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[Especial] 15 histórias em que o futebol foi mais que um jogo nos 15 anos da Trivela

O futebol possui uma possibilidade ímpar de encantar. Uma fantasia que pode se prender aos 90 minutos de um jogo. Mas que também tem forças para se tornar uma realidade concreta, extravasar os limites do campo e das arquibancadas, transformar vidas. Por abranger grandes massas, essa mudança pode se dar para toda uma sociedade, um país inteiro. Contudo, também pode ser bem mais singela. Salvar uma vida, que seja, já é o suficiente.

Em 15 anos de Trivela, não faltaram boas histórias em que o futebol foi muito além das quatro linhas. Encerrou guerras, uniu povos, abriu as portas para minorias. Assim como deu conforto a quem já estava a beira da morte, proporcionou alegrias a quem quase não as tinha, ajudou a superar barreiras. Nas próximas linhas, resgatamos 15 desses belos capítulos do esporte, indicando também alguns links que podem enriquecer a compreensão. E, como bônus, também falamos sobre um episódio que tinha tudo para ser bonito, não fosse a politicagem que o sobrepôs.

A paz conquistada na Costa do Marfim graças à Copa


A partir de 2002, a Costa do Marfim passou a conviver com uma guerra civil. A luta era travada entre as forças do governo e os rebeldes que representavam o norte do país, majoritariamente muçulmano e com vasto número de imigrantes. Porém, a classificação à Copa do Mundo de 2006 ajudou a unir o país novamente, reavivando o sentimento de uma só nação. Liderados por Drogba, os jogadores comemoraram a vaga pedindo o armistício. E o acordo de paz foi alcançado em 2007, quando a seleção também disputou uma partida na cidade de Bouake, centro das forças rebeldes, para selar a celebração.

Torcedor do Feyenoord tem o melhor adeus que um homem pode ter


Rooie Marck sabia que não teria muitos dias de vida. O holandês de 54 anos era fumante inveterado e tinha um câncer de pulmão em estágio avançado. Mas, mesmo com suas condições debilitadas, o torcedor fanático do Feyenoord tinha um último pedido a fazer: queria ir mais uma vez ao Estádio De Kuip, ver o time jogar, sentir o calor da torcida. Rooie teve seu desejo realizado durante um treinamento. Com as arquibancadas cheias, mesmo de cama, o homem se levantou para cantar ‘You’ll never walk alone’. Três dias depois do momento arrepiante, o torcedor faleceu, deixando como testamento uma emocionante carta de despedida, agradecendo todo o carinho recebido.

A representatividade do St. Pauli na luta pelas minorias

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O St. Pauli é um clube único no mundo. Se o time alemão possui tantos simpatizantes pelo mundo, é bem mais por seus feitos fora de campo do que dentro dele. Dirigido por um presidente abertamente gay entre 2002 e 2010, o sempre apoiou os direitos das minorias e a cultura independente. O auge dessa política veio em 2009, quando o clube publicou o Leitlinien. A carta de direitos fundamentais defende a responsabilidade social do clube, a identidade local, a tolerância e o respeito, atraindo o público por sua autenticidade.

O garoto excepcional que teve sua vida mudada graças a um jogo da seleção

Källström e Max, antes do jogo entre Suécia e Alemanha

Suécia e Alemanha protagonizaram uma partida espetacular pelas Eliminatórias, com vitória do Nationalelf por 5 a 3. Entretanto, o placar é o de menos diante da relação de amizade criada entre Kim Källström e Max, de oito anos. O menino sueco foi uma das 11 crianças com Síndrome de Williams, doença com características do autismo, selecionadas para serem mascotes na partida. E, com medo da situação inédita, o garoto foi acalmado pela atenção que recebeu do meia da seleção. Dias depois, Källström recebeu uma carta de agradecimento do pai de Max, afirmando que a atitude do jogador o ajudou no tratamento da síndrome.

