Zico e Falcão se encontram antes de um Udinese x Roma pelo Campeonato Italiano de 1983/84

[Especial Itália 80/90] Um verdureiro, um escândalo, uma crise, e a Itália começa a dominar o mundo

Massimo Cruciani era um produtor de frutas e verduras em Roma. Sua ligação com o futebol era nula, exceto pelo fato de ser um torcedor como milhões de italianos. Natural que o esporte virasse assunto de suas conversas. Foi assim que ficou amigo de um de seus clientes, Alvaro Trinca, dono do restaurante La Lampara. O local era frequentado por jogadores da Lazio, que se juntaram ao bate papo. E, de repente, algumas informações supostamente confidenciais começaram a circular.

Os atletas convenceram Trinca e Cruciani a apostarem em uma loteria esportiva clandestina. Os dois recebiam dos laziali algumas dicas de que resultados ocorreriam, mas nem sempre os jogadores davam a indicação correta. O fornecedor de hortifruti e o dono do restaurante começaram a perder dinheiro, até que uma hora ficaram de saco cheio. Resolveram explodir tudo. Em 1º de março de 1980, Cruciani entrou com um processo na Procuradoria da República, denunciando a existência de um esquema de manipulação de resultados para alimentar uma loteria ilegal.

As investigações foram rápidas. Em 23 de março, 12 jogadores foram presos ainda no campo e outros cinco receberam ordem para depor assim que suas partidas pela rodada do Campeonato Italiano terminaram. Entre os envolvidos estavam jogadores com passagem pela Azzurra como Paolo Rossi (Perugia), Bruno Giordano (Lazio) e Enrico Albertosi (Milan e goleiro da Itália na final da Copa de 1970).

No final, a Comissão Disciplinar da liga distribuiu punições pesadas. Milan e Lazio foram rebaixados para a Serie B, Avellino, Bologna e Perugia começaram a temporada 1980/81 com cinco pontos a menos e 22 jogadores receberam suspensões de três meses a banimento do esporte (caso de Albertosi). Rossi, uma das grandes figuras da seleção italiana para a Eurocopa de 1980 e a Copa de 1982, pegou três anos de gancho.

Bruno Giordano e Paolo Rossi na capa da Guerin Sportivo

Bruno Giordano e Paolo Rossi na capa da Guerin Sportivo

O clima ficou péssimo. O público não acreditava mais no futebol como um todo e isso afetou a campanha da Azzurra na Eurocopa, organizada justamente na Itália. A seleção da casa venceu apenas um jogo e ficou em segundo lugar no Grupo B, atrás da Bélgica. Naquele ano, só o campeão de cada grupo seguia no torneio e os italianos foram para a disputa de terceiro lugar com a Tchecoslováquia. Perderam por 9 a 8 nos pênaltis, depois de 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação.

A esse cenário se somava a péssima situação dos clubes locais nas copas europeias. A Serie A era a décima colocada no ranking de ligas da Uefa (atrás até da Alemanha Oriental), e tinha apenas duas vagas na Copa da Uefa. Era preciso tomar medidas rápidas para recuperar a credibilidade da Serie A. Por pressão de clubes, imprensa e torcedores, a Federação Italiana decidiu reabrir as fronteiras futebolísticas. Para a temporada 1980/81, cada clube poderia ter um estrangeiro. Em 1982/83, poderiam ter dois.

Quem tinha dinheiro foi buscar jogador consagrado. A Juventus contratou o irlandês Liam Brady estrela do Arsenal. A Internazionale comprou Herbert Prohaska, destaque da seleção austríaca. A Roma reforçou-se com Falcão, fundamental para tornar o clube da capital no grande opositor da Juve na primeira metade dos anos 80. O Napoli foi atrás de Ruud Krol, veterano da Holanda vice-campeã mundial em 1974 e 78. A Fiorentina investiu em Daniel Bertoni, campeão do mundo com a Argentina em 1978.

