O sucesso da Netflix fez muitos apaixonados por esporte sonharem em uma plataforma que faça algo similar, mas com transmissão ao vivo de esportes. O que vemos nos Estados Unidos é um caminho que parece uma tendência mundial: a venda de serviços de streaming de esportes diretamente ao consumidor. ESPN e Turner (que é dona do Esporte Interativo no Brasil) já indicam esta direção.

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Nos Estados Unidos, a fuboTV é um início disso. Neste mês de outubro de 2017, o serviço atingiu a marca de 100 mil assinantes. O serviço oferece muitos canais de esportes e eventos, como La Liga, Ligue 1, Serie A, MLS, Liga MX e Campeonato Português, para ficar nos eventos de futebol. Esta é uma alternativa que, por lá, é destinada a nichos. Afinal, os dois esportes mais populares são NFL e NBA e estes ainda estão vinculados à TV a cabo. Mas a tendência é clara.

O caminho da ESPN americana

A Disney anunciou em agosto que trabalha para criar uma plataforma própria de streaming, algo como a sua própria Netflix, incluindo filmes da Pixar e conteúdos exclusivos, para 2019. O que isso tem a ver com esporte? A Disney é dona da ESPN, que terá um novo serviço de streaming lançado já em 2018. E a Disney/ESPN não é a única. Este parece ser um caminho buscado pelas emissoras.

Com a ideia de criar um serviço de streaming próprio, a Disney irá retirar todo o seu conteúdo da Netflix até dezembro de 2018. É uma estratégia escolhida para lidar com a perda constante de assinantes na TV a cabo. Segundo informado pela Disney, a plataforma irá aproveitar toda a fartura de conteúdo que a empresa já possui, mas irá fazer um “investimento significativo” em conteúdos exclusivos, como filmes e séries, na nova plataforma.

A ESPN, de propriedade da Disney, terá um novo serviço de streaming já no início de 2018. O serviço de streaming da ESPN não oferecerá aos assinantes os canais da emissora, e sim um conteúdo específico. A plataforma trará cerca de 10 mil eventos esportivos por ano, incluindo MLB, NHL, MLS, esportes universitários e torneios Grand Slam de tênis. O serviço não irá incluir os dois esportes que mais dão audiência aos canais de TV da ESPN: a NFL e a NBA. Isto, porém, é só o começo e o serviço pode ganhar força com o tempo.

Segundo Bob Iger, CEO da Disney, a ESPN é capaz de entregar um serviço de streaming de todos os seus canais diretamente ao consumidor, se o número de assinantes da TV a cabo diminuir muito, mas indicou que haveria um impacto significativo nas receitas que a empresa recebe de operadoras e TV a cabo e por satélite. “Se quisermos levar a ESPN diretamente [aos consumidores], poderíamos”, disse Iger.

Iger afirmou, porém, que oferecer um serviço de streaming (over-the-top, como descrevem os americanos) teria um efeito nos acordos com as operadoras de TV, que ele descreveu como “insuficientes” – o que, por si, já indica que o caminho da venda direta é olhado com carinho. A ESPN é quem mais fatura individualmente por assinante. Segundo a SNL Kagan, uma empresa de inteligência de mercado, a ESPN recebe cerca de US$ 7 a US$ 8 por cada assinante que possui os canais do grupo.

Segundo a empresa de pesquisa Nielsen, 62% de todas as casas americanas (algo em torno de 73 milhões) usam atualmente televisões conectadas à internet ou dispositivos de vídeo streaming. Nestas casas, os vídeos em streaming consumidos pelo público de 25 a 34 anos representam 23% do tempo de uso da TV. Isso explica porque pessoas desta idade, segundo a pesquisa, têm optado por não assinar um serviço de TV a cabo.

A questão é tão importante que a Disney se tornou dona de 75% das ações da BAMTech (e, portanto, se tornou majoritária), criada pela MLB Advanced Media e já responsável pelos serviços de streaming tanto da MLB quanto da NHL, além de serviços parrudos como a HBO Now. A lista de clientes continua com o PGA Tour (o circuito de golpe profissional), Riot Games (responsável pelo consagrado League of Legends), além do próprio WatchESPN, a WWE Network e o serviço de streaming Hulu.

“Isso representa uma grande mudança estratégica para a empresa”, afirmou o CEO da Disney, Bob Iger. “Nós sentimos que ter o controle de uma plataforma que nos deixou muito impressionados, depois de comprar 33% das ações um ano atrás, nos daria controle do nosso destino”, continuou o executivo, em entrevista à CNBC.

A mudança de estratégia não é à toa. Entre 2013 e 2015, a ESPN americana, que é a maior emissora de esportes dos Estados Unidos, perdeu cerca de sete milhões de assinantes, o que equivale à perda de US$ 1,3 bilhão em receitas. Se voltarmos até 2011, os números são ainda mais impressionantes: a ESPN tinha 100 milhões de assinantes. Agora tem 87 milhões. A tendência nos Estados Unidos é parecida com o que vemos no Brasil: queda de assinantes da TV a cabo e alguns mudando para pacotes menores, ficando sem a ESPN.

A plataforma digital da ESPN já existe nos Estados Unidos e no mundo, o WatchESPN. A ideia seria reforçar esse serviço, o tornando mais parrudo e oferecê-lo à parte, como a HBO fez com o seu HBO Go. Com isso, o canal poderia estancar uma parte das perdas de assinantes, que poderia trocar a TV a cabo mais cara por este serviço, vendido diretamente ao consumidor. Atualmente, usar o WatchESPN exige ser assinante de TV a cabo. Mas este é um caminho que pode mudar e já há precedentes.

