Por Petrick Moreno

Dias atrás, membros de algumas torcidas organizadas foram manifestar nas cede das instalações da Federação Mexicana de Futebol (FMF). Eles queriam uma reunião, um diálogo com os responsáveis pelo futebol no México, mas foram impedidos de entrar e conseguiram apenas entregar um documento – assista ao vídeo aqui.

Em entrevista ao canal de TV TVC, José Luis Medina (líder de uma das barras do Chivas) disse que: “Queremos um diálogo, nós também estamos em desacordo com essa violência, mas também não concordamos em sacar essa gente do estádio. Nossa intenção é simplesmente ir para apoiar nossas equipes, estar nos momentos bons, mas sobretudo nos maus e nos piores”. Medina, em alguns trechos, afirma que “queremos aprender a ser hinchas melhores”. Exatamente assim.

>>> A parte 1 do especial sobre violência no futebol mexicano
>>> A parte 2 do especial

Giovani Cano (líder de uma das barras do Pumas) também emitiu sua opinião de forma veemente: “Se for castigar os integrantes por alguma briga, também é preciso fazer o mesmo com os servidores públicos, como funcionários dos estádios ou a secretaria de segurança pública, se é que também chegam às vias de fato com alguns membros”.

hinchada

 

 

Em resumo, as torcidas pedem para não serem demonizadas e estigmatizadas. Buscam soluções para os incidentes violentos e para tornar os estádios um ambiente tanto familiar quanto apto para as hinchadas exercerem sua tradicional festa. Para concluir a terceira parte dessa sequência de posts, entrevistamos Manuel Román Medina, chefe de reportagem no El Mexicano, de Tijuana, que dá uma dimensão mais profunda da questão das barras no país:

 Qual sua opinião sobre Jorge Vergara e o fato dele querer eliminar as “hinchadas” no México?

Eu creio que Vergara está buscando uma solução para a violência, mas não é somente responsabilidade das “hinchadas”, essa violência é origem da falta de cultura da torcida. Sua idéia é boa, mas sua solução é ruim.

Qual é o nível de conexão financeira entre clubes e suas hinchadas?

Tem alguns clubes que pagam tudo para suas hinchadas, como Estudiantes Tecos, por exemplo (equipe atualmente na Liga de Ascenso MX), que dava para sua “barra” tanto ingressos para as partidas, como uniformes. Em alguns casos, há um acordo em que o clube paga um ônibus e a hinchada paga outro para viajar. Isso me parece algo bom e ajuda as equipes a viajarem com algum apoio.

Qual sua posição sobre as proibições da Liga MX (mosaicos, mantas, etc etc etc)?

Acredito que as proibições da Liga MX são compreensíveis, já que assim não entram em assuntos políticos (com as mantas), nem em problemas de logística (com os mosaicos), mas também tiram muito da cor e da paixão dos estádios. Recordo-me que quando era criança eu ia ao Estádio Jalisco para ver ao Chivas Guadalajara nos domingos, ao meio-dia. A única coisa que nunca poderia me faltar era minha bandeira. Agora, nem sequer as bandeiras podem entrar devido os paus desse material. Acho que a Liga MX deveria mudar essa posição e essa política, quero dizer, se até mesmo a Fifa permite que as pessoas coloquem o que quiserem nos mundiais, porque a Liga MX não?

Alguns defendem a extinção de este tipo de grupo de animação no México por razões de violência. Qual é sua opinião sobre isso?

Acho que não deveriam haver as barras nos estádios. É uma mentira que necessitem delas para vencer, inclusive por experiência própria. Quando estás em campo jogando não se escuta, estás atento aos seus companheiros, ao apito do árbitro, etc. Creio que deveriam ser erradicadas, porque não é confortável estar escutando as mesmas canções cada fim de semana de um grupo de animação. Mas isso não quer dizer que são responsáveis pela violência, isso não é certo, qualquer pessoa mal educada por ser violenta, não necessita necessariamente ser parte de uma barra.

Pelo contato que você tem em Tijuana, qual é o perfil dos integrantes das barras do Xolos?

A “La Masakre” é uma mescla de tudo, estudantes, executivos, pais de família. É a barra mais extrema, mas têm algumas mais familiares. Acredito que pelo menos em Tijuana, todavia não se mesclam as “barras” somente de jovens.

Tem algum ponto que não tocamos que queira abordar?

Repito novamente, as barras não geram violência, são indivíduos dentro delas que se sentem protegidos, mas não necessariamente tem que ser parte de uma barra para ser violentos. Isso é cultural e algo que somente mais segurança, circuitos de câmeras e uma um planejamento melhor, podem eliminar.

Esse assunto, ou debate, está longe de ter um final. Na realidade, há muita pouca margem para uma troca de idéias e muita “demonização”. Em suma, nessa história não há mocinhos nem vilões: federação e barras são igualmente culpadas pelos incidentes de violências, um “piano” que deve ser carregado por ambos.

Jogar toda culpa em um ou em outro seria parcialidade e pautado em interesses para defender um ou outro lado. Erradicar as barras não é a solução definitivamente, uma vez que essa hinchadas mexicanas são formadas por grupos heterogênos, como mencionou Medina. São pessoas de todos os tipos, classes, idades, são barras com suas particularidades próprias.

O Campeonato Mexicano é espetacular pelo futebol veloz, vertical, incisivo, imprevisível e emocionante, por seu formato dinâmico e pela importância que as equipes dão para esse torneio. Mas também pela festa nas arquibancadas, pelas altas médias de público, pela paixão nos estádios. Não é uma luta entre FMF e Barras mexicanas, é uma luta entre amantes do futebol contra a violência dentro e fora dos estádios.