Era outubro de 1988. Romário voltava dos Jogos Olímpicos de Seul ainda mais elogiado do que já era no Brasil: fora, de longe, o grande destaque da equipe brasileira que ficara com a medalha de prata, como artilheiro do torneio de futebol, com sete gols. Claro, a cobiça de clubes europeus ficou ainda maior. E o Vasco já estava em negociações avançadas com o Benfica. Até que o empresário de Romário à época, André Cardoso, recebeu uma ligação.

Do outro lado, falava um alto funcionário carioca da Philips, multinacional holandesa de eletroeletrônicos, alertando: “Dois holandeses estão aqui. Eles querem levar Romário”. Os holandeses eram Kees Ploegsma e Guus Hiddink, respectivamente diretor geral e técnico do PSV à época. Interessados em garantir um atacante para ser parceiro do belga Marc Degryse, outro objeto de desejo, Ploegsma e Hiddink voaram para o Rio de Janeiro.

Dois dias de negociações frenéticas depois, em 6 de outubro de 1988, Romário era confirmado como o primeiro jogador brasileiro a ir atuar no futebol holandês, por US$ 6 milhões. E também iniciava uma histórica ligação entre o país e o clube da Philips. E Eindhoven lembra com alegria dos bons resultados que essa ligação rendeu, neste sábado em que completa 100 anos.

Romário: o grande cupido

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Coordenando um grupo de pessoas numa visita ao museu do PSV, dentro do Philips Stadion, em Eindhoven, em julho de 2011, um guia é informado de que há um brasileiro ali dentro. Aponta uma foto de Romário, então. E suspira: “Ele não gostava muito de treinar. Mas com o que jogava, nem precisava treinar, mesmo”. E é inegável que Romário deixou muitas saudades em Eindhoven.

Já nos primeiros meses de Holanda, o carioca da Vila da Penha mostrou serviço pelo então campeão europeu: no Mundial Interclubes de 1988, disputado contra o Nacional-URU, marcou o gol de empate no tempo normal. O PSV perdeu o título mundial para o Bolso, nos pênaltis, após grande atuação do goleiro Jorge Seré, mas Romário já ia justificando cada centavo gasto naquela iniciativa de Ploegsma e Hiddink.

E num time que tinha muitas estrelas, remanescentes da Tríplice Coroa de 1987/88 (Van Breukelen, Ronald Koeman, Eric Gerets, Gerald Vanenburg), Romário tornou-se a maior de todas elas. Prova disso foi o feito atingido em 1988/89: com o PSV ganhando o tetracampeonato holandês pela primeira vez em sua história, Romário sagrou-se artilheiro da Eredivisie, com 19 gols. E ainda foi artilheiro também na Copa dos Campeões, com 6 gols, assim como Jean-Pierre Papin, do Olympique de Marseille.

Aliando as boas performances com a camisa vermelha ao bom 1989 que fez na Seleção Brasileira, Romário tinha tudo para seguir bem em 1990. Mas aí surgiu um ponto baixo para atrapalhá-lo. Mais precisamente, no dia 4 de março: contra o Den Haag, quando já marcara duas vezes no jogo que terminaria em 9 a 2, Romário sofreu uma fratura no perônio. A despeito disso, novamente terminou como o grande goleador do Campeonato Holandês, com 23 gols. Mas a lesão e a recuperação turbulenta fizeram com que Romário chegasse à Copa de 1990 fora de forma, atuando somente em uma partida da Seleção.

Mas o retorno ao PSV (agora com Bobby Robson no comando) apagou qualquer desconfiança. Na temporada 1990/91, novamente os Eindhovenaren conquistaram o Campeonato Holandês. E Romário encerrou o torneio no topo da tabela de goleadores pela terceira vez consecutiva, com 25 gols, empatado com Dennis Bergkamp, então no Ajax. Finalmente, na temporada 1992/93, Romário encerrou sua passagem pelo PSV sendo artilheiro da Liga dos Campeões, com direito ao belíssimo gol contra o Milan, na fase semifinal do torneio.

Depois, o atacante foi atuar no Barcelona, vivendo em 1993 e 1994 os grandes anos de sua carreira, culminando no protagonismo dentro da Copa do Mundo de 1994. E saiu de Eindhoven como o “cupido” do caso de amor entre Brasil e PSV, sendo lembrado por lances como os do vídeo abaixo, exibido no canal oficial do clube no YouTube – sem contar matérias de tevê, como esta de 1991, que a Trivela lembrou em julho, e documentários especiais, como o recente “Samba in Eindhoven”, feito pela emissora NOS em junho deste ano.

