O futuro é de Neymar e Pogba

Em um período em que dois atletas tão acima da média como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo disputam, ano a ano, o maior dos prêmios individuais no futebol, não entrar com força nesta briga não é demérito algum. Estar no primeiro patamar abaixo da dupla significa que você tem feito seu trabalho muito bem, mas ainda não é capaz de quebrar recordes atrás de recordes ou de impressionar o mundo de maneira poucas vezes vista. Com apenas 23 e 21 anos, nesta ordem, Neymar e Paul Pogba já têm muito do que se orgulhar pelo pouco tempo de carreira que tiveram.

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Messi tem 27 anos e sabe-se lá quanto tempo pela frente no auge, que parece ter recuperado em 2014/15. Cristiano Ronaldo já assoprou as velas 30 vezes, mas seu potencial físico faz parecer estúpida qualquer tentativa de projeção de quando encerrará sua carreira. Enquanto aprecia os dois, o mundo também já projeta quem serão os futuros concorrentes pela Bola de Ouro. Eden Hazard é um dos elencados nas apostas. Gareth Bale já foi mais, mas a temporada aquém de seu potencial o afastou temporariamente dessa lista. Suárez tem futebol de sobra para ser incluído, mas sua idade já é um tanto quanto avançada para que seja da geração a suceder o argentino e o português.

Restam poucos nomes, e alguns dos que de fato estarão nas disputas pelo prêmio de melhor do mundo podem sequer estar em evidência agora. No entanto, a impressão que mais se aproxima de ser unânime entre os que gostam desse exercício de imaginação é a de que Pogba e Neymar estarão nessa briga. O futuro parece ser deles, mas o presente também já lhes pertence, e, por essa temporada, os dois mereceriam lugar respeitável no Top 10, pelo menos. A ascensão da dupla em questão de poucos anos foi admirável, e é justamente ela e o talento evidente que demonstram que os tornam figuras importantes da final da Champions League deste sábado. Que nos fazem imaginar o que ainda têm a crescer.

Primeiros passos

Sem acordo para renovação com o Manchester United, Paul Pogba acertou a ida de graça para a Juventus no início da temporada 2012/13. Se um dos fatores para sua saída do clube inglês foi a falta de espaço no time titular, na Itália o francês encontrou uma situação bem diferente. Logo na primeira temporada, após uns poucos jogos atuando por alguns minutos, começou a ser utilizado com frequência pelo então técnico Antonio Conte. Ao fim daquela campanha, havia participado de 37 jogos, entre Serie A, Copa da Itália e Champions League — 20 deles completos.

O que estabeleceu de vez a conquista do posto de titular para Pogba na Juve foi a lesão sofrida por Marchisio no início da temporada seguinte, em 2013/14. Como o esquema de Conte era o 3-5-2, e dois desses meio-campistas eram alas, sobravam três vagas para os mais centrais, disputadas por quatro jogadores: Pirlo, Vidal, Marchisio e Pogba. O aproveitamento do espaço gerado pela lesão de Marchisio foi muito bom, e o francês fez então sua campanha com mais minutos em campo pelos Bianconeri, 4164, segundo o site Transfermarkt, contra 2263 em 2012/13 e 3245 em 2014/15 (sobretudo pela lesão de que teve que se recuperar entre março e maio deste ano).

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A chegada de Allegri e a mudança para um esquema que utiliza todos os quatro talentosos meio-campistas foi a confirmação de que um dos espaços era de Pogba. Seu crescimento individual pesou muito também, e a saída de Pirlo ao fim desta temporada significará um reforço ainda maior para a condição de titular do francês — isso se nenhum outro clube levá-lo na próxima janela de transferências.

“O que o Paul (Pogba) tem feito aos 21 anos de idade é enorme. Talvez estejamos falando sobre ele um pouco demais, mas, se ele mantiver seu desenvolvimento atual, ele pode se tornar um dos melhores jogadores da história. Para mim, ele é uma combinação de Claude Makélélé e Patrick Vieira.” –  Zinedine Zidane

Diferentemente de Pogba, Neymar chegou ao Barcelona muito visado e tendo que quebrar uma imagem construída a partir de seus tempos no Santos. Enquanto o francês era apenas um jovem de muito talento, mas que pouco havia ficado em evidência no Manchester United, o brasileiro chegava através de uma transação multimilionária, já como o principal jogador da seleção brasileira e com críticas quanto à sua condição de se adaptar ao jogo do Barça. Como alguém de características tão individualistas se encontraria no time que nos anos anteriores se solidificou como o time dos passes? Seja por intuição própria ou por conselhos de pessoas próximas, o camisa 11 lidou muito bem especialmente com essa última questão.

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A solução encontrada? Abusar ele próprio dos passes. Foi o mais altruísta que se pode esperar de alguém com o seu talento. Chegou dizendo que seu objetivo era ajudar Messi a seguir ganhando prêmios de melhor do mundo e, em campo, abria mão de lances em que podia ele próprio tentar o gol apenas para servir companheiros melhor posicionados. Uma postura  inteligente do atleta, que demonstrou justamente a paciência necessária para que ganhasse respaldo e votos de confiança para crescer no clube. Ganhou a simpatia dos companheiros, fortaleceu a parceria com Messi e só agora, aparentemente adaptado plenamente, começou a demonstrar mais suas principais armas: o drible e a verticalidade.

