Kempes tabela na intermediária com Passarella, se infiltra pelo meio e chuta por baixo de Quiroga. Tarantini aproveita cobrança de escanteio e marca de cabeça sem precisa tirar os pés do gramado. Mais um cruzamento, Kempes escora com o peito, recebe de volta de Luque e, de frente para o gol, manda para a rede. Larrosa vai para a linha de fundo, cruza para Passarella que toca de cabeça para o meio, onde encontra Luque, que, quase sobre a linha, desvia para o 4 a 0. A defesa não dá combate, Ortiz entra pela esquerda e toca rasteiro para Houseman fazer mais um. A defesa erra bisonhamente uma saída de bola, Larrosa rouba e toca para Luque chutar no canto de Quiroga.

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Quando o brasileiro pensa em um Argentina x Peru por Copa do Mundo, se lembra desses seis lances. Os gols de um improvável – e bastante, digamos, “polêmico” – 6 a 0 que levou os argentinos à final em 1978, deixando o Brasil – que passaria com qualquer vitória por menos de quatro gols de diferença – para a disputa do terceiro lugar. Mas a história do confronto entre alvicelestes e alvirrrubros em Mundiais é maior que essa. E terá um novo capítulo em outubro, quando as duas seleções se encontrarão em um confronto decisivo pelas Eliminatórias Sul-Americanas para a Rússia-2018.

Em Copas, o único duelo foi realmente o de Rosário em 21 de junho de 1978. No entanto, as Eliminatórias já foram palcos de três encontros marcantes em Buenos Aires. E, em todas as vezes, a Argentina sofreu muito mais do que se esperava diante de um adversário com tradição muito menor.

1969

O Grupo 1 das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do México foi muito equilibrado. Argentina, Bolívia e Peru brigavam por uma vaga e os mandantes haviam vencido todos os jogos quando argentinos e peruanos se encontraram para a última partida. Uma vitória alviceleste produziria uma tríplice igualdade, obrigando a realização de partidas de desempate. Qualquer outro resultado colocaria o Peru no Mundial e a Argentina de Cejas, Brindisi, Yazalde e Perfumo na lanterna.

Para aumentar a pressão sobre os peruanos, a AFA decidiu mandar a partida em La Bombonera (ideia já levantada para o próximo duelo, em outubro). Não funcionou. O Peru teve o controle do jogo, fez 1 a 0, cedeu o empate, fez 2 a 1 e só deixou a vitória escapar com um gol de Rendo aos 44 minutos do segundo tempo.

Pela primeira – e até hoje única – vez a Argentina ficava de fora da Copa por não passar pelas Eliminatórias (os argentinos não jogaram em 1934, 38, 50 e 54 porque não quiseram).

1985

Novo confronto direto para fechar o grupo das Eliminatórias. O quadrangular entre Argentina, Colômbia, Peru e Venezuela dava uma vaga automática ao campeão e enviava segundo e terceiro colocados para uma repescagem sul-americana contra os segundos das outras chaves. Com Maradona, Passarella, Burruchaga e Valdano, os argentinos dominavam a disputa, mas, na penúltima rodada, perderam para os peruanos em Lima. A diferença caiu para um ponto e nova vitória peruana, dessa vez em Buenos Aires, daria a vaga aos alvirrubros.

A Argentina saiu na frente com Pasculli, mas tomou a virada ainda no primeiro tempo, com gols de Velásquez e Barbadillo. A pressão cresceu e os argentinos não conseguiam furar a defesa peruana. Até que, em uma confusão na área, um atacante reserva tocou para a rede, dando o empate e a classificação à Alviceleste. O herói: Ricardo Gareca, atual técnico da seleção peruana.

O resultado deu a classificação à Argentina, que acabou campeã do mundo no ano seguinte. O Peru foi eliminado pelo Chile na repescagem e não foi ao Mundial do México, nem a qualquer outro. Os peruanos não disputam uma Copa desde 1982, e, depois do trauma de 1985, só passaram perto uma vez, em 1998 (perderam no saldo de gols para o Chile depois de tomar 4 a 0 no confronto direto na penúltima rodada).

2010

O Peru fez uma campanha sofrível nas Eliminatórias para a Copa da África do Sul. Chegou à penúltima rodada como lanterna, com apenas duas vitórias e quatro empates em 16 jogos. Um adversário ideal para a Argentina, que fazia uma campanha decepcionante sob o comando de Maradona e corria sério risco de ir para a repescagem.

Era para ser um passeio argentino no Monumental de Núñez, mas a pressão deixou o time tenso. Nem com Aimar, Messi, Higuaín e Di María o ataque alviceleste funcionava. O Peru jogava no erro do adversário e ameaçava. Ainda assim, Higuaín abriu o marcador pouco após o intervalo. A vitória apertada se aproximava, quando Rengifo empatou aos 44 minutos do segundo tempo.

O empate deixaria a Argentina na quinta posição com 23 pontos, fora da zona de classificação automática para a Copa.  Com isso, a equipe de Maradona teria a obrigação de vencer o Uruguai (24 pontos) fora de casa na última rodada para ir ao Mundial. Se tropeçasse em Montevidéu, correria o risco de nem ir à repescagem, pois dependeria do resultado do Equador.

No desespero, a Argentina se lançou a um abafa nos acréscimos. Aos 47 minutos, Palermo fez o gol da vitória. Com 25 pontos e a quarta posição na tabela, os argentinos jogaram a obrigação da vitória sobre os uruguaios e acabaram aproveitando para vencer por 1 a 0 e garantir a vaga na Copa. O Uruguai se classificou apenas na repescagem, contra a Costa Rica.