Redação na década de 1960

[Especial] XV de Trivela – por Mauro Beting

- Quinze anos de Trivela!

- Precisamos fazer um baile!

- Sai pra lá! Que coisa mais demodé!

- Demodé é usar a palavra demodé!

- Aliás, como escreve demodé?

- A gente procurava no Alta Vista a resposta?

- Não lembro.

- Foi antes ou depois da bolha da internet?

- Foi antes do bug do milênio.

- Flopou.

- Cuma?

- Caraca. Isso aqui não vai ficar datado?

- Vai. Tudo fica. Tá no cabeçalho. Ou tá no pé da mensagem.

- Ainda tem pirâmide invertida em Jornalismo?

- Ainda tem Jornalismo?

- A gente tenta fazer isso faz tempo. Fizemos site. Portal. Revista. Fizemos belas parcerias. Tivemos ótimos colaboradores. Viramos referência.

- Newsletter. Lembra? Como chamava aquele estagiário?

- O que virou empresário da noite?

- Não. O que achava que sabia tudo.

- E não são todos eles?

- Somos todos nós. Jornalistas. Ainda mais os esportivos.

- É.

- É….

- O que vai ser daqui 15 anos?

- O que foram os últimos 15 anos?

- Vamos mudar?

- De endereço, plataforma, mídia?

- De tudo.

- Mudamos. O futebol mudou.

- Depois da Copa João Havelange em 2000 poderemos ter a Copa Ricardo Teixeira em 2014.

- Campeonato Brasileiro por pontos recorridos no STJD.

- Voltaríamos ao mata-mata. O genocídio futebolístico.

- É tão ruim assim?

- Não é. Mas é que nada dura 10 anos no Brasil.

- A Trivela tem 15!

- E num corpinho de…

- 15 é crime. É 18. Barely legal.

- Boa. Tudo é meio quase legal mesmo no futebol brasileiro.

- Por isso a gente fala muito da bola que rola lá fora.

- Fomos dos primeiros. Ainda bem que não somos os últimos.

- Nem os únicos.

- Tem uma turma ótima por aí.

- Mas sempre tem gente que reclama que diz que tem cara que torce primeiro pelo Derby County e depois pelo Botafogo.

- Gosto não se discute. Amor também não.

- Futebol se discute muito. E tem para todo mundo do mundo todo. Se tem jogo na Championship mais legal que clássico do Brasileirão, que fazemos?

- Vemos os dois. Só não podemos fingir que assistimos a nenhum. Ou dormimos na frente da TV.

- Pior. Metemos o pau no jogo e no campeonato e nem ao estádio vamos.

- Torcedor de pagar-pra-ver.

- Paga-pau de estúdio.

- Coxinha de sofá.

- Poser.

- Será que alguém vai entender esse papo no futuro?

- Será que a gente entendeu o passado?

- Hicks Muse. ISL. MSI. Parmalat. Unimed. Odebrecht. Bom Senso.

- Você está trocando as bolas.

- É tudo isso e muito mais. Ou menos.

- É um diz que não DIS.

- É Kia. Motors ou Joorabchian.

- É Teixeira. É Marin. É Andres. É Marco Polo.

- Já foi Eurico. Dualíb. Mustafá. Juvenal.

- Já foram?

- Voltaram.

- Nunca saíram.

- Mas tem gente boa entrando. Ou querendo entrar. Tem cada vez mais ex-atleta jogando junto. Pensando junto. E bem.

- Profissionais estudando.

- Mas gente de outras aéreas querendo entrar nesse jogo e sendo expulsos pela gente que não quer perder as jogadas de sempre.

- Tem de tudo. Mas tem esperança.

- Tem?

- Teve Estatuto do Torcedor.

- Teve…

- Teve mais de dez anos de Brasileirão racionalizado.

- Mas os estaduais voltaram a inchar e encher o calendário e o saco.

- Eles não podem acabar. Precisam apenas ser racionalizados. Enxugados em datas dos grandes, espichados pelo calendário do ano.

- Mas daí isso não acaba nunca!

- Termina. Tudo um dia acaba.

- Esse é meu medo. Acabar essa nossa paixão.

- Essa não morre. É incondicional.

- Paixão de torcedor

- Paixão que nos levou há 15 anos a fazer o que ainda fazemos por imensa paixão.

- Aquilo que me anima pelos próximos 15 anos.

- Aqueles que me desanimam por estarem cada vez mais vivos nos próximos 15 anos. Ou décadas.

- Não podemos entregar os pontos.

- É. Mas basta um recurso no tribunal…

- Não cairemos!

- Se cairmos, logo subiremos.

- Papo de paulista!

- Conversa de clubista.

- Ranço de bairrista.

- Eixo do mal!

- Viu? É difícil fazer Jornalismo Esportivo. Com maiúscula.

- Difícil é fazer Jornalismo. Com caixa alta.

- E caixa baixo…

- Mas quando se tem paixão e história para contar, vai mais rápido.

- Eu não sabia que 15 anos passavam tão rápido.

- Lembra? Tinha Sul-Americano Sub-20 na Argentina. Ronaldinho Gaúcho era o craque do time. Júlio César o goleiro. Emerson jogava no ataque. Ele não era Sheik ainda.

- Nem Emerson…

- Tinha um balaio de gato naquele time. Eriberto que era Luciano…

- Mas a gente só dizia que africano que era gato…

- Preconceito. Desinformação. Chute. Má apuração.

- Tudo que tentamos combater em 15 anos.

- Tudo que ainda vamos lutar muito para não errar a mão.

- Com toques de efeito e de categoria.

- De Trivela.

- Mas que prepotência e cabotinismo! Até parece que somos jornalistas esportivos!

- Somos todos iguais.

- Uns mais que os outros.

- Parabéns para nós!

- Não. Obrigado.

- Para nós.

- Não. Para você que está lendo agora. Que nos lê há 15 anos. É tudo para você.

- Acabou bonito.

- Viu como tudo pode acabar bem?

- Eu sei que muitos bens acabam. Isso eu sei.

- Mas o nosso valor é outro. É fazer. É jogar. É participar.

- Barão de Coubertin da cobertura esportiva.

- Mais ou menos isso.

- Dom Quixote.

- Don Pernil Santa Coloma!

- Coronel Bolognesi!

- João Marcos, Benazzi, Marquinho, Darinta e Tonigato! A defesa do Palmeiras de 1981!

- Motor e Astronauta! A dupla da meiúca do São Paulo de Rio Grande nos anos 80!

- É isso!

- 15 anos disso! Futebol intravenoso. Venenoso.

- Tolete!!!

- Quem?

- A gente conta daqui 15 anos.

Mauro Beting foi colunista da revista Trivela de 2005 a 2008.