A Inglaterra pode perder uma vaga na Champions e isso é mais fácil do que parece

O que faz a liga mais rica do mundo poder perder uma vaga para a Itália?

A liga nacional mais rica do mundo está ameaçada de perder uma vaga na competição internacional de clubes mais rica do mundo. A Premier League tem uma briga acirrada pelas quatro vagas na Champions League, mas pode, em breve, perder uma delas. Tudo porque, embora seus times sejam fortes e não falte dinheiro a eles, o desempenho nas competições continentais tem sido frágil.

Futebol não é um ranking da Forbes (ainda bem), e por isso os clubes ingleses não conseguem trazer a força financeira para o gramado europeu. O ranking da Uefa conta os cinco últimos anos, contando as duas competições do continente, a Champions League e a Liga Europa. E apesar de toda badalação, os representantes da Premier League deixam a desejar.

Em termos de pontuação, o último grande momento da Inglaterra foi em 2010/11, quando o Manchester United foi finalista da Champions League. A Inglaterra fez 18.357 pontos naquele ano, mais até que a Espanha (18.214), Alemanha (15.566) e Itália (11.571). Naquela temporada, o Tottenham foi líder do seu grupo na Champions, à frente até da Internazionale (campeã do ano anterior), eliminou o Milan nas oitavas de final e caiu só para o Real Madrid. O Arsenal foi derrotado pelo Barcelona nas oitavas de final e o Manchester United fez uma das quartas de final contra o Chelsea, em dois confrontos muito disputados. Eram três ingleses nas quartas de final.

O problema é que a temporada 2010/11 não entra mais na conta para o ranking da temporada que vem. As cinco últimas passarão a ser 2001/12, 2012/13, 2013/14, 2014/15 e a atual, 2015/16. Com isso, os ingleses perdem a maior pontuação que tiveram recentemente e correm sério risco de caírem do terceiro para o quarto lugar entre os países.

Em 2011/12, o Chelsea foi campeão, mas o ano dos ingleses foi terrível. O título dos londrinos acabou sendo uma zebra diante de tudo que aconteceu. O Manchester United foi eliminado na primeira fase, assim como o Manchester City. O Arsenal caiu diante do Milan nas oitavas de final. O Chelsea passou por um sufoco danado contra Napoli e Benfica, surpreendeu o Barcelona e acabou campeão contra o Bayern de Munique nos pênaltis. Foi o único inglês nas quartas de final. A Espanha foi o país que mais pontuou naquela temporada, com 20.857, seguida por Portugal (18.800). A Inglaterra dividiu a terceira posição com a Alemanha (15.250).

Em 2012/13, novamente dois dos quatro ingleses caíram na primeira fase. Desta vez, além do Manchester City, o Chelsea, então campeão, também foi eliminado. A situação foi ainda pior que no ano anterior, porque Arsenal e Manchester United não passaram das oitavas de final, e os ingleses não tiveram nenhum representante entre os oito melhores da Champions League. A Inglaterra fez 16.428 pontos, atrás da Alemanha (17.928), Espanha (17.714).

Em 2013/14, os quatro ingleses se classificaram às oitavas de final, mas dois deles caíram, Arsenal e Barcelona. Manchester United e Chelsea passaram às quartas. O Chelsea ainda foi até a semifinal, quando caiu para o Atlético de Madrid. A pontuação dos ingleses foi de 16.785, ainda atrás da Espanha (23.000), mas à frente de Alemanha (14.714) e Itália (14.166).

Na temporada passada, houve mais uma decepção inglesa já na primeira fase. O Liverpool, maior campeão continental da Inglaterra, nem se classificou ao mata-mata. Arsenal, Manchester City e Chelsea caíram já nas oitavas de final e o país voltou a ficar sem nenhum representante nas quartas. A pontuação foi a mais baixa do ciclo, com 13.571, muito atrás de Espanha (20.214), Itália (19.000) e Alemanha (15.857).

Mas a pontuação baixa da Inglaterra não se explica só pela Liga dos Campeões. É preciso olhar também para a segunda competição continental, a Liga Europa, para entender o desempenho ruim.

O Manchester City, de Kompany (esq.), Fernandinho (centro) e Yayá Touré (dir.) foi eliminado pelo Barcelona nas oitavas de final da Champions (AP Photo/Emilio Morenatti)

O Manchester City, de Kompany (esq.), Fernandinho (centro) e Yayá Touré (dir.) foi eliminado pelo Barcelona nas oitavas de final da Champions (AP Photo/Emilio Morenatti)

A desvalorizada Liga Europa

O desempenho dos times ingleses na Liga Europa é lamentável ao longo dos últimos cinco anos. Ainda que distribua muito menos pontos que a Champions League, a segunda competição de clubes da Uefa pode ser importante na definição do ranking de países. O maior exemplo disso é Portugal, que chegou ficar em primeiro lugar em uma temporada por fazer três semifinalistas na competição. E, nesse aspecto, os ingleses têm um desempenho que beira o ridículo.

