Nos acostumamos a ver a ESPN como uma concorrente do Fox Sports, especialmente porque este segundo começou a operar no Brasil há pouco mais de dois anos. Só que em alguns casos, as emissoras são parceiras e, como mostra esse caso nos Estados Unidos, tudo depende de quem é o concorrente. Em território americano, a ESPN não só faz parceria com o Fox Sports como incentiva o seu crescimento. Tudo para impedir que um canal rival possa fazer frente e ele dentro das operadoras de TV a cabo. E a próxima investida do canal pode ser comprar os direitos do Campeonato Inglês para exibi-los nos Estados Unidos, que atualmente são da NBC Sports.

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É importante ponderar que a ESPN nos Estados Unidos é uma emissora gigantesca, simplesmente a maior de todas quando se fala em esportes. O canal está em 97,3 milhões de lares americanos e recebe US$ 5,40 por assinante que possui. O ESPN2, o segundo canal da emissora, recebe US$ 0,68 por assinante. A ESPN arrecada, então, mais de US$ 7,5 bilhões só do dinheiro originário das assinaturas por ano. Uma baita receita, convenhamos.Segundo a Forbes, o valor estimado da ESPN é de US$ 50,8 bilhões, e corresponde a 36% do valor total da Walt Disney Company, dona da emissora.

Por isso é tão importante para o negócio da ESPN que ela não tenha uma concorrente à altura em termos de receitas. A ESPN consegue ser quem é porque além da credibilidade que tem, é dona de direitos dos mais importantes esportes americanos. E gasta uma fortuna para isso. A emissora é dona do Monday Night Football, por exemplo, o futebol americano das segundas-feiras, transmitido no horário nobre. Para isso, paga US$ 1,9 bilhão por ano. A ESPN gasta ainda mais de US$ 1,3 bilhão por ano em esportes universitários.

Com isso, você já tem uma dimensão sobre o tamanho da ESPN nos Estados Unidos. Então, por que um gigante como esse se interessa em se unir e fortalecer o Fox Sports, que em tese é um grande concorrente? Bom, a razão é bem simples. O concorrente que tem crescido no país é a NBC Sports, braço da NBC, que é um canal aberto. A NBC Sports é muito menor que a ESPN, mas um detalhe a torna perigosa: a sua dona é a Comcast, uma distribuidora de TV por assinatura, assim como NET e Sky no Brasil, por exemplo.

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Se a NBC Sports crescer demais, pode dar vantagem à Comcast sobre a ESPN no valor de pagamento por assinante, que é a sua grande fonte de receita. Tudo que a ESPN não precisa é que um canal de uma operadora se torne um concorrente justamente no seu maior aspecto. Atualmente o NBC Sports Network (NBCSN) arrecada R$ 0,31 por mês e chega a 78 milhões de lares americanos, uma receita de US$ 290 milhões anuais. A NBC tem focado em comer pelas beiradas, pegando esportes de nicho, que tenham base de fãs fiéis. O canal pode pagar US$ 83,3 milhões por ano para ter a Premier League e US$ 200 milhões por ano para ter a National Hockey League (NHL), mas se os valores aumentarem demais, a situação se complica e o canal precisará que o grupo ao qual pertence coloque dinheiro, porque o canal não gera tanta receita para isso.

Se a NBC, um canal gigantesco, quiser mesmo investir, ele pode. Tem capacidade financeira para colocar dinheiro na mesa e comprar os direitos. O canal teve receitas líquidas de US4 1,87 bilhão no último trimestre e de US$ 1,91 bilhão no trimestre anterior. O canal gastou US$ 7,75 bilhões para manter os direitos de transmissão das Olimpíadas por exemplo e é um canal aberto, é bom lembrar. Além disso, assinou um contrato de 10 anos com a Nascar no valor de US$ 4,2 bilhões. O canal aberto gera receita suficiente para isso. Só que o canal de esportes não gera receita para tudo isso e a ideia da NBC é que o seu canal de esportes só gaste dentro do que arrecada.

Isso significa que se a ESPN e o Fox Sports fizerem uma proposta de US$ 200 milhões por ano pela Premier League, como se fala, e a NBCSN quiser cobrir, a Comcast terá que permitir seu canal de esportes gaste mais do que arrecade. E, bom, se a emissora quer mesmo fazer isso, talvez valha a pena fazer em um evento mais lucrativo e importante, como tentar tirar a NBA da ESPN por US$ 2 bilhões em 2016, quando vence o próximo contrato. Seria um movimento muito arriscado.

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Não por acaso, a ESPN e o Fox Sports se uniram recentemente. A ESPN, aliás, teria incentivado a Fox a criar um canal de esportes nacional – antes a emissora só tinha canais de esporte regionais. Não é difícil entender o incentivo da ESPN ao crescimento do Fox Sports: todo assinante de TV a cabo que tem o Fox Sports também tem a ESPN. Ou seja, se você mora nos Estados Unidos e só assiste Fox Sports na sua TV, mesmo assim US$ 5,40 do valor que você paga à sua operadora de TV por assinatura vai para a ESPN. Ela ganha de qualquer jeito. Por isso fazer o Fox Sports crescer não é um problema, ao menos nesse momento.

Nos últimos quatro anos, as duas emissoras concordaram em pagar US$ 1,2 bilhão por ano para ter a Major League Baseball, US$ 200 milhões por ano para ter a Big 12 College e outros US$ 200 milhões para ter a Pac-12 College, duas das principais ligas universitárias do país e os esportes nela envolvidos (basta lembrar que o segundo evento esportivo de maior audiência nos Estados Unidos, depois da NFL, é a liga de futebol americano universitário). O próximo alvo dessa parceria é o futebol. E já começou a acontecer.

Há alguns dias, a ESPN e o Fox Sports renovaram os direitos de transmissão da Major League Soccer, a MLS, por oito anos a um valor de US$ 75 milhões por ano, um valor quatro vezes maior que o contrato anterior. Pouco perto das grandes ligas americanas, mas suficientemente relevante para os dois gigantes acharem que é importante comprar e não deixar para a NBC Sports.

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A ideia da ESPN e do Fox Sports é comprar a liga de futebol que mais dá audiência no país, a Premier League, que está com a NBC Sports e teve uma boa audiência. Por lá, o que dá mais audiência em termos de futebol é Copa do Mundo, jogos da seleção mexicana e jogos da seleção americana. A Premier League vem logo em seguida. Por isso é tão importante. E, mais do que isso, é importante para a ESPN manter o NBCSN com o menor número de eventos grandes possíveis para impedir o seu crescimento e dar uma vantagem ao canal na Comcast. A NBCSN tem o hóquei e automobilismo (o canal é dono da F1 e da Indy, que geram pouco interesse no país, além da Nascar). A ESPN quer permitir que o canal tenha pouco além disso e não consiga ir além do público que já tem.

No Brasil, ESPN e Fox Sports são atualmente mais concorrentes do que parceiros, embora dividam os direitos de transmissão da Premier League, como pode acontecer também nos Estados Unidos. Mas não deixa de ser curioso que suas matrizes passem a agir assim e não seria surpresa se o sucesso dessa iniciativa nos Estados Unidos fizesse com que os canais pensassem em algo similar.

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