O tamanho que a ESPN tem nos Estados Unidos é imensurável no Brasil. O seu poder financeiro e de influência é muito superior, por exemplo, ao do SporTV no Brasil. A ESPN é enorme e é o maior canal de esportes dos Estados Unidos. Por tudo isso, uma mudança de política e investimentos tão pesados em serviços de streaming direto ao consumidor, a sua Netflix, tem capacidade grande de causar um grande impacto no mercado e impulsionar mudanças em 2018.

Turner: Champions League só no streaming pago

A Turner Sports comprou os direitos da Champions League para os Estados Unidos no triênio 2018 a 2021 e trouxe uma inovação controversa por lá: cerca de 80% dos jogos serão transmitidos via streaming, em um serviço de assinatura pago. Já viu algo parecido? Não é por acaso.

A Turner é dona do Esporte Interativo aqui no Brasil e faz exatamente isso: oferece o EI Plus, um serviço online que permite que você assista não só os canais, mas também eventos exclusivos. Embora os principais canais de esporte no Brasil possuam serviços de streaming, como SporTV Play e WatchESPN, eles só são acessíveis para assinantes da TV a cabo. O serviço do EI Plus está disponível para quem quiser. É a venda direta ao público.

Aqui no Brasil isso já causou discussões. A escolha dos jogos que irão para os canais de TV e quais ficarão exclusivos no serviço por assinatura causa reclamação de usuários, o que é compreensível. Quem já é assinante de TV a cabo não quer pagar a mais para assistir os jogos.

Em um caminho similar, a Fox lançou o Fox Premium, um serviço de streaming com conteúdos dos seus canais on demand, além de outros exclusivos. O formato é parecido com o Netflix, assim como o preço.

Atualmente, o serviço ainda oferece transmissão de esportes ao vivo gratuita para os assinantes da TV a cabo, mas o mecanismo já está pronto para começar a oferecer direto ao usuário final, assim que a empresa quiser.

O papel das operadoras de TV a cabo

O modelo de negócio de cobrar por um serviço de streaming, como a Netflix, parece ser um caminho que os canais de esporte também querem percorrer. Pode ser o começo de uma mudança importante para a transmissão de esportes e para os próprios canais.

Com as ofertas cada vez maiores de serviços de streaming vendidos diretamente ao consumidor, inclusive dos canais de TV mais tradicionais, a questão é o que as operadoras de TV a cabo farão a respeito disso. Lutar contra a existência desse tipo de serviço, impedindo, por exemplo, seus canais de oferecem streaming direto ao consumidor, parece ser um caminho que só adia o inevitável.

Talvez o caminho seja as operadoras, que são justamente quem ainda têm muito dinheiro para investir, venderem uma espécie de Netflix dos esportes. A Net, por exemplo, já tem o seu Now, que funciona em um esquema similar ao da Netlifx (mas com uma interface horrível e muito pior de mexer, especialmente na TV, além de ser muito mais caro um pacote básico da Net que assinar a Netflix). Poderia criar um pacote de assinatura exclusiva de esportes. A questão, aqui, é a precificação.

Afinal, atualmente as operadoras já oferecem complementos para o seu pacote, como o pacote de esportes (que custa entre R$ 21 e R$ 25). Só que, para isso, é preciso já ter um plano (que custará por volta de R$ 80, pelo menos). E o pacote de esportes não inclui o Premiere, canal para quem quer assistir ao Campeonato Brasileiro. Só isso já são mais R$ 100.

Então, alguém que queira ter todos os canais de esporte da operadora, incluindo o Premiere, e possa ter acesso aos serviços de streaming que usam credenciais da operadora, gastará ao menos algo em torno de R$ 225. Isso sem falar que para pagar isso, é preciso ainda assinar outros serviços, como telefone fixo e internet, e normalmente ainda se vincular a uma fidelidade de 12 meses.

Ou seja: estamos muito longe de ter atualmente uma Netflix dos esportes. Só que o caminho, nos Estados Unidos especialmente, parece ser esse. A Disney já deu a letra que esse será o seu investimento para 2018 e 2019. Essa tendência pode abrir mais o mercado com possibilidades e criar uma gama maior de opções, o que, em tese, poderia fazer com que o preço baixasse.

No Brasil, é difícil acreditar nisso, dado o histórico de capitalismo de compadrio, com todas as operadoras oferecendo serviços similares por preços quase iguais. Quem sabe se o EI Plus, do Esporte Interativo e da Turner, possa ser uma tendência a forçar o preço para baixo, com outros canais aderindo à venda direta ao público, e não mais via operadora.

Talvez aí as operadoras voltem a fazer a sua função de justamente reunirem os canais por um pacote de preço mais atraente – como, aliás, era a ideia inicial. As operadoras têm muito dinheiro e ainda têm muito poder, mas precisam começar a oferecer algo mais próximo ao que querem os usuários. A Netflix causou um impacto gigantesco e outras como a Amazon também estão sedentas por fazer mais. Gigantes como Google e Facebook já olham com bons olhos compra de direitos de transmissão de esportes ao vivo.

Os canais de esporte e as transmissões ao vivo funcionam para as operadoras de TV por assinatura como como uma loja âncora para um shopping. Todo shopping tem uma Renner, uma Casas Bahia, uma Riachuelo, C&A, ou mesmo McDonald’s, Pizza Hut e Burger King em termos de alimentação. São lojas que atraem clientes e ajudam a tornar o shopping mais atraente aos clientes.

Atualmente, canais de esporte e pay per view, como o Premiere para o Campeonato Brasileiro, são as lojas Renner da TV a cabo. Só que a ameaça do over-the-top, os serviços de streaming, podem acabar com esse domínio das operadoras. A não ser que elas olhem para os serviços e comecem a oferecer algo mais interessante – e mais barato. Uma gigante americana como a ESPN pode mudar o jogo. Os dados estão rolando.