Em 2010/11, foram três equipes do país disputando a competição, mas com resultados terríveis. O Aston Villa caiu antes da fase de grupos; Liverpool e Manchester City não passaram das oitavas de final. Em 2011/12, foram seis ingleses, com três eliminados ainda na fase de grupos, um na fase 1/16 de final e outros dois nas oitavas. Nenhum time chegou às quartas de final.

O melhor desempenho foi em 2012/13. Todos chegaram ao mata-mata, mas o Liverpool caiu na 1/16 de final, Newcastle e Tottenham, nas quartas e o Chelsea (que veio da Champions League) acabou campeão. Foi o ano de exceção, com os ingleses protagonizando um papel até bom no torneio. Mas em 2013/14, tudo voltaria a ser como antes. Dos três times classificados, o Wigan caiu na primeira fase como lanterna do grupo, o Swansea foi eliminado na 1/16 de final e o Tottenham não passou das oitavas. Mais uma vez, os ingleses não tinham um representante sequer nas quartas de final.

Os resultados ruins voltaram na temporada 2014/15. Nenhum dos quatro ingleses chegou às quartas de final. O Hull City não alcançou nem a fase de grupos, Tottenham e Liverpool caíram nas 1/16 de final e o Everton foi eliminado nas oitavas. A atual temporada está no início, mas deve serguir no mesmo ritmo. O West Ham precisou dos pênaltis para eliminar o Birkirkara, de Malta, e caiu diante do Astra Giugiu, da Romênia. O Southampton caiu na fase de playoff diante do Midtjylland, da Dinamarca.

Não há muita desculpas para esse histórico, pois a diferença econômica do segundo pelotão inglês segue muito superior à dos grandes da maioria dos países. O que parece faltar é desejo de levantar um troféu internacional, mesmo que o de segundo nível. Há alguns anos, o desempenho na Champions League salvava a Inglaterra, mas não tem sido mais assim. E os pontos da Liga Europa começam a fazer falta no ranking.

A competitividade e a supervalorização local

Ter uma liga forte e de alto nível técnico é algo desejável, mas tem seu efeito colateral. A alta competitividade e o calendário cheio fazem com que os clubes ingleses, muitas vezes, priorizem a competição local. Há uma cultura dos ingleses de dar muito mais valor à Premier League do que a torneios internacionals (que não sejam a Champions), o que não ocorre em Espanha, Alemanha ou Itália. A sede de glórias nacionais parece maior que a busca por glórias internacionais.

Na Inglaterra, era muito comum que os times priorizassem o Campeonato Inglês ao invés das competições europeias muito antes da Champions League se transformar nesse gigante de hoje. Havia uma força dos times do país, mas a disputa pelo título, muito alternada em grande parte da história do campeonato nacional, tornava difícil um clube se dedicar a duas ou três competições (ou quatro, pois os ingleses ainda têm a Copa da Liga).

Com o alto nível de exigência da Premier League, os clubes acabam tratando a Liga Europa como um obstáculo no calendário, não como uma oportunidade de conquistar algo.

O que precisa acontecer para a Inglaterra perder a quarta vaga?

A Inglaterra perde a quarta vaga na Champions se tanto ela quanto a Itália tiverem um desempenho igual ao da temporada passada. Ou seja, se a Inglaterra fizer uma pontuação parecida com 13.571 e a Itália conseguir repetir o excelente desempenho da temporada passada com 19.000, as posições de ambos no ranking se invertem: a Itália passa a terceira e a Inglaterra cai para quarta.

Neste momento, a Inglaterra tem seis dois oito times que começaram a temporada em competições europeias , com West Ham e Southampton já eliminados. A Itália tem um time eliminado, a Sampdoria, que caiu diante do sérvio Vojvodina na terceira fase preliminar da Liga Europa. Por enquanto, a Inglaterra tem vantagem. Na Champions, que dá mais pontos, a Roma caiu no grupo do Barcelona, que ainda tem Bayer Leverkusen e Bate Borisov, e a Juventus tem uma que chave pode ser complicada com Manchester City e Sevilla, além do Borussia Mönchengladbach. Na fase preliminar, a Lazio caiu para o Bayer Leverkusen, enquanto o Manchester United passou pelo Club Brugge. Em compensação, os times italianos têm boas chances de avançar na Liga Europa.

Se ingleses e italianos tiverem desempenhos similares – por exemplo, ambos terem representantes nas quartas de final da Champions e nas fases finais da Liga Europa – já será suficiente para a Inglaterra perder pontos. Os times da Premier League precisarão pontuar mais que os da Serie A para evitarem a perda, justamente por perderem um ano que fizeram uma boa pontuação e a Itália descartar uma temporada ruim. Sem 2010/11, os dois estão bem próximos. Ver as quartas de final da Liga Europa sem nenhum inglês e vários italianos é um cenário possível. Se isso acontecer, é bem provável que vejamos a liga mais rica do mundo perder uma das suas preciosas vagas na Champions League.

Ranking da Uefa 2015/16 | Create infographics