Ronaldo: pouco tempo, muito sucesso (e alguns companheiros)

Ronaldo

Um ano depois de Romário sair do PSV, outra promessa brasileira desembarcou em Eindhoven. Convocado para a Copa de 1994 e visto como a grande esperança do país para o ataque, Ronaldo estava próximo do… Ajax. Mas Piet de Visser e Frank Arnesen, que trabalhavam como olheiros do PSV, agiram mais rápido do que o rival: antes mesmo do Mundial, os Eindhovenaren ofereceram ao Cruzeiro US$ 5 milhões, mais US$ 1 milhão como bônus em caso de convocação. Carlos Alberto Parreira “colaborou”, levando-o à Copa. E o Cruzeiro aceitou a oferta: já em agosto de 1994, Ronaldo chegou ao PSV.

E exatamente no primeiro jogo oficial com a camisa listrada em vermelho e branco, contra o Vitesse, pela primeira rodada do Campeonato Holandês 1994/95, Ronaldo se destacou: com nove minutos em campo, marcou o primeiro de seus 67 gols pelo PSV. Na segunda rodada, 4 a 1 contra o Go Ahead Eagles, e mais dois gols de Ronaldo. No terceiro jogo pelo novo clube, um compromisso contra o Bayer Leverkusen, pela Copa Uefa. Derrota fora de casa, por 5 a 4 – com três gols de Ronaldo. O tempo passou, e Ronaldo mostrou seu valor logo na primeira temporada de PSV: mesmo sem o título nacional, conseguiu vencer a disputa ferrenha com Kluivert pela artilharia, com 30 gols em 33 jogos.

Todavia, em 1995/96, ele enfrentou dificuldades na segunda metade da temporada: em fevereiro de 1996, com os joelhos sobrecarregados pela maior massa muscular, Ronaldo passou pela primeira operação neles, que já sofriam de tendinites, além da falta de calcificação no joelho direito. No retorno aos campos, em abril, ele foi colocado na reserva por Dick Advocaat, entrando no decorrer dos jogos.

Ao final da temporada, Ronaldo fez seu último jogo oficial pelo clube na final da Copa da Holanda, conquistando o título (5 a 2 sobre o Sparta Rotterdam). Mais um amistoso contra o Real Madrid, e Ronaldo foi-se para os Jogos Olímpicos de Atlanta – e de lá para o Barcelona, após 54 gols em 57 jogos, deixando novamente a saudade no PSV e sendo mais um na lista dos melhores jogadores da história do clube, como mostra este vídeo.

Paralelamente ao testemunho da nova explosão de um atacante brasileiro, o PSV apostou em mais gente vinda daquele país. Como Vampeta, contratado em 1994, que contou sobre sua passagem pelo clube no livro “Memórias do Velho Vamp”, do jornalista Celso Unzelte: “[Havia] um padre lá pra me dar aula de holandês. Ele falava português porque viveu 20 anos em Belém do Pará. Botaram ele pra dar aula pra mim, pro Ronaldo, pro Marcelo Ramos, que chegou depois. Ele deu aula de holandês pros brasileiros todos que passaram por lá. Ainda é vivo, eu acho, o nome dele é Koos Bout. Era chamado de Tiago aqui, Padre Tiago, mas na Holanda era Koos Bout. Ele fez o batizado dos filhos do Romário lá e tudo”.

O citado Marcelo Ramos veio para Eindhoven em 1996, mas passou apenas um ano, voltando ao Cruzeiro rapidamente. E Vampeta sofreu um pouco com a falta de oportunidades, como contou em “Memórias do Velho Vamp: “(…) Pelo regulamento da época, só podiam jogar dois estrangeiros. Eu até podia ficar no banco, mas só podia entrar se fosse no lugar de um dos dois. E eu, de cabeça de área, não ia ficar nunca no lugar do Luc Nilis, que é um dos maiores jogadores da história da Bélgica”.

Após empréstimos a Fluminense e VVV-Venlo, ambos em 1995, Vampeta até obteve oportunidades, na temporada 1996/97. Graças a elas, chamou a atenção do técnico Vanderlei Luxemburgo, que quis trazê-lo para o Santos, e após deixar o clube da Vila Belmiro, para o Corinthians, onde enfim encontrou o que pensava ser o novo lateral direito de seu time.

Mas fora apenas uma experiência, conforme Vampeta disse nas suas memórias: “No Campeonato Holandês, o Vanderlei me viu jogar de lateral direito. (…) Fui até escolhido como o melhor da posição naquele campeonato, só que eu nunca fui lateral. Sempre fui cabeça de área, primeiro homem, segundo homem de meio-campo. É que lá, quando todos os jogadores europeus passaram a ser ‘comunitários’, só fiquei eu de estrangeiro, e aquele era o único lugar no time”.

