Como a ex-capitã da Seleção, Aline Pellegrino, planeja melhorar futebol feminino

Aline Pellegrino foi escolhida para chefiar Depto. de Futebol Feminino e usa a experiência para melhorar a modalidade

Mauro Silva é um dos grandes nomes da história do futebol brasileiro. Volante técnico, marcou época jogando Bragantino e pelo Deportivo La Coruña e titular na Copa do Mundo de 1994. Fora de campo, continua importante: coordena o Departamento de Integração de Atletas na Federação Paulista de Futebol. Foi em contato com o ex-volante que surgiu a ideia, e depois o convite, para cuidar das demandas do futebol feminino. Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção, foi medalha de prata na Olimpíada de 2004 e escolhida para coordenar o Departamento de Futebol Feminino na FPF, uma novidade. Assim, a mudança vem de dentro, com uma pessoa que entende a modalidade.

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Aline se aposentou do futebol em 2013, com tranquilidade. Jogou a sua última competição sabendo que penduraria as chuteiras depois, a Copa do Brasil daquele ano. Foi aí que começou a sua trajetória fora de campo. Foi técnica do Vitória de Santo Antão, time do interior de Pernambuco. Foi campeã pernambucana em uma campanha histórica pelo time, mas foi quando viu que atuar fora de campo era mais complicado do que parecia.

“Eu falo para todo mundo que foi uma experiência muito mais legal os cinco meses como técnica do que os 16 anos de atleta”, contou, em entrevista exclusiva à Trivela. “Eu tinha aquela coisa: quero fazer o trabalho do meu jeito, com aquilo que acho que são as coisas ideais, positivas ou negativas que eu tenha vivido na minha carreira com as comissões técnicas que eu trabalhei. Tive a oportunidade de fazer isso e foi bem legal”, contou.

Só que as dificuldades aumentaram. “Na hora que eu estive ali um pouquinho fora das quatro linhas, que eu achei que pudesse fazer e acontecer, vi que não ia dar tão certo assim. Chegou uma hora que eu falei: bom, não adianta, não vou conseguir mudar o mundo, mudar o futebol feminino, deixa para lá”. Foi o fim de uma curta carreira como técnica, ainda em 2013.

Afastada do futebol profissional, Aline, formada em educação física, continuava trabalhando com esporte, foi personal trainer e via, de longe, o que acontecia no futebol feminino. Em 2014, surgiu novamente o convite para trabalhar com futebol, mas sem os holofotes do profissional: coordenar todo o departamento de futebol do Clube Sírio, com quatro categorias, futebol masculino. Não demorou para que o futebol profissional voltasse a bater à porta de Aline.

“No final do ano fui convencida pela diretora do Corinthians, Cristiane Gambare, a aceitar trabalhar no projeto que ia começar, a parceria do Corinthians com o Audax, como supervisora da equipe. Um cargo que, se você pensar no futebol feminino, nas comissões técnicas que tem por aí, é difícil ter”, contou a ex-capitã.  “Foi bem legal, um desafio gigantesco, você vai cada vez mais ampliando a sua visão do que é fora das quatro linhas, tem mais aquele contato com a diretoria, planilha financeira, o que acontece de fato, como é que a coisa desenrola, dificuldades, facilidades, então vinha sendo um desafio muito grande”, explicou.

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Contato com a CBF e com Mauro Silva

Trabalhando pelo Corinthians, Aline teve a chance de fazer um curso de gestão na CBF. Indicada pela diretoria do clube paulista para participar, passou a ter contato com Mauro Silva. “Tinha outras pessoas do futebol feminino fazendo o curso, o pessoal do São José, do Rio Preto, e o Mauro, muito solícito, deu uma atenção muito grande para a gente”, disse Aline.

