A história das seleções africanas nas Copas do Mundo é contada quase sempre pelos grandes meias e atacantes do continente. Roger Milla, Madjer, Diouf, Yekini, Drogba, Hadji, Asamoah Gyan. Em um futebol quase sempre taxado por ser ofensivo, os goleiros são mais lembrados pelo folclore do que por sua qualidade, mesmo que a África já tenha apresentado grandes camisas 1 em Mundiais. E Vincent Enyeama é um desses grandes exemplos.

França 2×0 Nigéria: Bleus avançam, mas foi muito mais difícil que o esperado

A falha no primeiro gol contra a França pode até marcar o goleiro da Nigéria. No entanto, o que ninguém também pode se esquecer é que, se não fosse ele, certamente os franceses venceriam por bem mais do que só 2 a 0. Rodado no futebol europeu e melhor de sua posição no último Campeonato Francês, Enyeama encararia alguns velhos conhecidos. Cresceu diante de Benzema, de Pogba e de Griezmann, para fazer quatro defesas sensacionais, tornando a partida tão dura para os Bleus.

A pouca altura de Enyeama pode até atrapalhar em alguns momentos, como foi no tento de Pogba. Mas ninguém se lembra disso em suas ótimas saídas no mano a mano ou na ótima impulsão para buscar os chutes no canto, especialmente os rasteiros. Errando ou não, Enyeama fechou a Copa de 2014 em alta. Já tinha feito um milagre no empate sem gols contra o Irã, foi salvador na derrota para a Bósnia e outra vez incomodou a Argentina de Messi, como havia sido em 2010 – mesmo que, desta vez, não tenha impedido o camisa 10 de anotar. Na África do Sul, o nigeriano jogou demais, embora seu esforço não tenha sido suficiente para que as Super Águias se classificassem.

A segunda grande Copa do Mundo feita por Enyeama o confirma ainda mais como um dos melhores goleiros africanos da competição. Em 1986, o grande nome foi Zaki, essencial para que Marrocos se tornasse a primeira seleção africana da história a ir além da fase de grupos. Acumulou grandes defesas contra Polônia, Inglaterra e Portugal, mas não conseguiu fazer que os Leões do Atlas passassem pela Alemanha Ocidental nas oitavas. O grande parâmetro para Enyeama, porém, é Thomas Nkono, o paredão de Camarões em 1982 e 1990.

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Em seu primeiro Mundial, o goleiro era o capitão dos Leões Indomáveis e só sofreu um gol nos três jogos da fase de grupos. E a seleção camaronesa só não passou de fase porque balançou menos as redes que a Itália, classificada pelos critérios de desempate e futura campeã. Já em 1990, era um dos pilares no time que surpreendeu o mundo ao cair apenas nas quartas de final. O camisa 16 foi tão bem que acabou influenciando um garoto italiano de 12 anos que se encantou com suas atuações: Gianluigi Buffon deixou de jogar no meio-campo para virar goleiro, algo que afirmou em entrevista à Gazzetta dello Sport. Em homenagem a Nkono, um dos filhos da lenda italiana se chama Thomas.

É difícil imaginar que Enyeama se torne a inspiração de um mito do porte de Buffon no futuro. Mas dá para dizer que, ao menos em um aspecto, ele igualou o feito de Nkono, ao fazer duas ótimas Copas do Mundo. Aos 31 anos, pode até ir além e voltar ao Mundial de 2018, na Rússia, para ampliar sua história na competição. Capacidade para isso ele já demonstrou que não falta.