O mundo olhará ao leste da Europa ao longo das próximas semanas. A Copa do Mundo de 2018 colocará a Rússia no centro das atenções, entre a maratona de jogos e também a exposição cultural do país. Mas, como se fosse um prêmio de consolação aos vizinhos, a Uefa já inclinou o continente ao oriente neste sábado, condecorando Kiev com a final da Liga dos Campeões. Apenas pela terceira vez na história, um país da antiga Cortina de Ferro receberá a principal decisão europeia de clubes. E a partida entre Liverpool e Real Madrid também exaltará um dos estádios mais icônicos do planeta: o NSC Olimpiyskiy, símbolo do passado conturbado e também da afirmação recente.

Raros estádios na Europa Continental superam 100 anos de sua construção. Num esporte que se redimensionou ao longo das décadas, a maioria absoluta dos clubes se mudaram de casa neste longo período. Dentro de suas persistentes reformas, o Estádio Olímpico de Kiev ainda não atingiu a marca centenária a partir de sua construção, mas apenas por conta do período conturbado que atravancou as suas obras.

Importante centro cultural e comercial no Império Russo, Kiev iniciou os planos para a construção de seu grande estádio em 1914. As ideias foram congeladas pelo estado logo depois, com o início da Primeira Guerra Mundial. A cidade não foi palco das batalhas, mas as consequências seriam determinantes. Em 1917, Kiev se tornou capital da República Popular da Ucrânia, país que proclamaria a sua independência dentro da Revolução Russa. Apesar de curto, o período serviu para ampliar o status político e cultural da cidade. No entanto, logo o território se tornaria zona de guerra, nos conflitos que envolviam ucranianos, soviéticos e poloneses.

Mesmo durante levantes e batalhas, o projeto do estádio voltou à tona em 1919, logo engavetado pela instabilidade política. A relativa tranquilidade só aconteceu em 1922, com o fim dos conflitos e a vitória final dos bolcheviques. A Ucrânia se tornou uma das repúblicas da União Soviética. Kiev, suplantada por Kharkiv como capital, seguia com sua relevância, inclusive econômica. Assim, enfim os bolcheviques concluíram o plano de erguer o estádio.

O engenheiro L. I. Pilvinskiy foi o responsável pelo planejamento e pelas obras, tocadas a toque de caixa. A construção aconteceu no Oleksiivsky Park, local da exibição do Império Russo em 1913, mas destruído pelas guerras. Não à toa, as arquibancadas foram levantadas a partir das ruínas deixadas pelos conflitos. A inauguração aconteceu em 12 de agosto de 1923, apenas meses depois da abertura de Wembley. O estádio seria palco das “spartakíadas ucranianas”, competição poliesportiva comum nas repúblicas soviéticas. Inicialmente, a arena foi batizada como Estádio Vermelho Leon Trotsky. A morte de Lênin e a disputa política com Stalin, porém, fariam que o nome de Trotsky fosse suprimido da homenagem logo em 1924.

O Estádio Vermelho foi importante para impulsionar os esportes de massa em Kiev. Diversas competições aconteciam no local, inclusive o campeonato regional de futebol. O campo se tornaria a casa dos principais clubes da cidade, entre eles o Dynamo, antes que seu próprio estádio fosse construído na década seguinte.

A década de 1930 seria calamitosa a Kiev. Entre 1932 e 1933, a cidade enfrentou o Holodomor, a grande fome que matou entre 3,3 e 7,5 milhões de pessoas na Ucrânia – considerado por 16 países como um genocídio conduzido planejadamente por Stalin para suprimir a oposição. Já em 1934, Kiev voltaria a se tornar a capital da república soviética ucraniana, um movimento que até reafirmava a importância local, mas aumentava autoritarismo promovido por Moscou.

Neste cenário, Kiev seria integrada ao planejamento nacional que previa o fortalecimento dos esportes. O Estádio Vermelho não seria mais suficiente e, a partir de 1935, ele começou a ser reconstruído. O arquiteto Mikhail Grechina seria o responsável pelo projeto do Estádio Republicano, para 50 mil pessoas. Ao longo das décadas seguintes, Grechina também cuidaria das seguidas renovações e complementos ao local. As obras aconteceram num terreno adjacente ao Estádio Vermelho, envolvendo dezenas de milhares de operários. Mais do que um grande palco ao futebol ou ao atletismo, nascia ali um complexo esportivo nacional para diversas modalidades.

A reconstrução durou cinco anos. Em 22 de junho de 1941, previa-se um grande evento para a reabertura do Estádio Republicano. Secretário do partido comunista da Ucrânia e futuro presidente soviético, Nikita Khrushchev seria homenageado com o nome da arena. Além disso, Dynamo Kiev e o atual CSKA Moscou se enfrentariam para marcar a inauguração. A festa, todavia, nunca aconteceu. Pela manhã, a Luftwaffe (a força aérea alemã) rasgava os céus de Kiev e começava a bombardear a cidade, em meio à Operação Barbarossa. A ocupação nazista se estabeleceu, tornando o estádio um assunto irrelevante em meio à devastação.