“Descarregamos muita coisa na cabeça dele em uma sexta-feira à noite. Ele então falou para marcarmos uma reunião na terça-feira, vocês me passam com calma e eu vou levar para o Fernando [Enes Solleiro, vice-presidente executivo] e para o Reinaldo [Carneiro Bastos, presidente]. Ficamos no Rio quinta, sexta e sábado e na terça-feira já tivemos a reunião”.

“Um dos pontos era a criação de um Departamento de Futebol Feminino, porque você tem demandas que talvez ele não conseguisse fazer as coisas andarem tão rápido porque não tem tanto conhecimento. É uma modalidade que tem suas entrelinhas e tem essas pessoas que vivem mais o dia a dia e tem mais facilidade de passa a informação”, explicou ainda.

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Indicação para coordenar Depto. Futebol Feminino

Com Mauro Silva envolvido, a ideia do Departamento Feminino ganhou forma. Faltava, então, escolher quem ocuparia o cargo. “Eu falei ‘Pô, Mauro, é para este ano ou o ano que vem?’, querendo que ele falasse que era para o ano que vem, porque se fosse para o ano que vem, eu teria uma condiçãozinha (risos). Ele falou: ‘Não, para agora’. Aí eu pensei: ‘Ai, caramba, não acredito’. Porque quando ele passou o perfil que ele estava querendo, eu pensei ‘acho que me encaixo’. Mas como é que você vai falar isso para a pessoa? E eu não tenho esse perfil de fazer isso, jamais”, revelou Aline.

Foi novamente por pessoas do Corinthians que veio a chance. “Liguei para a Cris e avisei: ‘O Mauro vai ligar para pedir uma indicação, vamos pensar juntas’. Ela me falou: ‘Pô, Pellegrini, tem que ser você’. Aí criei coragem, liguei para ele e disse: ‘Mauro, será que eu não posso participar desse processo de seleção?’. Ele me disse que não tinha problema nenhum. Ainda bem que dessas pessoas que ele escutou, algumas falaram o meu nome, então não fui só eu que falei”.

Veio a conversa com Fernando Enes Solleiro, vice-presidente executivo da FPF, e Reinaldo Carneiro Bastos, o presidente e a sua escolha. Em julho, Aline foi contratada para o cargo. “Hoje eu represento todos esses clubes que jogaram o Campeonato Paulista de 2016, represento também todos aqueles que já passaram”, afirmou a ex-jogadora.

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Primeiro passo: mapeamento do futebol feminino paulista

Para começar a trabalhar, é preciso conhecer. Por isso, a primeira coisa que Aline decidiu fazer foi buscar as informações dos times femininos do estado de São Paulo. “Vou começar a fazer um mapeamento desses clubes, como foi o dia a dia. O Corinthians/Audax eu sei um pouquinho, eu preciso entender como é o dos outros, o planejamento, por que veio, o que queria na competição, o que pensa para o ano que vem”, explicou.

“A federação dá uma abertura bem legal para que eu consiga colocar em prática as ideias que eu tenho, mas é um trabalho de longo prazo. Mapear tudo, depois ver caminhos, então tem sido uma experiência”, continou.

Investimento em formação no futebol feminino

A experiência em campo foi importante e tornou Aline uma figurinha carimbada do futebol feminino, mas ela se preparou também fora de campo, até pensando na carreira quando não jogasse mais. “São degraus que eu acabei subindo desde o momento que parei de jogar. O caminho tem sido feito degrau por degrau, me capacitando. Sou formada, comecei, após a graduação em futebol e futsal, é metodologia e ciência. Gosto de futebol, não tem jeito, estou sempre assistindo, estou sempre acompanhando, procuro participar muito. Sou convidada para vários seminários, congressos, então acho que tem tudo para ser um trabalho muito bom, mas que é a longo prazo”.

A presença de mulheres nas comissões técnicas também é um problema. São só duas treinadoras no Campeonato Brasileiro Feminino. Se formação de treinadores já é um problema quando se fala sobre futebol masculino, com críticas contundentes aos treinadores brasileiros, como formar e, mais do que isso, dar oportunidade a mulheres no futebol?

