Del Piero e Ronaldo se cumprimentam antes de um Juventus x Internazionale de 1998 (AP Photo/Claudio Miano)

[Especial Itália 80/90] Corrupção, Lei Bosman e concorrência externa transformam, aos poucos, a Serie A em corrida a três

Silvio Berlusconi estava no auge no começo da década de 1990. O Milan, que o empresário comprara em 1986 e ainda tentava se recuperar após o escândalo Totonero, se transformara no maior clube do planeta. A pequena TV regional milanesa que comprara em 1978 já era um grande grupo de mídia. Como fundador e líder do partido liberal Forza Italia, conseguiu ser eleito presidente do Conselho de Ministros (como o primeiro ministro é oficialmente chamado na Itália) em 1994.

De repente, as coisas começaram a dar errado. Claro que um sujeito poderoso como ele não cai completamente, ainda mais na Itália, um país com vocação quase brasileira de se dar um jeitinho para as coisas. Mas ele teve momentos mais felizes na sua vida do que janeiro de 1995. Ele acabara de perder o cargo de primeiro ministro por uma mudança nas alianças que o sustentavam. E a Operação Mãos Limpas chegou até seus negócios.

A Fininvest, braço financeiro do grupo de Berlusconi, era alvo das investigações que tentavam descobrir esquemas de corrupção e crimes financeiros envolvendo bancos e a máfia. As práticas do empresário foram observadas com cuidado, e coisas estranhas apareceram.

O mundo do futebol havia estranhado demais quando o Milan contratou o atacante Gianluigi Lentini, revelação do Torino, por US$ 26 milhões. Era um bom jogador, mas esse dinheiro era inimaginável na época. Por exemplo, Roberto Baggio havia trocado a Fiorentina pela Juventus por US$ 17 milhões dois anos antes. E o meia era visto como uma promessa muito maior que Lentini, que se transformara no jogador mais caro da história.

Lentini foi um péssimo investimento. Um ano após ser contratado, durante as férias, quase morreu em um acidente de carro. Perdeu uma temporada quase inteira para se recuperar e nunca mais foi titular do Milan. Após dois anos na reserva, transferiu-se para a Atalanta. A partir daí, iniciou uma turnê por clubes pequenos: Torino, Cosenza, Canelli, Saviglianese, Nicese e Carmagnola, time da sétima divisão onde encerrou a carreira em 2012. Em quatro temporadas com a camisa rossonera, fez 63 jogos e 13 gols.

Por essa transação, Berlusconi foi processado por falsificar fraudulentamente o balanço do Milan em 1993 e 94. Uma parte do valor do negócio teria sido feito por baixo do pano, segundo a promotoria, que depois ainda pediu para estender as investigações para os balanços entre 1991 e 97.

Eram os primeiros sinais de que o futebol italiano não conseguiria se manter no topo por tanto tempo. Se o homem mais poderoso da Itália usava o futebol de forma fraudulenta, é de se imaginar que a liga não era rica e sustentável como os torcedores gostariam.

O Milan do técnico Fabio Capello não dava margem para ninguém. Só a Juventus conseguia impedir um monopólio rossonero na Serie A. Não havia mais aquela sensação de que o Campeonato Italiano tinha vários candidatos a brigar no topo.

Para piorar, o cenário internacional mudou bastante. Em 1995, o belga Jean-Marc Bosman venceu sua ação contra o Liège, que queria impedir sua ida para o Dunkerque. Essa decisão judicial quebrou dois elementos fundamentais para a lógica do mercado de jogadores na época: acabou o passe, e não poderia haver barreiras para jogadores de um país da União Europeia atuar em outro.

No mesmo período, outros concorrentes entraram com força no mercado. A Espanha vivia seu boom econômico pós-1992. Os clubes locais ficaram muito capitalizados, sobretudo depois de Barcelona e Real Madrid realizarem acordos para equacionarem suas dívidas. Na Inglaterra, a criação da Premier League e a elaboração de novos contratos de TV enriqueceu os clubes locais, que se abriram mais para a contratação de jogadores e técnicos estrangeiros.

A própria concorrência interna aumentou. Como jogadores da União Europeia tinham os mesmos direitos dos italianos, os clubes mais ricos não precisavam se limitar a cinco não-italianos (cota de estrangeiros da época, desde que só três deles estivessem em campo). Nada impedia uma equipe de contratar vários franceses, alemães, holandeses ou portugueses.

O mercado de jogadores inflacionou rapidamente. Os pequenos da Itália sentiram o impacto. Eles não tinham mais condições de contratar, como ocorreu entre 1985 e 95, grandes jogadores internacionais. Os que tentaram, fracassaram em campo e levaram enormes prejuízo fora. Os que não tentaram, foram perdendo força.