Crescimento individual

Cada um à sua maneira, Pogba e Neymar tiveram nesta temporada a comprovação de seu talento atual e o reforço das expectativas por trajetórias futuras ainda mais brilhantes. Em 2013/14, o francês já havia sido titular absoluto da Juventus, feito nove gols e dado assistência para outros 16, conquistado o Campeonato Italiano e destacado-se sobretudo pelos potentes e precisos chutes de fora da área. A habilidade em espaços curtos já era notável, mas foram as bombas indefensáveis que marcaram sua participação naquela campanha do tricampeonato da Velha Senhora. Foi em 2014/15, porém, mais especificamente em janeiro deste ano, que Pogba apresentou ao mundo seu futebol em sua melhor forma — e deixou questionamentos sobre qual seria seu limite.

No primeiro mês do ano, o francês poderia ser apontado por críticos como pelo menos merecer de um Top 3 na eleição de melhor do mundo, e contra-argumentar isso seria tarefa difícil. Mesmo em um ano brilhante de Carlitos Tevez, grande líder das duas conquistas nacionais até agora, as melhores atuações individuais vistas pelos Bianconeri no ano foram do francês. Com espetáculo atrás de espetáculo, encheu os olhos do mundo todo, foi o nome com mais rumores de transferências e levou seu empresário, Mino Raiola, até a falar que o Real Madrid, um dos interessados em sua contratação, precisaria desembolsar 100 milhões de euros para levá-lo.

Se sua primeira temporada foi quase que completamente dedicada à adaptação, tanto técnica quanto pessoal, ao Barcelona, esta segunda tem sido a do Neymar solto. Em 2013/14, o objetivo foi aprender, absorver, se entrosar com os companheiros e conquistar sua confiança. Agora, o camisa 11 está cada vez mais perto do futebol que apresentava no Santos, quando seus críticos diziam que o estilo não poderia ser reproduzido na Europa, contra adversários mais fortes. Os lances de genialidade, de deixar um bocado dos adversários comendo poeira, não são tão frequentes quanto nos tempos de futebol brasileiro, é verdade, mas a frieza para passar por adversários complicados como se jogasse uma partida da 7ª rodada do Paulistão aparece cada vez mais.

“Sabia que ele era famoso no Brasil, mas ele continua bastante humilde e é uma influência positiva em nosso vestiário. Ele é tão bom que, quando o Messi parar, será seu substituto. Será o melhor jogador do mundo, não tenho dúvidas.” – Xavi

Deixando de lado a importância do entendimento que desenvolveu com Messi e Suárez ao longo da temporada, sobretudo a partir deste ano, podemos apontar como grande fator para o crescimento do brasileiro no Barça a maneira como rapidamente mudou sua postura em jogadas de disputa física. A fama de “cai-cai” que Neymar conquistou no Brasil foi para a Europa com o jogador, e esse era o argumento que aqueles que não gostavam do brasileiro mais usavam para atacá-lo. O camisa 11 pode não ter chegado ao nível de Messi nesse quesito, mas a evolução é inquestionável. Tão notável que até produziram um vídeo, contrastando lances da última e da atual temporada.

Momento

Pogba viveu um mês de janeiro incrível, com golaços, lances de muita plasticidade e com todos os holofotes sobre si. Era difícil manter aquele nível por tanto tempo, e a lesão em março foi o breque final para o melhor momento do francês na Juventus. De volta desde o mês passado, se reencontrou com o gramado no empate por 1 a 1 com o Cagliari. A já campeã Juve não tinha muito pelo que lutar na partida, mas o camisa 6 foi a boa notícia para os torcedores, sendo o melhor do time, fazendo um gol e dando esperança aos Bianconeri de que ainda tem condições de fazer a diferença na reta final da campanha.

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Já Neymar teve uma temporada quase toda muito boa. Na primeira metade, aperfeiçoou sua dupla com Messi e balançou as redes frequentemente. A partir de janeiro, diante do ensaio de uma crise no Barcelona, reagiu ao lado do argentino e de Suárez, que cresceu de produção, e o trio atropelou os adversários até chegar ao recorde estabelecido no último final de semana, de 120 gols marcados pelo tridente.

Nesse meio tempo, Neymar passou por um período de pouca sorte, perdendo chances incríveis de gol em partidas consecutivas, como no clássico contra o Real Madrid, em março, mas recuperou-se emplacando uma sequência de sete jogos consecutivos balançando a rede, entre abril e maio, igualando marca de Messi em 2010/11. A frieza com que ajudou a definir a classificação diante do Bayern, em Munique, e com que lidou com as críticas após a carretilha contra o Athletic Bilbao, na decisão da Copa do Rei, mostram que o craque está pronto – e leve – para fazer a diferença em sua primeira final de Liga dos Campeões.