“A Fifa hoje tem um planejamento, um plano de ação, que ela quer em um período de tempo fazer com que todos os campeonatos mundiais, as Copas do Mundo, seja ela sub-15, sub-17, sub-20, as comissões das seleções sejam majoritariamente femininas. Se você me perguntar se acho que isso é o ideal, se todos forem realmente capacitados, mais do que outras comissões, ok. Se não, eu não acho que é por aí”, conta Aline.

“Penso que é uma questão do futebol, e aí estamos falando do futebol para mulheres ou para homens. Às vezes você tem pessoas trabalhando com menos capacitação do que outras e às vezes por um motivo político, que a gente sabe que tem muito no futebol, por um motivo cultural, que é a questão do machismo, pode ser que um tenha um cargo que outro deveria ter”, analisou a ex-zagueira.

Um dos pontos que Aline destaca é que a FPF trouxe para São Paulo o curso de técnicos, Licença C, que inclui futebol feminino. Segundo a chefe do Departamento de Futebol Feminino da FPF, estes cursos são essenciais para dar visibilidade a quem tem capacidade. “Você tem as mulheres capacitadas, mas se você não tem o curso para aprimorar, ela tá capacitada, mas não está esquecida. As pessoas podem ver e aí futebol é network o tempo todo. Você está ali do lado, faz contato, que legal, recebe uma indicação”, explicou.

“Quem fez o curso ano passado tá palestrando nesse, e acho que é uma corrente do bem que você vai puxando as coisas e vai desmistificando essa questão cultural. Que é uma bobeira, na hora que todo mundo sentado aqui junto falando de futebol, você sabe quem entende ou não e você vai querer trabalhando com você quem entende. Pode ser seu amigo, mas você não vai colocar para trabalhar como técnico se você sabe que ele não é tão competente”, afirmou.

“É fácil desmistificar com ações. Tem esse curso hoje que a CBF oferece, Licença C, Licença B, Licença A. É preciso divulgar isso, mostrar que tem o curso, onde é a inscrição, o planejamento qual o conteúdo programático, e atende homens e mulheres”, contou. “Porque não adianta querer fazer média, colocar uma mulher lá e não ter capacidade. Vai ser ruim e você vai queimar um espaço que é pequeno”.

Aline conta já começaram os trabalhos para captar interessados e fazer a formação pensando no futebol feminino. O técnico do time feminino do XV de Piracicaba, Leandro Silva, foi um dos que se mostrou interessado em participar, no Congresso Técnico do Campeonato Paulista. “É um homem, é do futebol feminino, quer se capacitar, tem condição. Não tem muito como forçar homem ou mulher. Temos que querer sempre que quem está fazendo futebol hoje se capacite. para que os atletas, para que a Federação, para que a Confederação, tenham cada vez mais profissionais melhores”, disse.

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Direitos trabalhistas das jogadoras

Se o futebol masculino, com milhões de reais alimentando os principais times, ainda sofre na base, o futebol feminino mais ainda. O Bom Senso FC chamou a atenção para isso desde o seu surgimento e as ações que tomaram o Campeonato Brasileiro de 2014. As questões trabalhistas no futebol feminino são ainda mais graves: muitos dos times que disputam torneios nem sequer são profissionais. Por isso, os direitos das jogadoras são um ponto crucial para a modalidade.

“Isso é um empenho pessoal meu, independente do cargo. Fortalece muito com a posição que eu tenho hoje, com a possibilidade que eu tenho hoje de, em algum momento, ir a todos esses clubes, fazer uma palestra sobre mercado de trabalho”, contou Aline. “Muito se esbarra no futebol feminino nessa questão. É profissional ou é amador? A minha vida inteira eu briguei, tem que ser profissional. E ser profissional hoje, única e exclusivamente pela legislação é tendo uma assinatura na carteira de trabalho. Que é o que acontece hoje com as jogadoras do Santos. E aí você tem todo os encargos trabalhistas”.