Nesse momento, times tradicionais que viveram grandes momentos na década de 1980 faliram ou viveram profundos problemas financeiros. Alguns simplesmente não tinham mais como sustentar o nível de investimento. Outros perderam seus mecenas ou seus mecenas fecharam a torneira após as investigações das operações financeiras no futebol. Com isso, equipes como Verona, Sampdoria, Napoli e Torino tiveram queda acentuada ou faliram.

Goleiro Taglialatela, do Napoli, é consolado por Cannavaro após a vitória do Parma por 3 a 1, que rebaixou o time napolitano em 1998 (Reprodução)

Goleiro Taglialatela, do Napoli, é consolado por Cannavaro (torcedor do Napoli na infância) após a vitória do Parma por 3 a 1, que rebaixou o time napolitano em 1998 (Reprodução)

O domínio era de Milan e Juventus, bancados por grandes empresários e capazes de atrair torcida e mídia para manter o poderio econômico. Entre 1997 e 2000, os milanistas tinham nomes como Weah, Maldini, Savicevic, Desailly, Baggio, Boban, Costacurta e Kluivert. A Juve rebatia com Zidane, Del Piero, Deschamps, Vieri, Inzaghi e Davids. Com potencial econômico parecido e craques como Ronaldo, Zanetti, Djorkaeff, Bergomi, Roberto Carlos, Zamorano e Seedorf, a Internazionale nunca conseguia encaixar uma grande temporada para sair da fila que completava dez anos.

Entre os times médios-grandes, os únicos que conseguiam brigar em alguns momentos eram Parma, Roma, Lazio e Fiorentina. Os parmesões não tinham fôlego financeiro para se equiparar aos grandes, mas tinham um bom olho para identificar talentos como Thuram, Crespo, Cannavaro, Buffon e Verón. O lado vermelho da capital tinha Totti, Aldair e Cafu, enquanto que o azul ia de Nedved, Signori, Nesta, Mancini, Mihajlovic e Marcelo Salas. A Fiorentina teve um grande período em 1998/99, com Batistuta, Edmundo, Rui Costa e Toldo.

Era um campeonato com equipes fortes e muitos craques, que ainda brigava por títulos nas competições continentais, mas não tinha mais a supremacia de alguns anos antes em relação aos demais países. Os demais times dependiam de encontrar alguns talentos baratos que lhes dessem competitividade, como a Udinese de 1997/98, que chegou ao terceiro lugar impulsionada pela dupla de ataque Bierhoff-Amoroso.

Obs.: O especial desta semana mostra o período de glória do futebol italiano e está falando da perda dessa hegemonia. Mas que fique claro que o processo não é ruim para os torcedores como um todo. A concentração de forças em uma liga pode ser empolgante para quem acompanha essa liga, mas a graça do futebol fica maior quanto mais clubes e países diferentes forem competitivos.

Mas havia mais problemas por vir. Erros conceituais fizeram os estádios da Copa de 1990 se tornarem antiquados rapidamente. Os projetos eram lindos por fora, mas desconfortáveis ao torcedor na parte de dentro. O público foi caindo lentamente a partir do pico de 33,8 mil em 1991/92 (naquela temporada, a média de Inglaterra e Alemanha era em torno de 21 mil).

Ainda que perdendo o brilho, a época de ouro do Campeonato Italiano durou até a virada do século. Parma (Uefa) e Lazio (Recopa) conquistaram títulos continentais em 1999. Os laziali ainda levaram um scudetto, o segundo de sua história, em 1999/2000. Na temporada seguinte, a Roma deu o bi para a capital, com seu terceiro título italiano.

Roma x Lazio em 2000, com os laziali defendendo o título e os giallorossi prestes a conquistar o seu. Roma era a capital do futebol italiano naquele momento

Mas já eram os últimos suspiros.  A Parmalat, dona e mantenedora do Parma, quebrou após investigação de operações ilegais de sua direção. A Lazio também sofreu problema parecido com a Cirio, grupo de Sergio Cragnotti. A Fiorentina quebrou com os negócios paralelos de Vittorio Cecchi Gori. A Itália entrava no período em que Milan, Juventus e Internazionale se tornavam as únicas equipes capazes de investimentos astronômicos.

Os italianos seguiram fortes internacionalmente devido a esses três clubes, mas a Serie A se transformou em uma liga decadente tecnicamente e defasada conceitualmente. Até dá sinais de recuperação na década de 2010, mas não terá mais aquele domínio em relação ao resto do mundo. Ninguém mais terá. O cenário internacional não permite mais que um país monopolize tanto os talentos e títulos do futebol.

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