Depois de quatro meses de disputa, um bocado de desistências e muita bola rolando, chegou ao fim neste domingo a Série D, o maior símbolo da grandeza escondida do futebol brasileiro. E quando se fala em grandeza aqui não é apenas no sentido do número de clubes, mas também na questão territorial. Ao todo, 40 equipes de norte a sul desse país se digladiaram por vagas num lugarzinho melhor: a Série C. E quatro delas conseguiram: o Sampaio Corrêa, campeão invicto, o Crac, vice-campeão, e Baraúnas e Mogi-Mirim, semifinalistas.

Muita coisa, no entanto, passou despercebida. Coisas de um futebol sem a vigilância e a discussão provocadas pelos gigantes da Série A e no qual as concentrações em hotéis cinco estrelas são muitas vezes trocadas pelo alojamento simples, regado a café com leite e pão com banha. Um ambiente bem menos luxuoso dentro e fora do campo, mas nem por isso menos apaixonante para torcedores que vão aos estádios. E para que você, leitor, saiba de dez coisas que passaram despercebidas e aconteceram na Série D, nós, da Trivela, fizemos uma lista. Confira:

A torcida do Sampaio Corrêa

Se o Santa Cruz aumentou substancialmente a média de público da Série D em 2011, foi a vez do Sampaio Corrêa fazer isso em 2012. Impulsionado pela reinauguração do Estádio Castelão, o tricolor maranhense botou cerca de 40 mil pessoas no estádio nas quatro últimas partidas em São Luís e agora possui a sexta maior média de público do ano no Brasil, na frente de clubes como Flamengo, Vasco e São Paulo.

O Crac desistiu, desistiu de desistir e virou vice-campeão

Semifinalista do Campeonato Goiano, o Crac é um time querido na pequena cidade de Catalão, mas não tinha dinheiro para disputar a Série D. Chegou a anunciar a desistência, mas voltou atrás e cresceu durante a competição até eliminar o Friburguense nas quartas de final para selar o acesso. O destaque do time foi o atacante Nino Guerreiro, que terminou como artilheiro da competição com 12 gols.

Nomes e apelidos exóticos e brasileiros (ou não necessariamente)

Na Série A, Micão virou Madson e Muralha quase vira Luis Phelipe. Na Série D, não. Pimentinha, atacante do Sampaio Corrêa, é Pimentinha, e não Anderson Maranhão. Perereca, goleiro do Mixto, é Perereca, e não Heverton Cuiabá. Os atacantes Adalgiso Pitbull e Lindon Johnson, do Baraúnas, ajudam a encorpar a tese de que esses nomes diferentes contribuem para o folclore e a pluralidade do futebol brasileiro.

O Treze

Pivô da grande confusão que adiou a Série D, o Treze não foi visto por lá. Isso porque, depois de encher o saco de meio mundo, conseguiu a vaga que tanto almejava na Série D. Mas certamente atrapalhou muita gente e conquistou a antipatia gratuita e espontânea de muitos torcedores de diversos clubes do país.

O Cerâmica-RS

Diferentemente do Treze, o Cerâmica participou da Série D por causa da desistência de times como Novo Hamburgo e Laeadense, e ocupou menos páginas no noticiário nacional do que o clube paraibano. Profissionalizado há apenas cinco anos, a equipe de Gravataí-RS teve uma média de público de 39 pagantes em seus jogos em casa, a pior entre os 40 participantes.

Arlindo Maracanã, o craque do campeonato

Lançamentos precisos, cobranças de falta perfeitas e muita tranquilidade em campo. Poderíamos usar essa descrição para falar de Andrea Pirlo, mas não. Quem comandou o Sampaio Corrêa desta maneira dentro de campo foi o veterano Arlindo Maracanã, 33 anos, jogador que teve boas passagens por Avaí e Ceará, além de curtos períodos em Vasco e Fluminense. Lateral direito de origem, se firmou no meio-campo e foi o dono do time nos momentos mais importantes.

Veteranos em fim de carreira

A lista aqui é extensa e o maior destaque é Nonato, ex-Bahia, autor de oito gols pelo Mixto-MT. Ainda no Mixto, estava Paulo Almeida, capitão do Santos campeão brasileiro de 2002 com Diego e Robinho. Warley, ex-Atlético Paranaense e São Paulo, atuou pelo Campinense-PB. Fábio Bala, que um dia já foi promessa do Fluminense, jogou no Penarol-AM. Mas ninguém supera o grande Dimba, 38 anos, que cumpriu um bom papel pelo Ceilândia-DF e fez dois gols.

Toshiya Tojo, um japonês no Friburguense

O Friburguense esteve a um passo de subir para a Série C, mas acabou eliminado pelo Crac nas quartas de final. No entanto, o time da região serrana do Rio de Janeiro apresentou uma novidade nesse campeonato: o atacante japonês Toshiya Tojo, 20 anos, que disputou dois jogos e marcou um gol na competição. Não se sabe, no entanto, se ele permanecerá em Friburgo para o Campeonato Carioca, o que certamente o tornaria uma atração à parte.

Torcidas vibrantes no interior de Pernambuco

Últimos colocados do Grupo 3 da primeira fase, Ypiranga-PE e Petrolina tiveram em suas torcidas grandes aliadas que compareceram no estádio até o fim. Os dois clubes figuram entre as seis maiores médias de público da competição. O Petrolina, com 4085 de média, foi o quarto colocado e o Ypiranga, de Santa Cruz do Capibaribe, o sexto, com 3485. Números superiores aos do Juventude, que estava na primeira divisão até 2007 e parou nas oitavas de final.

A própria Série D

O torneio não foi transmitido, então não há como ver mesmo. Mas talvez, com o sucesso da Série C, haja mais abertura para que praças locais possam transmitir seus jogos ao vivo e mostrar um pouco mais desse futebol brasileiro sem maquiagem, pasteurização e cifras milionárias envolvidas e nem por isso menos interessante.

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