O problema é que o profissionalismo, por mais que pareça o caminho, pode ser impossível para o futebol feminino em curto prazo. “Nesse mapeamento que eu vou fazer, já tenho na minha cabeça o que ele é, basicamente o que eu vou encontrar. Pela experiência, por tudo. A partir dele, vou poder ver. Dos 14 clubes que estão aqui [Campeonato Paulista], se a gente tentar fazer para o ano que vem o futebol feminino da Federação Paulista todos os clubes profissionais, assinando carteira de trabalho, a gente não vai ter, talvez, três times para jogar”, explicou.

“Então, é o momento? Talvez não seja o momento. É preciso entender isso. Se não é o momento, qual é a melhor condição de ser amador, porém de ter os direitos, de ter esse entendimento. Com formação é difícil, sem formação é um pouco mais”, disse ainda Aline.

“Aqui na Federação, eu me coloco e vou ser uma pessoa que vai brigar muito para que todas as atletas e comissões técnicas tenham a informação sobre isso, porque é muito importante. Depois você vai parar de jogar e você perdeu 10 anos da sua vida sem trabalhar? Como você vai comprovar isso? Tem um meio melhor? Porque hoje é assim. Um time oferece R$ 3 mil em carteira assinada e outro oferece sem. Você vai no sem, porque quer receber o valor cheio, sem descontos, mas sem entender o porquê”, diz a ex-capitã.

“Isso é muito complexo. É algo de longuíssimo prazo, mas eu acho que tem como a gente começar a introduzir isso. Como vai ser introduzido também a questão da arbitragem, se vai mudar as regras, se vale para este campeonato, para o próximo. Vamos trazer os atletas, fazer essa integração. Não adianta a gente pensar no futebol como antigamente. Chega, distribui colete, joga e acabou. Futebol hoje é mais do que isso”.

“Não é do atleta ir conhecer regra, não faz parte do dia a dia. E isso faz diferença em algum momento. É um momento novo do futebol, de gestão do futebol, seja a partir da confederação, clubes. Não tem como fugir disso. É uma tendência nova do futebol, que outras coisas que estavam muito distantes antes, fora do campo, elas tenham que andar e caminhar juntas, seja na parte da arbitragem, seja na parte salarial, de legislação, de tributo”, continua Aline.

Estrutura do futebol feminino e os clubes grandes

Uma discussão que acontece no futebol feminino é sobre a participação de times tradicionais do masculino na modalidade. É uma discussão que já atingiu outras modalidades de futebol, como o futsal. Ter camisas de peso pode ajudar a atrair a atenção, patrocínios, mas será que é um caminho para o futebol feminino? Aline acha que é preciso ir com calma.

“O futebol feminino teve um período no Brasil que era proibido. Esse veto só cai em 1980. Quer dizer que nesse período que ele estava proibido não tinha mulheres jogando futebol? Tinha. Não tinha equipes de futebol? Tinha. Mas vamos pensar o futebol feminino no Brasil quando cai esse veto que é em meados de 1980. De 1980 a 2016, vamos jogar como se fosse 2020, a temos 40 anos de modalidade. A gente não pode chegar agora e esquecer esses 40 anos. Quando a gente olha para esses 40 anos, qual é a característica da modalidade? São os clubes de camisa? Se a gente pensar em 40 anos, não”, disse.

“Tiveram momentos que eles estiveram presentes em competições completas, como teve o caso do Campeonato Paulista em 2000, 2001, que foram todos os clubes de camisa. Tinha a Topper patrocinando, a Federação, a TV, montou tudo. Fez o espetáculo todo. É um momento, que é pontual, e é bacana.”, explica a ex-jogadora.