Os clubes médios e pequenos tentaram jogadores financeiramente mais acessíveis. Três apostaram em brasileiros: Avellino (Juary, ex-Santos, um dos Meninos da Vila de 1978), Bologna (Eneas, ídolo da Portuguesa) e Pistoiese (Luís Silvio, destaque do Marília campeão da Copa São Paulo de 1979 que teve rápidas passagens por Palmeiras e Ponte Preta antes de ir à Itália).

Ações de marketing

Em 1979, o futebol italiano tentou mudar sua cara para se modernizar. Não o fez em campo, mas fora. Vários clubes lançaram novos distintivos, tentando passar uma imagem renovada. Esses escudos por si só mudaram pouco, mas se tornaram indiretamente símbolos da época de ouro do Campeonato Italiano. Mas os torcedores não gostaram da novidade, e os times voltaram aos distintivos originais no final dos anos 80 e começo dos 90.

Escudos versão anos 80 de Juventus, Roma, Milan, Fiorentina, Internazionale, Verona, Lazio e Torino

Escudos versão anos 80 de Juventus, Roma, Milan, Fiorentina, Internazionale, Verona, Lazio e Torino

O primeiro campeonato foi fundamental para mostrar que havia futuro para o Campeonato Italiano. Foi um torneio empolgante, e que ainda apresentou ao torcedor a possibilidade de times de fora do Norte lutarem pelo título. Até a antepenúltima rodada, Juventus, Roma e Napoli estavam separados por apenas dois pontos. Na penúltima rodada, os bianconeri venceram os napolitanos no San Paolo e tiraram os sulistas da disputa. Mas a briga com os romanos só se resolveu na última rodada, quando o time de Turim venceu a Fiorentina e manteve a ponta.

A empolgação dos italianos com o futebol voltou. As autoridades perdoaram parte das punições do escândalo de 1980. Além de ver algumas estrelas de volta a campo, o público teve uma nova temporada interessante, e também teve um protagonista que fugia do dualismo Milão-Turim. A Fiorentina de Antognoni, Giovanni Galli, Graziani, Vierchowod e Massaro encarou a Juventus de Zoff, Gentile, Scirea, Cabrini, Tardelli e Rossi. Os dois times chegaram à última rodada empatados, e a Juve só assegurou o título porque os florentinos empataram com o Cagliari. A temporada ainda terminou com um novo rebaixamento do Milan, campeão da Serie B que não se estruturou e caiu em campo.

Do mesmo jeito que o modo passional dos italianos agirem atrapalhou nas decisões erradas de fechar o mercado a estrangeiros, ele ajudou ao fazer que a empolgação rapidamente mudasse o rumo que o campeonato nacional tomava. O embalo só aumentou em julho de 1982, quando a Itália foi campeã mundial com uma equipe que tinha a Juventus como base.

Logo após a Copa do Mundo, houve a abertura da segunda vaga de estrangeiro para cada equipe. Uma nova leva de jogadores chegou, com destaques para os argentinos Daniel Passarella (Fiorentina) e Ramón Díaz (Napoli), o francês Michel Platini (Juventus), os poloneses Zbigniew Boniek (Juventus) e Wladislaw Zmuda (Verona), os brasileiros Dirceu (Verona) e Edinho (Udinese, que no ano seguinte ainda tiraria Zico do Flamengo), o alemão-ocidental Hansi Müller (Internazionale) e o inglês Trevor Francis (Sampdoria).

Um dos grandes duelos entre Juventus e Roma, um 2 a 2 no primeiro turno da temporada 1983/84. Atenção para o gol de Pruzzo que empatou a partida nos acréscimos

A relevância internacional voltou rapidamente. Em 1982/83, a Juventus foi até a decisão da Copa dos Campeões, vencida pelo Hamburg. Na temporada seguinte, a Roma chegou até a final, disputada no estádio Olímpico, e caiu nos pênaltis para o Liverpool em um desempenho marcante do goleiro Bruce Grobbelaar.

