Maradona cobra falta com perfeição em derrota do Napoli para o Milan em 1988

[Especial Itália 80/90] Milan lidera o bloco italiano que toma a Europa

Maradona ajeita a bola. Ele não tem como grande virtude o chute forte e, por isso, precisa caprichar no efeito e na colocação do arremate. Eram 45 minutos do primeiro tempo e aquela era a última chance de ir aos vestiários sem desvantagem no placar. Bem, o camisa 10 não ficou conhecido como “Dios” por seus compatriotas argentinos à toa. Em um toque venenosíssimo, encobriu a barreira e acertou o ângulo direito de Giovanni Galli. O Napoli conseguia um duro empate contra um Milan que parecia maior que o maior jogador do planeta.

Aquela partida colocava mais coisa na mesa que os dois pontos. O Napoli liderava o Campeonato Italiano 1987/88 desde as primeiras rodadas, mas sofria com a arrancada do Milan de Van Basten, Gullit, Baresi e Arrigo Sacchi. Ainda mais porque ninguém esquecia o jogo do primeiro turno, em que os milanistas enfiaram 4 a 1. Uma vitória rossonera no estádio San Paolo tiraria a liderança dos napolitanos a duas rodadas do final do campeonato.

O time azul vivia a febre maradoniana. O argentino chegara à Itália em 1984, mas o resto do time era fraco demais para ele fazer alguma coisa sozinho. O cenário foi mudando aos poucos, e o próprio Maradona cresceu. A parceria do craque com o time do Napoli e a cidade de Nápoles se tornou na grande notícia do futebol italiano desde que os problemas físicos acabaram com a carreira de Platini e a Juventus não conseguiu mais se manter no topo.

Os napolitanos conseguiram seu primeiro título nacional em 1986/87. Foi a primeira vez que o Sul conquistava a Itália (ou a segunda, se contarmos o Cagliari de 1970). E, com Careca, Carnevale, Giordano (o mesmo do Totonero de 1980) e Ferrara fazendo companhia a El Diez, dava para acreditar que o Napoli dominaria a Serie A ao menos até o final da década.

O problema é que apareceu o Milan, quase que do nada. A base italiana da equipe era muito boa, com Franco Baresi, Maldini, Giovanni e Filippo Galli, Donadoni, Massaro e Virdis. Mas era um time sem sal, até porque a dupla estrangeira (Hateley e Wilkins) não ajudava. Com a saída dos ingleses, os milanistas tinham a oportunidade de ganhar uma nova cara.

A oportunidade foi bem aproveitada. O técnico Arrigo Sacchi chegou com a ideia de criar um time ofensivo, que jogava de modo dinâmico, compacto, com muita troca de posições. E nada melhor para estabelecer essa cultura de jogo do que contratar holandeses. O empresário Silvio Berlusconi, dono do clube, colocou a mão no bolso e Milão via a chegada de Ruud Gullit e Marco van Basten. Não apenas Milão. O Brasil também, porque esta foi a temporada em que a Bandeirantes começou as transmissões do Campeonato Italiano aos domingos, algo que se manteve até 1993.

O começo de temporada foi um pouco atribulado. O novo Milan sofria para impor seu jogo em casa, ainda mais porque Van Basten estava lesionado. Dos cinco primeiros jogos no San Siro, venceu apenas os frágeis Avellino e Ascoli, empatou com o Torino e perdeu para Fiorentina e Roma (esta última por decisão da Justiça após confusão criada pela torcida). Até que veio a partida contra o Napoli, os 4 a 1 do primeiro turno. O Milan passou Roma e Sampdoria e assumiu a segunda posição.

Depois daquela goleada, os milanistas embalaram, Gullit recebeu a Bola de Ouro da France Football (Maradona não concorria porque o prêmio era apenas para jogadores europeus) e o campeonato passou a viver a expectativa de uma corrida em que o líder vai perdendo o fôlego e talvez não segure o segundo colocado. A oportunidade rossonera de assumir a ponta apareceu na antepenúltima rodada, no reencontro contra os napolitanos no San Paolo.

O jogo foi simbólico. Na Itália, foi chamado de “final do mundial”, tamanha era a importância que aquele encontro recebeu. Uma semana antes do jogo, Maradona deu entrevista dizendo que não queria ver uma bandeira milanista nas arquibancadas (“quero uma final mundial toda azul”). Ele sabe que estava em suas costas a responsabilidade de segurar o Milan.

Virdis abriu o marcador, mas Maradona empatou em cobrança de falta, no último lance do primeiro tempo. O argentino manteve o Napoli vivo, mas não por tanto tempo. A superioridade coletiva rossonera ficou nítida após o intervalo. Virdis e Van Basten deixaram o placar em 3 a 1 e nem o gol de cabeça de Careca deu forças aos napolitanos para uma reação no final.

A partir daquele jogo, o Milan de Arrigo Sacchi passou a ditar o ritmo do futebol italiano. E os outros times muitas vezes conseguiam acompanhar. A Itália estava nos preparativos finais para organizar a Copa de 1990, os estádios começavam a ficar prontos e a média de público explodia. Não faltava dinheiro para evitar o domínio completo e irrestrito do time rubro-negro.