Aline explica, porém, que aquele campeonato não surgiu naturalmente. Foi um momento diferente do futebol feminino. “O que aconteceu para ter esse campeonato para ter todos os clubes de camisa? Você pegou todas as jogadoras, que já jogavam, fez um draft. Então falou assim: vai todo mundo domingo de manhã no Pacaembu. Óbvio que eles já sabiam mais ou menos o currículo de cada uma, então Aline é A, fulana é B, ciclana é C. Tem que ter um X de jogadoras A, um X de jogadoras B e um X de jogadoras C. Mas os times já existiam, que não eram de camisa, um ou outro. Existiam essas atletas, mas foi colocado todo mundo em um mesmo peneirão e foi distribuindo um por um”.

“Foi o momento que tinha um entendimento, até porque tinha um patrocínio, então esses clubes recebiam uma cota por mês, tinha a coisa toda. Foi válido. Será que dá para a gente fazer isso sempre? Não vai dar para fazer isso sempre. E aí também não tem como não respeitar um projeto do São José que tem 16 anos. Que chegou em duas Libertadores e um torneio internacional, um título internacional, um Mundial de Clubes. Não tem como você pegar o São José do Rio Preto, que tem um projeto há 16 anos e achar que dá para mudar”, analisou ainda a medalhista de prata em 2004.

“Hoje temos calendário. O que muda é que não sabemos quando a competição vai acontecer. Se o brasileiro vai ser no começo do ano, no final. Mas hoje nós temos um calendário, antes não tinha. O calendário do ano na minha época eram jogar os jogos regionais, duas semanas, jogos abertos, duas semanas, uma ou outra coisinha ali no meio. E aí, se era jogos regionais e jogos abertos, era prefeitura. Então, quem por muitos anos nesse começo nos anos 90 e 2000 para cá foram as prefeituras”, explicou.

“A modalidade tem uma característica, que são as parcerias, seja uma prefeitura com uma faculdade, uma prefeitura com um clube de camisa, uma faculdade com um clube de camisa. Eu acho que você pode começar a direcionar isso com essas aproximações que acabam acontecendo naturalmente”, disse.

“A essência é isso, são associações, as prefeituras, as parcerias, e que vem dando certo, principalmente em São Paulo. São Paulo é o grande centro do futebol feminino. Todas as conquistas da modalidade em relação à seleção brasileira, Olimpíada, Copa do Mundo, se a gente for pegar lá e fazer um levantamento na história, 70% das jogadoras estavam inscritas e federadas pela Federação Paulista. Jogaram e jogam e disputam o Campeonato Paulista. É o principal campeonato do Brasil. É o campeonato mais longo”.

Campeonatos de base feminino começam em 2017

Um dos pontos mais falados sobre o futebol feminino é a ausência de categorias de base. Há poucos clubes que trabalham com isso e este é um entrave importante na formação de novas jogadoras. Há pouco incentivo para isso. Um dos planos de Aline Pellegrino na Federação Paulista é justamente atacar este problema e criar competições de categorias de base.

“Estamos pensando [nos torneios de base] e é uma chance muito pequena do ano que vem a Federação não ter o Campeonato Paulista de base. Foi discutido aqui com os clubes, a princípio qual é essa categoria ideal, porque às vezes o sub-20 no feminino não forma, assim como no masculino também já não forma muito, então talvez essa categoria ideal seja o sub-17. Vamos estudar, vamos mapear também”, disse.

“É o grande pontapé para o desenvolvimento. Então como a gente tá falando e brigando de desenvolver e enraizar a modalidade se você não tem a categoria de base. E o futebol feminino dentro dessa característica que eu falei foi uma coisa que acabou acontecendo naturalmente”, afirmou a ex-jogadora.

“Eu com 15 anos estava no São Paulo. Com 14 anos passei na peneira, fui aspirantes do São paulo por seis meses. Então fui convidada pelo Zé Duarte, treinador na época, e já fiz parte da equipe principal. Então, eu com 15 anos já era profissional, já estava jogando com uma Sissi, com uma Kátia Cilene, com uma Tânia Maranhão que já faziam parte da seleção principal. E isso vai”.