A união de árabes e judeus na seleção israelense

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Israel protagonizou uma excelente campanha nas Eliminatórias da Copa de 2006. A equipe ficou de fora da repescagem apenas por causa do saldo de gols, terceira colocada em um duro grupo que também contava com França e Suíça. E o sucesso dos israelenses pode ser creditado ao trabalho em conjunto de judeus e árabes. Dentre os gols decisivos, alguns foram anotados pelos árabes Walid Badir e Abbas Suwan. Embora ambos também tenham sido vítimas de ataques, foram colocados como exemplos da reconciliação com os ‘irmãos judeus’, cerca de um mês depois da assinatura do acordo de paz que selou o fim da Segunda Intifada.

A lição de vida dada por Éric Abidal


Abidal pode ser listado entre os melhores defensores de sua geração. Não só pela qualidade em campo, mas também pela força de vontade para superar o câncer no fígado. O francês foi diagnosticado com a doença pela primeira vez em 2011. Operou e voltou a tempo de levantar a taça da Liga dos Campeões pelo Barcelona, em um belo gesto de Puyol. Porém, a doença voltou a atacá-lo no ano seguinte, e com mais força. Abidal precisou ser submetido a um transplante de fígado, mas não desistiu. Voltou a atuar um ano e dois meses depois. Mais do que isso, ajudou a liderar a campanha da França rumo à Copa de 2014.

A Bósnia se torna uma só através da Copa do Mundo

Torcedores bósnios erguem a bandeira do país na Lituânia (AP Photo/Mindaugas Kulbis)

A guerra de independência da Bósnia foi uma das mais sangrentas das últimas décadas. Depois de centenas de milhares de mortes, a paz foi conquistada, mas com uma cisão profunda no país. Toda a organização da Bósnia era dividida em três partes, representando as etnias que eram maiorias no país: muçulmanos, sérvios e croatas. Até o futebol era marcado por essa separação, com três ligas e três presidentes da federação. Contudo, o tempo cicatrizou as feridas e a união representada em campo, em uma seleção multiétnica, desencadeou uma festa enorme nas ruas do país com a conquista da vaga inédita na Copa de 2014.

Lucas Radebe e sua representatividade no fim do Apartheid

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Nelson Mandela foi a grande força catalisadora para extirpar o Apartheid e iniciar a reconstrução da África do Sul.  E, ícone para milhões em seu país e ao redor do mundo, o líder político também tinha quem admirar. “Este é o meu ídolo”, disse certa vez a Radebe, durante um evento público. O zagueiro da seleção em duas Copas do Mundo nasceu no Soweto, chegou a levar um tiro na perna durante os anos mais pesados de violência e venceu através do futebol. Tornou-se um exemplo também por nunca renegar suas origens, coordenando vários projetos sociais nas periferias, que lhe renderam o Prêmio Fair Play da Fifa em 2000.

A superação da torcida do Al Ahly e sua força política

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O segundo maior desastre em um estádio de futebol nos últimos 15 anos teve como palco o Egito. Durante o jogo entre Al Ahly e Al Masry, 74 pessoas foram massacradas. O motivo? A participação de ultras do Al Ahly, clube mais popular da África, no processo que acabou com a queda do regime ditatorial de Hosni Mubarak. Apesar da ferida gigantesca, os vermelhos levantaram a cabeça. Voltaram às ruas, desta vez de mãos dadas com o Zamalek, seus maiores rivais, para lutar por justiça. E se refizeram também em campo. Mesmo com o caos que se instaurou no Campeonato Egípcio, o clube conquistou o bicampeonato da Liga dos Campeões da África, com o ídolo Aboutrika liderando as homenagens aos mártires de Port Said.

Robbie Rogers, Thomas Hitzlsperger e a abertura aos homossexuais

Foram dois passos individuais. Mas que têm uma representatividade coletiva tremenda. Dois ex-jogadores de seleção, que resolveram sair do armário e abrir um debate que é tão fechado no futebol. E mais interessante ainda foram as reações que ambos receberam – especialmente Rogers, pioneiro na postura após muitos anos. O americano recebeu manifestações públicas de apoio em diferentes países e, temendo menos os ataques preconceituosos, recebeu uma nova chance de recomeçar a carreira no Los Angeles Galaxy.