Estava tudo pronto para o Campeonato Italiano se recolocar como a grande liga nacional da Europa. Em maio, o Comitê Executivo da Fifa elegeu a Itália como sede da Copa de 1990, vencendo a União Soviética por 11 a 5. Isso incentivou ainda mais os clubes a se reforçarem, pois a empolgação do público já era grande e haveria investimentos na modernização ou construção de estádios.

O mercado ficou ainda mais agitado. Os clubes pequenos e médios também entraram na jogada. O Napoli, clube de gastos medianos e nenhum scudetto, surpreendeu ao contratar Maradona, astro do Barcelona. Quase todos os grandes jogadores do mundo estavam na Serie A, e ainda surgiam jogadores italianos muito promissores para suceder a geração campeã de 82. Platini? Estava na Itália. Rummenigge? Estava na Itália. Maradona, Boniek, Passarella? Também. E a base da espetacular seleção brasileira de 1982? Sim, seis jogadores no Italianão.

Olha só as estrelas que estavam em gramados italianos na temporada 1984/85:

Ascoli: Dirceu (Brasil);
Atalanta: Strömberg (Suécia) e Donadoni (Itália);
Avellino: Ramón Díaz (Argentina);
Como: Hansi Müller (Alemanha Ocidental);
Cremonese: Zmuda (Polônia);
Fiorentina: Sócrates (Brasil), Passarella (Argentina), Galli, Gentile e Massaro (Itália);
Internazionale: Rummenigge (Alemanha Ocidental), Brady (Irlanda), Giuseppe Baresi, Altobelli, Bergomi, Collovatti e Zenga (Itália);
Juventus: Platini (França), Boniek (Polônia), Scirea, Cabrini, Rossi e Tardelli (Itália);
Lazio: Michael Laudrup (Dinamarca) e Giordano (Itália);
Milan: Hataley e Wilkins (Inglaterra), Virdis, Filippo Galli, Franco Baresi, Maldini e Tassotti (Itália);
Napoli: Maradona (Argentina);
Roma: Falcão e Cerezo (Brasil), Ancelotti, Graziani, Giannini e Bruno Conti (Itália);
Sampdoria: Souness (Escócia), Francis (Inglaterra), Mancini, Vialli e Vierchowod (Itália);
Torino: Júnior (Brasil), Schachner (Áustria) e Serena (Itália);
Udinese: Zico e Edinho (Brasil) e Carnevale (Itália);
Verona: Briegel (Alemanha Ocidental), Elkjaer (Dinamarca), Fanna e Galderisi (Itália).

A empolgação com esse Supercampeonato Italiano era tão grande que chegou ao Brasil. Com mais da metade da Seleção em campo, a Globo decidiu transmitir o torneio nas manhãs de domingo. Veja a chamada abaixo:

A emissora não deu sorte: Zico e Falcão voltaram ao Brasil no meio da temporada, Sócrates foi mal e a disputa do título não foi tão emocionante. Em um torneio em que os melhores jogadores do mundo se espalhavam pelos clubes, ganhou um que não chamava tanto a atenção. O Verona perdeu apenas dois jogos, liderou da primeira à última rodada, em uma campanha tão surpreendente que ficou conhecida como “Il Verona del Miracolo”.

Apesar da surpresa no Campeonato Italiano, o domínio europeu começava a voltar. A Juventus conquistou a Recopa em 1983/84 e a Copa dos Campeões em 1984/85. No ranking de campeonatos da Uefa, a Itália pulou de 12º lugar em 1982 (atrás até da Suíça) para 2º em 1985 (superada apenas pela Inglaterra). Uma situação que não demoraria a mudar.

A decisão da Copa dos Campeões de 1985 ficou marcada pela morte de 39 torcedores da Juventus em uma confusão causada pelos seguidores do Liverpool. A Inglaterra foi suspensa de competições continentais, o que iniciou uma decadência dos clubes britânicos e abriu ainda mais espaço para a Itália se tornar hegemônica na Europa.

No capítulo desta quarta, o auge do Campeonato Italiano.

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