Protesto contra a Copa em Copacabana, no Rio de Janeiro, mostra máscara da presidente Dilma Rousseff (AP Photo/Leonardo Wen)

Entrevista: “É simplista achar que o resultado da Copa pode influenciar as eleições”

O dia 12 de junho foi o primeiro dia oficial da Copa. E também o extraoficial do #NãoVaiTerCopa. Era óbvio que a vitrine proporcionada pela ocasião, o primeiro dia em que todo o mundo estaria voltado ao Brasil, seria aproveitada por manifestantes – e não só por eles, mas também por outros oportunistas a exagerarem na dose e a causarem arruaça. Entre protestos reprimidos com violência pela polícia e vandalismos desnecessários, foram várias as cidades-sede que tiveram acontecimentos contra o Mundial no dia da estreia do torneio.

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Em São Paulo, dezenas de manifestantes se juntaram para afirmar: “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”. Foram reprimidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo vindas da polícia militar, posicionada em várias barricadas nas redondezas do Itaquerão para afastar qualquer protesto do tipo. Sobrou até para jornalistas, como uma repórter da CNN, ferida no braço por uma das bombas atiradas pelos policiais. Mais violência em Belo Horizonte, onde houve encontro de sindicatos e partidos políticos na Praça da Liberdade. Porém, além das entidades organizadas, também houve quem praticasse o vandalismo após o confronto com a polícia. Mais balas e bombas, com bancos apedrejados e até mesmo carros de polícia virados. Depredações de comércios e truculência da polícia se repetiram em Porto Alegre.

No Rio de Janeiro, a manifestação feita por cerca de mil pessoas se manteve pacífica durante a maior parte do tempo, mas acabou em confusão na Lapa, com troca de pedras e garrafas por bombas de gás e balas de borracha. Parte dos protestantes chegaram às proximidades da Fan Fest, em Copacabana. No mesmo local, o estúdio da rede inglesa ITV teve seu vidro atingido por pedras, enquanto um programa (com a presença dos comentaristas Fabio Cannavaro e Patrick Vieira) era apresentado. Outras cidades, como Recife, Salvador e Curitiba, também registraram eventos menos truculentos.

Manifestantes fazem protesto contra a Copa em Copacabana, no Rio de Janeiro  (AP Photo/Leonardo Wen)

Manifestantes fazem protesto contra a Copa em Copacabana, no Rio de Janeiro (AP Photo/Leonardo Wen)

Mesmo dentro do Itaquerão, ainda houve um momento marcante durante a partida entre Brasil e Croácia: parte da torcida presente no estádio dedicou alguns segundos para soltar palavrões contra a presidente Dilma Rousseff. Depois das vaias na abertura da Copa das Confederações, a chefe de Estado sequer participou da cerimônia da Copa do Mundo. Não evitou também que fosse alvo de manifestações, ainda que de caráter totalmente diferente.

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Foi intenso no primeiro dia, e deverá continuar sendo durante toda a Copa do Mundo. Não é apenas o torneio mais importante do futebol, e sim o evento mais visto em todo o planeta. Menos de um ano depois do momento em que o Brasil reaprendeu a força dos protestos e a meses das eleições, é natural que o Mundial invada a pauta política – seja pela luta de direitos ou pela corrida presidencial. Ainda que o grau de mobilização visto na Copa das Confederações, com milhões nas ruas, seja quase impossível de se repetir.

Sobre o assunto, conversamos na última semana com o professor Denaldo Alchorne de Souza, pós-doutorando do Departamento de História da FFLCH/USP e pesquisador da influência do futebol na identidade nacional. O bate-papo abordou diversos assuntos extracampo ligados à Copa do Mundo, como a força das manifestações, a influência que os resultados da Seleção podem ter nas eleições e o jogo de interesses políticos que permeia essas relações. Confira:

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Na Copa das Confederações, apesar da manifestação do lado de fora dos estádios, o apoio à Seleção foi mais marcante nas arquibancadas. Como você acha que vai ser essa divisão na Copa do Mundo, ainda mais por ser uma competição de amplitude muito maior?

Nós estamos em uma nova forma de relações sociais, de lutas sociais. Desde os anos 2000, existiram movimentos em que pela primeira vez você viu a força da internet. A rapidez de mobilização, de organização. E, ao mesmo tempo, há o lado negativo: a falta de foco, a rapidez no desaparecimento do movimento. O que a gente pode ver nesses movimentos é que houve uma mobilização muito grande e, depois, é como se saísse da moda.

