, quando levou de 14 a 1 de Bermudas, em dois jogos, caindo ainda na fase preliminar.

Quatro anos mais tarde, Santa Lúcia marcou dez vezes, algo inimaginável. A melhor chance de Ilhas Virgens Britânicas avançarem de fase foi em 2010, quando a equipe perdeu a vaga para Bahamas nos gols marcados fora de casa. Até da vizinha Ilhas Virgens Americanas o esquadrão britânico perdeu, por 4 a 1 no qualificatório de 2014 – o adversário levou 40 gols em seis jogos na fase de grupos, contra Antígua & Barbuda, Haiti e Curaçao, prova da fragilidade.

Curtas

- Atualmente, Hong Kong tem 170 pontos no Ranking Fifa, 47 acima de Guam. Entre eles estão Palestina, Tailândia, Quirguistão, Cingapura, Malásia, Índia, Laos e Indonésia no âmbito continental. As duas seleções já se enfrentaram quatro vezes, com goleadas a favor dos honcongueses: 11 a 0 (março/2003), 15 a 0 (março/2005), 15 a 1 (junho/2007) e um jogo mais apertado, em 2 a 1 (dezembro/2012).

- A diferença pode cair um pouco mais até o fim de abril, quando Guam encara duas vezes Aruba, na casa do adversário. Será a primeira vez que Guam vai enfrentar um adversário que não é de sua região (Pacífico) ou confederação. A equipe não perde há três jogos, incluindo vitórias contra Taiwan (3 a 0) – a primeira vitória na história de Guam contra um membro da Fifa num torneio oficial – e Camboja (2 a 0), além de um empate com Laos (1 a 1).

- Para se ter uma ideia da evolução de Guam sob o comando de Gary White, a seleção se encontra à frente de Ilhas Maldivas, Bangladesh, Paquistão e Nepal, seleções com muito mais história internacional (Ranking Fifa de fevereiro).