A Internazionale, com a dupla alemã-ocidental Matthäus e Brehme, o argentino Ramón Díaz e jogadores italianos de destaque como Zenga, Bergomi, Ferri, Serena e Berti, fez uma campanha brilhante na temporada 1988/89. Aproveitou-se de uma má fase do Milan, que ficou virtualmente fora do campeonato ao marcar apenas quatro pontos entre a 6ª e a 12ª rodadas, para abocanhar o título (o último nerazzurro no século 20).

O Napoli com Maradona, Careca, Alemão, Ferrara e um jovem Zola conseguiu seu segundo scudetto em 1989/90. Em 1990/91, foi a vez da Sampdoria conquistar a Itália. Depois de anos de boas campanhas, a equipe de Cerezo, Vialli, Mancini, Pagliuca, Lombardo e Mikhaijlichenko finalmente devolveu o título para Gênova. Nesta mesma temporada, Maradona foi pego no exame antidoping após uma partida contra o Bari. A partida marcou a despedida do craque dos gramados italianos e ainda o fim do grande Napoli.

O nível técnico como um todo era alto. Quase todos os grandes jogadores do mundo estavam na Itália. Como as vagas para estrangeiros eram limitadas, muitos acabavam em times pequenos, alguns até na segunda divisão. Era o caso de dois jogadores da seleção brasileira, Müller (Torino) e João Paulo (Bari), e do atacante Dezotti (Cremonese), titular da Argentina na abertura do Mundial da Itália.

Há vários modos de medir o nível de atração do futebol italiano naquela época. Da seleção alemã-ocidental campeã mundial em 1990, cinco titulares atuavam na Serie A: Matthäus, Klinsmann e Brehme (Internazionale), Völler e Berthold (Roma). Dos seis restantes, três foram para a Itália logo após a Copa: Kohler e Reuter (Juventus) e Hässler (Roma). Os reservas Möller (Juventus) e Riedle (Lazio) também seguiram os passos.

Klinsmann faz um gol de voleio pela Inter

Klinsmann faz um gol de voleio pela Inter

A Argentina vice-campeã mundial tinha sete jogadores na Itália: Maradona (Napoli), Caniggia (Atalanta), Balbo e Sensini (Udinese), Troglio (Lazio), Dezotti (Cremonese) e Lorenzo (Bari). A Azzurra terceira colocada na Copa só tinha jogadores em seu país, claro. A Inglaterra, quarta colocada, não tinha nenhum “italiano”. Não tinha no Mundial, pois Gascoigne (Lazio) e Platt (Bari), as duas revelações da equipe, foram para o Mediterrâneo.

E assim seguiu. Alguns dos principais jogadores das principais seleções do mundo tinham haviam estado, estavam ou estariam em breve na Serie A. O Brasil era o exemplo mais claro. Dez dos 22 convocados de Sebastião Lazaroni para a Copa de 1990 tiveram passagem pela Itália: Taffarel (Parma e Reggiana), Dunga (Pisa e Fiorentina), Alemão e Careca (Napoli), Müller (Torino), Silas (Cesena), Aldair e Renato Gaúcho (Roma), Mazinho (Lecce) e Branco (Brescia e Genoa).

A revista inglesa World Soccer criou, em 1982, o prêmio de melhor jogador do mundo, eleitos pelos leitores, na maioria ingleses. Nas 14 primeiras edições, apenas em uma (Papin, do Olympique de Marseille em 1991) o vencedor não atuava na Itália. Ainda assim, foi atuar no ano seguinte ao prêmio. Mas vamos mais fundo. Dos 14 segundos colocados, nove eram da Serie A. Dos 14 terceiros, oito estavam no Campeonato Italiano. Nesse mesmo período (1982-95), clubes italianos tiveram 11 das 14 Bolas de Ouro da France Football, sete dos segundos lugares e seis dos terceiros.

Essa capacidade de atrair craques teve resultado nas competições internacionais. O Milan perdeu para Inter, Napoli e Sampdoria os títulos nacionais entre 1989 e 1991, mas aproveitou esse tempo para dominar o mundo. O supertime de Arrigo Sacchi foi bicampeão europeu e bi mundial em 1989 e 90. No caminho, meteu 5 a 0 no Real Madrid de Hugo Sánchez, Butragueño e Schuster que estava no meio de sua série de cinco títulos espanhóis seguidos. Um dos melhores times que o Real já teve, de acordo com seus próprios torcedores.

Não havia adversários aos rossoneri. Em 1988 e 89, o time teve os três primeiros colocados na Bola de Ouro da France Football entre Gullit, Van Basten, Baresi e Rijkaard, contratado em 1988. A equipe era tão espetacular, tão vencedora e jogava um futebol tão dinâmico e fluido que, em 2013, foi eleita pela inglesa FourFourTwo como o segundo melhor time de clube da história. Apenas o Ajax de Cruyff ficou à frente.