É muito cedo para afirmar o que vai acontecer nos próximos dias. Esse padrão perdurou em 2013. Mas, em 2014, são os grupos organizados que estão puxando as manifestações. E, junto com esses movimentos, também vem a greve, de várias instituições. Em termos de consequências, por mais que não faça tanto barulho quanto as manifestações do ano passado, elas são bem maiores. Só vamos poder ter uma análise mais contundente no final da Copa.

Protesto contra a Copa do Mundo em Copacabana, no Rio de Janeiro (AP Photo/Leonardo Wen)

Protesto contra a Copa do Mundo em Copacabana, no Rio de Janeiro (AP Photo/Leonardo Wen)

Você acha que as manifestações ainda podem ser usadas como elemento político para as eleições?

Sim. O que as manifestações do ano passado mostraram? Primeiramente, que a sociedade brasileira é muito mais complexa do que as pessoas achavam. Depois, que a política não se resume a PT e a PSDB, é muito mais amplo, e nem se resume só a processo eleitoral. Agora, qualquer pessoa que usa as manifestações políticos ou eleitorais, pode dar um tiro no pé. Que vão utilizar de uma forma de outra, vão. Mas eles estão muito mais cuidadosos.

Outro mito que eu acho também que as manifestações quebraram é aquela ideia que existe na imprensa que há aquela figura do formador de opinião. O ano passado acabou com isso, é muito mais complexo. O formador de opinião precisa ser relativizado, porque as pessoas estão com acesso direito à informação e também à formação de opinião – especialmente nas redes sociais. Independente do que aconteça na Copa de 2014, com certeza o marco em termos sociais é a Copa das Confederações, que é quando um Brasil novo surgiu. Para todo mundo. Todo mundo ficou espantado: “O que é isso? O que está acontecendo?”. A multidão em seu pleno vigor, e com o poder da tecnologia.

“Mesmo se todos os problemas de infraestrutura fossem resolvidos, eu apostaria que as manifestações ainda aconteceriam”

Estamos vendo muito uso político, que o resultado da Copa pode influenciar nas eleições. Como você essa questão? É possível, em um ano como esse, dissociar o Mundial da política?

A questão é que é algo muito simplista ter essa ideia. E aqui eu não quero dizer que não possa influenciar. Claro que pode. Mas acho que não dá para resumirmos uma questão política dentro do sucesso ou fracasso da seleção brasileira. Aí temos vários exemplos: em 1958, Kubitschek se aproximou mais do povo a partir da vitória da seleção; em 1970, Médici usou e abusou do tri; e, de certa forma, Itamar Franco e o candidato FHC também usaram. Mas aí é simplista. Eu também posso dizer que em 1962, João Goulart, por mais que tenha sido uma pessoa que tenha jogado futebol, não saiu da crise institucional e econômica. E o mesmo em 2002, quando o candidato da situação não ganhou a eleição.

Em outras palavras, você precisa colocar outros âmbitos para explicar. Uma delas seria a questão econômica. Não podemos nos esquecer que, se Kubitschek, Médici e Itamar usaram o futebol, é porque havia uma euforia econômica também – os 50 anos em 5, o Milagre Brasileiro e o Plano Real. Então essa euforia também tem que ser considerada, e não só isso. Ao mesmo tempo, em 1962 e 2002 não foram suficientes para sair daquela crise econômica, enquanto João Goulart ainda enfrentava problemas institucionais. O mesmo eu posso dizer agora, em 2014: o Brasil pode ganhar a Copa e a Dilma Rousseff não ser reeleita. São outras camadas interpretativas que a gente precisa considerar.

Protesto contra a Copa do Mundo em Belo Horizonte (AP Photo/Victor R. Caivano)

Protesto contra a Copa do Mundo em Belo Horizonte (AP Photo/Victor R. Caivano)

Como você tem visto o uso político da Copa, principalmente na candidatura à presidência?