Vampeta, então, foi para o Corinthians, voltou à sua posição original, e o PSV viu encerrada mais uma fase em que os brasileiros deixaram lembranças ótimas.

Gomes e Alex: brasileiros bons na defesa

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Em 2004, outra dessas fases começou. Mas ao invés de bons atacantes, as promessas viriam para a defesa. No miolo de zaga, chegou Alex, elogiadíssimo no Santos e comprado pelo Chelsea, que o emprestou ao PSV. No gol, diretamente do Cruzeiro, veio Gomes. A tarefa do goleiro era pesada: substituir Ronald Waterreus, titular no gol dos Eindhovenaren por uma década.

E Gomes notou o peso do desafio, conforme contou à Trivela: “O início foi bem complicado. Primeiro, ninguém acreditava que o Brasil pudesse ter bons goleiros. E a desconfiança foi grande pela escola de goleiros que a Holanda tem. Foram três meses bem difíceis, para a adaptação à língua, ao futebol e ao pais. Para superar essas dificuldades, contei com a ajuda do Guus Hiddink, que foi meu paizão, esteve comigo sempre”.

Novamente, Guus estava lá confiando em brasileiros, como fizera com Romário em 1988. E eles começaram a justificar a confiança em 2004/05. Principalmente Gomes: não bastasse ser titular absoluto na conquista do Campeonato Holandês, abrindo sequência para outro tetracampeonato, e na ótima campanha que levou o time às semifinais da Liga dos Campeões, ainda bateu o recorde de invencibilidade da Eredivisie: junto de Edwin Zoetebier, passou 1159 minutos sem sofrer gols, ainda em 2004.

Personagem de destaque em alguns jogos (foi peça-chave nas quartas de final da Liga dos Campeões 2004/05, contra o Lyon, defendendo duas cobranças na decisão por pênaltis), Gomes opinou sobre o sucesso daquele time: “Acredito que o Guus soube montar um bom elenco. Além das qualidades dos jogadores, ele mesclou juventude com experiência ao trazer grandes jogadores e também garotos. E isso deu muito certo. A relação entre todos do clube era muito boa. Essa união, como se fosse uma família, foi muito importante para as conquistas dos títulos”.

Em 2007, Alex foi o primeiro a sair, sendo finalmente integrado ao Chelsea. E um ano depois, foi a vez de Gomes dar adeus ao PSV, indo para o Tottenham. Mas as memórias foram ótimas, como ele comprovou na partida de despedida do ex-colega de clube Mark van Bommel, em julho passado, ao ser saudado pela torcida. E o goleiro mineiro reconhece a importância do clube em sua carreira: “A torcida demonstra esse carinho, e é muito emocionante. Em 2007, fizeram uma homenagem no estádio, quando, nas arquibancadas, os torcedores fizeram um painel em formato de luvas, meu nome escrito e a frase ‘Grande Goleiro’. Acho que nenhum outro goleiro recebeu uma homenagem dessas. Foi maravilhoso. Até hoje recebo mensagens de torcedores pedindo para eu voltar”.

Desde então, o elo entre o Brasil e o PSV se enfraqueceu um pouco. Já durante a fase do protagonismo de Alex e Gomes, houve passagens de gente até conhecida, mas que pouco ou nada atuou em Eindhoven (Cássio, Diego Tardelli). Depois, Jonathan Reis e Marcelo ainda tiveram alguma colaboração, mas nada que impressionasse a torcida. E Eindhoven, comemorando os 100 anos do PSV, espera para novamente viver uma grande história de amor com o Brasil por meio do futebol.

A lista dos brasileiros do PSV

Romário (atacante, 1988-1993)
Ronaldo (atacante, 1994-1996)
Vampeta (meio-campista, 1994-1998)
Marcelo Ramos (atacante, 1996-1997)
Cláudio (atacante, 1996-2002)
Manoel (atacante, 1998-1999)
Jorginho Paulista (lateral esquerdo, 1998-1999)
Marcos (zagueiro, 1999-2000)
Marquinho (meio-campista, 2000-2005)
Cleberson (zagueiro, 2000-2002)
Edno (meio-campista, 2002-2003)
Leandro Bomfim (meio-campista, 2003-2005)
Gomes (goleiro, 2004-2008)
Alex (zagueiro, 2004-2007)
Robert (atacante, 2004-2005)
Alcides (zagueiro, 2007-2008)
Fagner (lateral direito, 2007-2008)
Diego Tardelli (atacante, 2007)
Cássio (goleiro, 2007-2011)
Jonathan Reis (atacante, 2007-2011)
Marcelo (zagueiro, 2010-2013)
Gerson (volante, 2010-2013)


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