Sacchi trocou o Milan pela seleção italiana em 1991, logo após o clube perder a hegemonia europeia de forma constrangedora. Após empatar em casa com o Olympique de Marseille, os milanistas perdiam por 1 a 0 na França. A luz do estádio Vélodrome caiu, mas o time italiano se negou a voltar a campo assim que a iluminação foi restabelecida. A Uefa puniu os rossoneri por um ano em competições europeias.

A saída de Sacchi abriu o caminho para Fabio Capello. O ex-meia do próprio Milan refaz a equipe. A base do jogo era muito menos bonita, e muito mais pragmática. Uma equipe sólida, confiável, constante, praticamente imbatível. Os milanistas foram campeões italianos invictos em 1991/92. Acabaram caindo na temporada seguinte, mas ficaram 58 rodadas sem perder. A série foi quebrada no San Siro, uma derrota por 1 a 0 contra o Parma, gol de falta do colombiano Asprilla.

Com Capello, o Milan teve seu segundo grandes esquadrão dessa época de ouro do futebol italiano. Foram quatro títulos nacionais em cinco anos. Além disso, a equipe chegou a três finais da Liga dos Campeões no período. Perdeu duas, para Olympique de Marseille em 1993 e para o Ajax em 1995. Mas a única vitória foi mais que simbólica.

Na temporada 1993/94, o Barcelona de Johann Cruyff parecia a única equipe europeia – até porque o São Paulo de Telê havia vencido o Milan no Mundial – capaz de encarar os milanistas. Os catalães haviam sido campeões europeus em 1992, mas o Milan era tido como o melhor do continente no ano seguinte (apesar da derrota para o Olympique na decisão). Era o tira-teima entre o time ofensivo e artístico de Romário, Stoichkov, Koeman, Zubizarreta e Guardiola contra o defensivismo italiano, que já não tinha o trio holandês para recorrer.

Como muitos dos confrontos em que se rotula um lado de 100% arte e o outro de 100% pragmatismo, os estereótipos falharam. Desailly, Boban, Massaro e Savicevic  tiveram atuações fabulosas, e o Milan venceu por incontestáveis 4 a 0. A equipe de Capello conquistava a Liga dos Campeões com apenas dois gols sofridos.

Mas a Serie A estava tão forte que todo mundo conseguia algo nas competições da Uefa. Entre 1989 e 98, a Itália só ficou de fora da final da Copa/Liga dos Campeões uma vez (1991, Estrela Vermelha x Olympique de Marseille). Entre 1989 e 94, quatro das seis decisões da Recopa tinham um clube italiano. Na Copa da Uefa, onde os times médios de cada país se enfrentam, o domínio era maior: dez as 11 finais entre 1989 e 99 tiveram presença italiana, sendo que em 1990, 1991, 1995 e 1998 a final reuniu dois times do país.

Não dá para dizer que era um campeonato de dois ou três times fortes. Nesse período, Milan, Juventus, Internazionale, Roma, Sampdoria, Parma, Lazio, Napoli, Fiorentina e Torino chegaram a decisões continentais. Dez times, mais da metade do campeonato (a Serie A tinha 18 clubes na época). E tudo isso considerando que, até metade da década de 1990, a Liga dos Campeões tinha apenas um ou dois representantes de cada país, dificultando muito mais a manutenção de um retrospecto desse.

Nas sete temporadas entre 1988/89 e 1994/95, o Campeonato Italiano foi a liga que marcou mais pontos no coeficiente da Uefa em seis. Apenas em 1990/91 que ficou em segundo lugar. Ainda assim, por pouco. A Inglaterra se beneficiou do fato de ter apenas dois participantes (o Liverpool estava suspenso de competições internacionais e não representou o país na Copa dos Campeões) e um deles (Manchester United na Recopa) ter ficado com o título. Desse modo, a média de pontos dos ingleses foi para o alto. Ainda assim, bateu a Itália por alguns décimos: 12,5 x 12,125.

Para se ter uma ideia de como é difícil ser a liga com melhor coeficiente na Uefa por tantos anos, a Inglaterra nunca conseguiu dois anos seguidos como maior pontuadora neste século, mesmo sendo a liga mais competitiva da Europa nesse período.

No meio de tantas notícias boas, surgiam alguns sinais perigosos. Em 1991, o resultado positivo no exame antidoping de Maradona fez o mundo saber de algo que já corria pelas vielas napolitanas: o craque argentino estava dominado pelo vício, e o crime organizado não estava alheio ao sucesso do futebol italiano. Outras notícias suspeitas foram aparecendo, como a contratação do atacante Gianluigi Lentini, revelação do Torino, por US$ 26 milhões, um valor altíssimo mesmo para o Milan.

A bolha econômica do futebol italiano começou a estourar. Foi um processo gradual, que somou a quebra de alguns donos de clubes, sobretudo os pequenos e médios, com a descoberta de corrupção e lavagem de dinheiro na operação de outros. Esse princípio de crise se uniu ao boom econômico da Espanha e aos primeiros efeitos econômicos da criação da Premier League na Inglaterra para minar o domínio italiano na Europa a partir da metade da década de 1990. Mas isso é história para esta quinta.

Sinal da força da Itália: a Folha de São Paulo, nas segundas, informava os resultados da Serie B no fim de semana

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