A utilização política da Copa do Mundo sempre vai existir. Se há setores que estão reivindicando alguma coisa, seria inesperado se eles não se mobilizassem a Copa. Como é que eu não vou aproveitar o maior evento dos últimos 64 anos? Como você vai pensar que um grupo não vai utilizar um elemento desses para se manifestar? Já em relação aos jogadores entrarem nessa questão política, é uma faca de dois gumes. Podemos nos lembrar de inúmeros jogadores que deram depoimentos sobre as manifestações durante a Copa das Confederações e receberam uma crítica gigantesca. Já se passou o tempo em que as palavras de uma personalidade fossem vista de uma forma passiva pela população. Pelo contrário.

“As manifestações do ano passado mostraram que a sociedade brasileira é muito mais complexa do que as pessoas achavam”

Usar o futebol como palanque político não é exclusividade apenas das ditaduras, é também comum em democracias. Você acha que isso pode ser usado como um elemento também na campanha política?

O futebol faz parte da sociedade e as contradições da sociedade permeiam o futebol. Isso aí não é somente em uma ditadura. E aí não é inocentar a ditadura, que foi a mais cruel possível. Mas aí a dizer que só a ditadura usou o futebol, isso é de uma mentira atroz. Desde os anos 1920, o futebol brasileiro foi utilizado politicamente. Por exemplo, o presidente Arthur Bernardes concedeu uma fortuna para a CBD não levar jogadores negros ao Campeonato Sul-Americano, por causa de uma visão racista do governo. Em 1950, todas as candidaturas à presidência foram lançadas durante a Copa e não cansaram de se utilizar dos jogadores para fins políticos. Então, é uma ingenuidade achar que só períodos ditatoriais utilizam o futebol. Itamar Franco e Fernando Henrique abraçaram os campeões. E, se Lula tivesse a oportunidade, alguém duvida que ele não iria bater uma bolinha com os jogadores campeões?

Protestos contra a Copa do Mundo viram carro da Polícia Civil (Foto: AP)

Protestos contra a Copa do Mundo viram carro da Polícia Civil (Foto: AP)

Você acha que é possível que os problemas nas obras de infraestrutura, o legado da Copa que acabou incompleto, influencie nas eleições?

O legado da Copa não era aquilo que nós imaginávamos. Continuamos com engarrafamentos nas grandes cidades, com problemas de infraestrutura, de habitação, etc. Porém, vamos imaginar o mundo ideal: que todos esses problemas fossem resolvidos. Eu apostaria que as manifestações ainda ocorreriam. Na verdade, além da questão econômica e das promessas políticas que não foram realizadas, você pode notar hoje certa ressaca em relação à política tradicional. Independente dessas questões econômicas que entram na pauta, e que vão ter força nas próximas eleições, há uma ressaca ao modelo político e institucional que nós temos hoje. Para começar, a composição social básica nas manifestações do ano passado, pelo menos em um primeiro momento, era de pessoas de classe média, de estudantes.

O que me parece é um desejo de reformular a política institucional. Há crítica em relação à representatividade, que com a tecnologia e com a internet, não há tanta necessidade de colocar tudo nas mãos de um representante – um senador, um deputado, um vereador. Muitas coisas você poderia decidir diretamente, via plebiscito, ou como na própria experiência da democracia americana, em que tudo começa a ser resolvido desde os níveis mais baixos. Há sim um descontentamento não só em relação à questão econômica. Aqui no Brasil, sempre foi muito marcado que as lutas sociais são sempre por questões econômicas. Até por ter aumentado um pouquinho o poder aquisitivo, as pessoas querem mais. Ou querem mais poder aquisitivo ou querem mais direito civil.

Agora estamos reaprendendo, quase que aprendendo, a viver em uma sociedade democrática. E nessa situação, em que os direitos sociais estão começando a ser atendidos, parece que as reivindicações estão indo para outros lados. E aqui eu me arrisco a dizer: principalmente em direção aos direitos civis. O direito de discutir, de tomar decisões. E a Copa do Mundo está sendo novamente uma possibilidade de você dramatizar essas questões. No Rio de Janeiro, as pessoas não aceitam mais que aquela reforma do Maracanã tenha sido feita sem consulta prévia. Ou mesmo a questão do entorno, da aldeia Maracanã. Então, na verdade, outras reivindicações sendo colocadas à prova. Não é só uma questão econômica ou estrutural. Mas, mesmo que isso não existisse, acho que as manifestações ocorreriam da mesma forma.

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