Pak Doo-Ik faz o gol da vitória da Coreia do Norte sobre a Itália na Copa de 1966 (AP Photo/Bippa)

[Especial Itália 80/90] Como um norte-coreano derrubou todos os clubes italianos

Italianos são passionais, e nem sempre tanta paixão é canalizada do modo adequado. A direção do futebol local é um exemplo, e não primou por racionalidade nos momentos de crise em meados do século passado. Com isso, fizeram que os clubes italianos tivessem quase 15 anos de muito sofrimento continental devido a um golzinho, o da foto acima, marcado por Pak Doo-Ik na vitória da Coreia do Norte por 1 a 0 sobre a Azzurra na Copa de 1966.

Para entender essa história, é preciso voltar ainda mais no tempo, nos escombros da Segunda Guerra Mundial. Até 1946, o futebol italiano teve grande contribuição de jogadores estrangeiros, praticamente todos descendentes de imigrantes nascidos na América do Sul. A partir daquele ano, a federação abriu o mercado para não-descendentes. O Milan se aproveitou e eternizou o trio Gre-No-Li, com os atacantes suecos Gren, Nordhal e Liedholm. Mas Puskás apareceu no caminho.

Em 1953, a Itália perdeu por 3 a 0 para a Hungria, grande potência mundial da época. No calor do momento, o governo italiano vetou a entrada de estrangeiros no futebol. Apenas descendentes com direito a nacionalidade teriam permissão para defender os clubes da Serie A. Em teoria, a medida deveria incentivar o desenvolvimento de talentos locais, mas piorou a situação: a Itália caiu na primeira fase na Copa de 1954 e 1962 e não passou pela Irlanda do Norte nas Eliminatórias de 1958.

Aí veio a derrota humilhante para a Coreia do Norte no Mundial de 1966. Difícil imaginar como o futebol italiano poderia se afundar mais. A solução? Vetar completamente os estrangeiros, mesmo os descendentes de italianos.

A Itália foi campeã da Eurocopa em 1968 e vice do mundo em 1970, mas não dá para creditar essas conquistas ao fechamento de fronteiras. Primeiro, porque os jogadores dessas campanhas não surgiram após a mudança de regras. Segundo, porque ainda havia estrangeiros na Itália nesse período (foi vetada a contratação de novos forasteiros, mas não se expulsou quem já estava por lá).

Quem sentiu mesmo o impacto da medida, e negativamente, foram os clubes. Apesar dos problemas da Azzurra, os clubes tinham sucesso nas competições internacionais. Na década de 1960, o Milan conquistou duas Copas dos Campeões e uma Recopa, a Internazionale levou outras duas Copas dos Campeões, a Fiorentina teve uma Recopa e a Roma ganhou uma Copa das Feiras. Apenas a Espanha tinha currículo mais vitorioso.

Mas a proibição a estrangeiros pós-1966 derrubou todos os clubes italianos gradualmente. O Milan venceu a Copa dos Campeões em 1968/69, mas, entre 1969/70 e 1979/80, a Itália chegou a apenas seis finais continentais:

1971 – Juventus perde do Leeds United na Copa das Feiras
1972 – Internazionale perde do Ajax na Copa dos Campeões
1973 – Juventus perde do Ajax na Copa dos Campeões
1973 – Milan vence o Leeds United na Recopa (vídeo abaixo)
1974 – Milan perde para o Magdeburg na Recopa
1977 – Juventus vence Athletic Bilbao na Copa da Uefa

É um retrospecto ridículo para um país que era uma potência pouquíssimo tempo antes. Foram seis decisões, e apenas dois títulos, em 33 torneios disputados. Na temporada 1979/80, a Itália caiu para o décimo lugar no ranking de ligas da Uefa, atrás de Alemanha Ocidental, Inglaterra, Bélgica, Espanha, Holanda, Alemanha Oriental, União Soviética, França e Iugoslávia. Um rendimento tão sofrível que a Serie A perdeu duas vagas para a Copa da Uefa. Em 1980/81, os italianos teriam apenas dois representantes no torneio.

A Serie A estava no buraco, e como ela juntou os cacos e se tornou no maior campeonato do mundo em apenas cinco anos será contada nesta terça, na segunda parte do especial.

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