A Dinamarca não empolgou em suas últimas participações internacionais. Caiu na primeira fase da Copa de 2010 e da Euro 2012. Nas Eliminatórias para o Mundial de 2014, sequer fez pontos suficientes para chegar à repescagem, mesmo na segunda colocação de sua chave. E rumo à Euro 2016, caiu no confronto direto com a Suécia por uma vaga na França, depois de ser superada pela Albânia em seu grupo. A entressafra no período era evidente e o cenário não parecia muito animador rumo a 2018, com campanha ruim no início das Eliminatórias. Entretanto, 2017 vem sendo um ano transformador para os dinamarqueses. A equipe iniciou uma ascensão meteórica. As peças começaram a se encaixar e, sobretudo, seu principal jogador assumiu o protagonismo que se esperava. Graças à fase brilhante de Christian Eriksen, os escandinavos se confirmaram na repescagem. E com uma partida fenomenal do camisa 10, golearam a Irlanda por 5 a 1 em Dublin, para celebrar o retorno do país à Copa após oito anos.

As duas derrotas da Dinamarca na fase de grupos das Eliminatórias aconteceram logo nas primeiras três rodadas, diante de Polônia e Montenegro. Nos últimos meses, porém, a guinada se iniciou. E o grande ponto de virada aconteceu em setembro, com a goleada por 4 a 0 sobre a Polônia em Copenhague. Em um momento no qual os poloneses nadavam de braçada no Grupo E, aquele placar elástico demarcava o potencial dos escandinavos. Ressaltava especialmente a estrela de Eriksen, que ajudou a acabar com o jogo. Mesmo vencendo três de seus últimos quatro jogos, os dinamarqueses não alcançaram a Polônia na liderança. Ainda assim, chegava à repescagem como time mais embalado. Azar da Irlanda.

O primeiro jogo, apesar do placar zerado, contou com um espetáculo à parte da Dinamarca – ao menos no quesito torcida. O ambiente em Copenhague foi fantástico, com direito a mosaico, sinalizadores, hino cantado à capela e apoio durante os 90 minutos no Estádio Telia Parken. Se os escandinavos não conseguiram corresponder em campo todo esse fervor, com o empate por 0 a 0, sabiam que a dívida persistia rumo ao segundo jogo da repescagem. E de maneira massacrante, voltam para casa com a classificação nas mãos.

Se alguém esperava um jogo amarrado, como foi a ida ou a maioria absoluta dos jogos decisivos nesta Data Fifa, se enganou. Muito porque a Irlanda conseguiu fazer o confronto se abrir logo nos primeiros minutos. Aos cinco, em uma bola alçada na área, Nicolai Jorgensen falhou na tentativa de afastar o perigo e permitiu que Shane Duffy abrisse o placar. A desvantagem impulsionou a Dinamarca ao ataque. Os visitantes criaram duas excelentes chances, mas pararam em grandes defesas do goleiro Darren Randolph, um dos heróis no empate em Copenhague. Além disso, a pressão escandinava deixava espaços em sua retaguarda. Foram dois contra-ataques perigosíssimos, que por pouco não renderam o segundo tento irlandês.

A partir dos 28 minutos, contudo, a Dinamarca tomaria as rédeas do jogo para si, ao buscar o empate. E, no primeiro tento, os méritos vão todos para Pione Sisto – outro que gastou a bola em Dublin, mas acabará bem menos mencionado diante do show de Eriksen. O ponta fez uma jogada sensacional pela esquerda, mandando a bola por entre as canetas do marcador antes de cruzar para Andreas Christensen. O camisa 6 acertou a trave, mas Cyrus Christie acabou mandando contra o próprio patrimônio. Era o início da reação dinamarquesa. E a deixa para o recital do camisa 10.

A virada da Dinamarca aconteceu três minutos depois, em ótima jogada coletiva. O contra-ataque funcionou com enorme fluidez e, depois que Jorgensen rolou, Eriksen acertou um belíssimo chute de primeira, no ângulo. A bola ainda tocou no travessão antes de entrar, sem qualquer chance para Randolph. Tranquilidade importante para esfriar o confronto rumo ao intervalo. Naquele momento, a Irlanda precisava de outra virada para sonhar com a Copa do Mundo, por causa dos gols marcados fora de casa pelos dinamarqueses.

No entanto, a postura fulminante da Dinamarca para resolver o duelo determinou o seu sucesso. As mudanças feitas por Martin O’Neill surtiram pouco efeito na Irlanda e os visitantes pressionavam mais. Randolph voltou a salvar. Já do outro lado, Kasper Schmeichel até chegou a trabalhar, mas nada que parecesse indicar uma reação de verdade dos irlandeses. Aos 17 minutos, o golpe fatal. Em mais uma boa trama em velocidade, após roubada de bola, Sisto passou e Eriksen teve toda a liberdade na entrada da área para chutar no cantinho, com categoria. A partir de então, os anfitriões deixaram claro que não teriam forças para buscar os três tentos necessários, limitados basicamente às bolas alçadas.

Eriksen completou sua tripleta aos 27. Stephen Ward deu uma bobeira imensa ao afastar uma bola na área, apenas ajeitando para o camisa 10. Mas a felicidade do meia no lance é inegável, pegando na veia, na gaveta de Randolph. Na chance que teve para descontar, a Irlanda desperdiçou no mano a mano. E o caixão terminou de ser fechado aos 44. Nicklas Bendtner sofreu pênalti e ele mesmo cobrou, anotando o quinto. Naquele momento, o Estádio Aviva, palco das animadas festas da torcida irlandesa, já estava praticamente vazio. Restavam apenas os invasores escandinavos, aguardando para celebrar com seus jogadores após o apito final. Assim se fez.

Atualmente, a Dinamarca tenta se afirmar no segundo pelotão de seleções europeias. Independentemente disso, possui jogadores que fazem valer o bom momento. Todos os setores possuem nomes que se sobressaem: Kasper Schmeichel, Andreas Christensen, Thomas Delaney, Pione Sisto, Yussuf Poulsen, Nicolai Jorgensen. Do meio para frente, sobretudo, há opções para variar o time, o que contribui com o rendimento. Méritos também do técnico norueguês Åge Hareide, ex-comandante da seleção de seu país e campeão por clubes nas três principais ligas escandinavas. Contratado em 2016, após deixar o Malmö, ajudam os dinamarqueses a reencontrarem um bom futebol, principalmente pelo equilíbrio entre ataque e defesa.

E há, claro, Christian Eriksen. Não dá para falar sobre o sucesso da Dinamarca sem exaltar a sua principal estrela. Os números falam por si. O camisa 10, que havia anotado seis gols em seus primeiros 60 jogos pela equipe nacional, soma 15 nas últimas 15 aparições. Apenas nas Eliminatórias, foram dez tentos, passando em branco em apenas duas das últimas nove partidas. Sem dúvidas, o meia eleva o seu status rumo ao Mundial da Rússia. Por aquilo que fez nesta campanha, chega com o rótulo verdadeiro de grande craque do time – algo que por muito tempo se cobrou do jovem, especialmente pela maneira como ele desaparecia em algumas partidas. Agora, até por aquilo que tem jogado no Tottenham, ele parece maduro o suficiente para assumir a responsabilidade. Sorte de seu país. Se continuar assim, dá para sonhar com uma campanha digna no Mundial.