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A esquizofrênica torcida da Fonte Nova queria apenas uma coisa: diversão

SALVADOR - “Tio, é por aqui que o Cristiano Ronaldo vai passar? ”. O segurança do portão por onde entram os ônibus na Arena Fonte Nova se cansou de ouvir essa pergunta. Não era uma multidão propriamente dita, mas dezenas de pessoas aglomeravam-se ali, com camisas número 7 da seleção portuguesa, para ver o craque que treinaria no gramado em alguns minutos. O carinho da torcida baiana pelo melhor jogador do mundo no último domingo talvez não tenha entrado no estádio nesta segunda-feira ou evaporou diante do toque de bola encantador da seleção alemã e das suas próprias firulas.

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Os primeiros lances de Cristiano Ronaldo ganharam aplausos na derrota por 4 a 0 para a Alemanha. Um passe de calcanhar no meio-campo foi muito celebrado. A arrancada que terminou com Hugo Almeida livre para finalizar, também. A frustração foi evidente quando Ronaldo parou nas mãos de Manuel Neuer, depois de uma roubada de bola de Miguel Veloso. Todos queriam ver um gol do melhor jogador do mundo.

A torcida pouco a pouco começou a se virar contra ele, no entanto. No fim do primeiro tempo, dominou uma bola na ponta esquerda da área, deu uma pedala e penteou (nenhum trocadilho com o cabelo dele). Uma gracinha sem efeito prático, que poderia, porém, agradar os jovens, sempre afeitos a uma fanfarronice. Houve vaias, muitas vaias. Depois do intervalo, enquanto se preparava para uma cobrança de falta, a mesma coisa.

A verdade é que os brasileiros envoltos entre as 51.081 pessoas que estiveram na Arena Fonte Nova não estavam certos do que queriam fazer. Vaiaram o árbitro, quando o pênalti foi marcado a favor da Alemanha, no primeiro tempo, e também o craque dos portugueses. O momento mais curioso, na etapa final, foi quando esboçou um canto de olé ao mesmo tempo em que reprovou o toque de bola luso. E Portugal estava apanhando.

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De um jeito ou de outro, foi um show na Arena Fonte Nova. A torcida, digamos, interessada diretamente no jogo esteve bastante dividida. A alemã era mais organizada: tinha dois grupos vestidos de branco nas arquibancadas, um logo abaixo da tribuna de imprensa e outro à esquerda. Os portugueses estavam espalhados pelo estádio, mas uniram as suas vozes na hora de cantar o hino nacional, um dos momentos mais arrepiantes da partida. Depois, calaram-se, afinal, o que gritar em uma derrota por 4 a 0 na estreia da Copa do Mundo? Foram obrigados a ouvir as músicas indecifráveis da Alemanha ao ritmo de Seven Nation Army, do White Stripes, a música oficial das torcidas de seleções.

Já os brasileiros, no geral, quiseram mesmo foi se divertir, independente de quem estivessem vaiando ou aplaudindo.  Entoando o clichê “Sou brasileiro com muito orgulho e muito amor”, sem a Seleção estar em campo, ou fazendo a “ola” ao lado dos visitantes. Nessa esquizofrenia, a torcida que afagou Cristiano Ronaldo foi a mesma que o apedrejou.