“Você tem hoje nos clubes jogadoras de 15, 16, 17 anos jogando com uma de 42, que já viveu e já rodou tudo. É uma característica do futebol feminino, que por não ter tanto calendário, vai juntando todo mundo. O importante é ter um time e põe lá para jogar. E hoje, cada vez mais, acontece de menina ser proibida de jogar no campeonato masculino porque ela está lá com 12 anos querendo jogar e não tem time para ela jogar”, contou.

“O Centro Olímpico faz um trabalho muito bacana na Secretaria de Esportes de São Paulo. Ele tem sub-11, sub-13, sub-15, sub-17, a equipe principal dele, que é a que disputa o campeonato, passou em segundo em um grupo super difícil, é sub-20, que é a base da seleção sub-20 também. Então, provas que é o melhor a fazer a gente não precisa. Tem vários, tanto no masculino quanto no feminino”, continuou.

“A Federação está incumbida. Quando eu cheguei e tive essas primeiras conversas foi isso com o Fernando, com o Reinaldo. Eles sabem dessa necessidade. A Federação não vai medir esforços para ter o Campeonato Paulista de base para o ano que vem. Que idade vai ser ainda não sabemos, mas vai ter esse campeonato”, finalizou.

Profut vinculado a futebol feminino é bom ou ruim?

Um dos itens que foi muito discutido no Profut, a lei de financiamento das dívidas fiscais dos clubes brasileiros, foi a vinculação de gastos conquistados na loteria, a Timemania, com o futebol feminino. Se o clube conseguir alguma arrecadação,deverá gastar com futebol feminino.

“Eu acompanhei esse processo quando as coisas estavam sendo desenvolvidas. Pelo que eu sei de bastidores, não partiu do Bom Senso atrelar isso, partiu da presidenta [Dilma Rousseff]. Se você perguntar o que eu acho da obrigatoriedade dar certo? No futebol feminino a gente já tentou tanta coisa, vamos ver se dá”, analisou. “E na verdade, a lei, que está toda na minha mesinha, a questão do futebol feminino no Profut ele tá relacionado a Lotex. Então, os clubes que cederem a sua marca para poder fazer a loteria, com o recurso dessa loteria faria o futebol feminino. Ele só teria que fazer, só teria obrigatoriedade, através desse dinheiro. Se tiver esse dinheiro, você é obrigado a fazer, tem que fazer mesmo”, explicou.

“Todo mundo conhece a modalidade e sabe o que precisa ser feito. Acho que todo mundo tem a responsabilidade, independente da obrigatoriedade. Sabe da modalidade, que precisa ser fomentada, que precisa de oportunidade. É gradativo”, continuou.

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Seleção permanente e futuro da seleção feminina

Logo após o fim dos jogos olímpicos, se discutiu a possibilidade de acabar com a seleção permanente, o que causou muita repercussão. Ter uma seleção permanente é positivo para o futebol feminino brasileiro? Aline também falou sobre isso.

“A primeira vez que foi levantada a seleção permanente foi pelo Renê Simões quando voltamos da Olimpíada em 2004. E ali a gente não tinha calendário. Não tinha Campeonato Brasileiro, a última edição tinha sido em 2000. Não tinha calendário, não tinha Campeonato Brasileiro, não tinha Libertadores, não tinha Copa do Brasil. E aí ele vem, depois da Olimpíada de 2004, depois de uma medalha de prata, que ninguém esperava, com a sugestão de se criar uma seleção permanente que trabalhasse quatro anos até o final do próximo ciclo”, lembrou a então zagueira.

“O que acaba acontecendo no futebol feminino. Acaba Olimpíada de 2016, este ano não tem mais nenhuma competição oficial Fifa, nada. Vão ter alguns torneios ali, o torneio do final do ano aqui sempre, acabou. Em 2017, nenhuma competição oficial da seleção principal. Em 2018, tem Sul-Americano, normalmente é bem no final do ano, porque você precisa definir quem vai representar na Copa do Mundo, que é 2019. Em 2019 você tem Pan-americano e Copa do Mundo para em 2020 voltar a ter Olimpíada”, diz.