O ‘Coração Valente’ de Washington

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A carreira de Washington parecia condenada. Aos 27 anos, o atacante acabara de chegar ao futebol europeu, quando descobriu que tinha 90% de suas artérias coronárias entupidas e um risco altíssimo de sofrer um infarto. Precisou passar por um cateterismo e pelo implante de um stent, aconselhado a abandonar a carreira. Um ano e dois meses após o diagnóstico, Washington passou por uma bateria de exames e pôde retomar a carreira. Logo no ano da volta, o Coração Valente marcou 34 gols e se tornou o maior artilheiro da história do Brasileiro.

Em meio à guerra, o Iraque se liberta nos gramados

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A ofensiva dos Estados Unidos ao Iraque teve início em 2003. E o país do Oriente Médio vivia o auge dos ataques quando conseguiu dar um motivo para sua população sorrir através do futebol. A seleção masculina protagonizou uma campanha surpreendente nos Jogos Olímpicos de 2004. Primeiro, por desbancar logo na estreia Portugal, do promissor Cristiano Ronaldo. Uma arrancada que por pouco não rendeu pódio, com a derrota para a Itália na decisão do bronze. E o orgulho foi ainda maior em 2007, quando os iraquianos conquistaram o título inédito da Copa da Ásia, superando a Arábia Saudita na decisão.

O choro de Jong Tae-Se durante o hino nacional


Jong Tae-Se era bem mais do que o craque da Coreia do Norte na Copa do Mundo de 2010. O ‘Rooney do povo’ também tinha uma história de vida bastante peculiar. Nascido no Japão, o atacante é filho de coreanos do norte, mas sempre preferiu ignorar o lado da fronteira em que eles nasceram. Ainda assim, serviu a seleção e chorou copiosamente durante a execução do hino nacional durante a estreia no Mundial. A emoção de Tae-Se, no entanto, passava longe de ser uma questão política. Em 2013, o jogador foi contratado pelo Suwon Samsung Bluewings, da Coreia do Sul, e manifestou seu desejo em trabalhar pela união dos dois lados da península.

A glória do Afeganistão em um 11 de setembro

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O dia 11 de setembro de 2001 mudou a história do Afeganistão. Os atentados orquestrados por Osama Bin Laden culminaram em uma guerra ao terror centrada no país, que passou a conviver com as balas e as bombas. Dentre as poucas alegrias da população, estava o futebol, ainda que sua realização fosse penosa diante do conflito. Ainda assim, a seleção afegã conquistou seu primeiro título, o Campeonato da Federação de Futebol do Sul da Ásia. Justamente em um 11 de setembro, 12 anos depois. A conquista eclodiu em uma forte manifestação de orgulho nacional, com milhares de pessoas tomando as ruas de Cabul.

Elche denuncia os próprios torcedores para combater o racismo


Em tempos de indiferenças reavivadas na Europa, o racismo se torna bem mais frequente nas arquibancadas. O que é raro de se ver é uma atitude como a do Elche nesta temporada. Durante o jogo contra o Granada, torcedores do clube espanhol entoaram cânticos racistas contra Allan Nyom. E o próprio clube, que pediu para os agressores se calarem nos autofalantes do estádio, se encarregou de denunciar os responsáveis pelas ofensas. Como prêmio à colaboração em identificar os racistas, o Elche foi eximido da punição pela federação.

Faixa bônus

O Jogo da Paz, os efeitos positivos no Haiti e os negativos no Brasil

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O dia 18 de agosto de 2004 entrou para a história do Haiti. O país devastado pela guerra civil recebia a seleção brasileira para renovar suas esperanças. Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e tantos outros jogadores emblemáticos foram recebidos por uma festa enorme nas ruas de Porto Príncipe, em carreata que transformou os tanques da ONU em símbolo de alegria. A vitória por 6 a 0 sobre o Haiti no amistoso foi o de menos diante da oportunidade que os haitianos tinham. O problema foi os desdobramentos que o jogo trouxe ao Brasil. O amistoso abrandou as relações entre Ricardo Teixeira e o governo Lula, diminuindo a pressão política sobre o dirigente, que se manteria mais oito anos no controle da CBF.