“Então, assim, da seleção principal, você fica praticamente dois anos sem competição nenhuma e dois anos com quatro competições importantes acontecendo ao mesmo tempo. É difícil conseguir trabalhar esses quatro anos, principalmente estes dois primeiros, quando não acontece nada, em função dos outros dois lá. Não é o que a gente tá mais acostumado a ver no Brasil como um todo, aí não só no futebol, às vezes para outras modalidades também”, disse.

“A seleção permanente atual foi montada exatamente nesses dois anos. Você tem uma comissão técnica do Vadão, que vem do masculino. Óbvio que conhece muito bem as atletas, tiveram pessoas do feminino ligadas a ele neste momento para ajudar. Eles entenderam por bem fazer essa seleção permanente para trabalhar bem esses dois anos e conseguir um bom resultado aqui na Olimpíada. Porque foi um trabalho desde o começo voltado para a Olimpíada. O foco foi mesmo tentar ganhar esta medalha de ouro”, contou ainda Aline.

“Aí você vai ter pontos positivos e pontos negativos disso. Hoje você tem campeonatos, hoje você tem mais clubes. A hora que você as tira para a seleção permanente, o clube tem que repor. Então não é de todo ruim. São jogadoras muito boas, elas estão lá defendendo o Brasil, ok, e você tem que repor aqui e trazer novas jogadoras com isso e podem aparecer novas jogadoras. É uma modalidade que ainda não tá desenvolvida, não está enraizada. Então você acaba em um primeiro momento passando a informação que ninguém pode ser comandada, até que isso foi explicado, não é bem assim, se alguém se destacar muito pode ter a sua oportunidade, porque às vezes é ruim”, continuou.

“Quando você ouve em um primeiro momento que não pode mais ser convocada, como você vai falar para uma jogadora que está sonhando que o principal que ela quer alcançar é uma porta que está fechada e que não pode mais? Então isso foi ajustado. Foram dois anos de muitos erros e acertos de coisas naturais que você nunca viveu em uma seleção permanente. E vamos ver como vai ser a sequência disso, se a seleção segue ou não. Porque aí você tem dois anos e meio que você fica sem competição. É uma seleção que tem três gerações juntas, acredito que as principais jogadoras devam parar”, analisou.

“O que eu penso, independente da seleção permanente ou não, é que tenha um planejamento legal para os próximos quatro anos. Porque vai ter que ter uma renovação, já está acontecendo, algumas jogadoras disputaram a sua primeira Olimpíada. Acho que o mais importante é pensar em um planejamento bem legal para o próximo ciclo de quatro anos. Se vai ser com seleção permanente ou não, não vai ter tanta importância”.

“O legal é você ter um planejamento bem claro sobre como isso será trilhado. Não tem competição? Então vamos usar para fazer amistosos em todas as datas Fifa para jogar. Todos os torneios que acontecem e tem alguns bem legais, vamos nos aproximar e tentar participar. O mais importante para a modalidade é pensar o ciclo de quatro anos. Independente se vai ser com uma seleção permanente, se não vai, mas pensar nesse ciclo de quatro anos”.

Seja como for o futebol da seleção, esperamos que o futebol feminino receba a atenção que merece. O futebol feminino claramente tem muito a crescer, mas com muitos problemas e muitos desafios também. A escolha de Aline Pellegrino para comandar o projeto no Departamento de Futebol Feminino na FPF é um bom passo. São Paulo, de fato, é o estado mais forte do futebol feminino e pode começar a mudança a partir de alguém preparada e com a vivência no futebol, dentro e fora de campo. Que Aline Pellegrino consiga, na FPF, o mesmo sucesso que teve em campo. O futebol feminino agradece.

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