As estimativas apontam que um quarto da população de Kiev, cerca de 100 mil pessoas, foram executadas pelos nazistas até novembro de 1941. Parte dos habitantes tentou fugir, outros tantos acabaram deportados e submetidos a trabalhos forçados. Quem ficou na cidade ficava vulnerável aos mais diferentes tipos de penúrias. A capital era palco de crimes contra a humanidade (como os extermínios de judeus em Babi Yar) e a população vivia em extrema miséria, com ainda mais mortos por inanição ou doenças. Em contraposição aos que permaneceram para a resistência, ainda havia diversos colaboracionistas.

Sob a condução de uma eugenia dos nazistas, Kiev ganhou um pouco mais de trégua a partir de 1942. E, nisso, o Estádio Republicano voltou à cena para transmitir uma sensação de normalidade. Os atletas que decidiram colaborar com o regime ganharam privilégios. Assim, surgiu o Rukh, clube que se tornou o novo dono do “Palácio de Esportes” – como foi rebatizado o estádio. Em 12 de julho de 1942, aconteceu a inauguração oficial promovida pela ocupação. Cerca de 15 mil pessoas estiveram presentes na cerimônia, incluindo alemães e soldados. Nesta mesma época, foi formado o FC Start, clube composto por ex-jogadores de Dynamo e Lokomotyv que não aceitaram colaborar com os nazistas. Já no hoje decrépito Estádio Zenit, ocorreu o famoso “Jogo da Morte”, em que o Start venceu o Flakelf – formado por membros da brigada antiaérea da Luftwaffe. A vitória por 5 a 3 dos locais é um marco, apesar das discussões historiográficas.

O período de benesses aos colaboracionistas e nazistas em Kiev durou pouco. A cidade acabou retomada pelo Exército Vermelho em novembro de 1943. Durante os conflitos, porém, o Estádio Republicano sofreu as consequências. Acabou atingido por bombas e tiros, assim como serviu de abrigo para soldados de ambos os lados da guerra. Os nazistas chegaram mesmo a utilizar o local como uma garagem e, durante a sua retirada, destruíram as estruturas. O complexo esportivo precisou passar por nova reforma, que contou com a ajuda da população que reconstruía a capital.

A nova inauguração aconteceu em 25 de junho de 1944, em cerimônia solene dos soviéticos. Três anos depois, enfim, era realizada a partida entre Dynamo Kiev e CSKA Moscou. Ingressos para o evento de 1941 ainda eram válidos, num gesto simbólico. O clube ucraniano acabou goleado por 4 a 0, em placar que nem tinha tanta importância, considerando o renascimento que a ocasião representava. Kiev ressurgiu como um centro tecnológico e militar, apesar das rédeas curtas que impediam qualquer noção separatista ou de orgulho local. Ainda assim, diante da escassez de recursos após a guerra, as reformas no estádio continuaram de maneira sistemática até o fim da década de 1940, com outras melhorias nos anos posteriores.

A partir da década de 1950, o Estádio Republicano atravessou um momento bem menos turbulento, aproveitando a recuperação econômica local. O autoritarismo persistia, mas sem guerras que elevassem o caos a níveis tão horripilantes quanto antes. Apoiado pela estrutura estatal ucraniana, o Dynamo Kiev se tornou o grande representante da república. O sucesso do clube se tornou uma questão de representação regional ante o Kremlin, em tempos nos quais se reforçava um novo movimento de russificação da população. O estádio sempre cheio indicava a mobilização da população ao redor de seu símbolo, até pela rivalidade crescente com o Spartak Moscou, equipe mais popular da capital soviética. No início dos anos 1960, a média de público do Dynamo chegou a bater o recorde de 66 mil pagantes por partida.

Em 1967, em meio às comemorações pelos 50 anos da Revolução Russa, a arena (rebatizada brevemente como Estádio Central) recebeu novas reformas que aumentaram sua capacidade para 100 mil espectadores – transformando-se, assim, na maior da URSS. Um novo momento que antecedeu o apogeu do Dynamo, em geração estrelada por Oleg Blokhin. Em 1975, os ucranianos conquistaram a Recopa Europeia e derrotaram o poderoso Bayern de Munique em Kiev, faturando também a Supercopa. Blokhin, ao final do ano, receberia a Bola de Ouro como melhor jogador da Europa.

Já em 1980, novas modificações foram previstas para que o Estádio Republicano (outra vez rebatizado) recebesse partidas de futebol nos Jogos Olímpicos de Moscou. Sete jogos aconteceram no campo, quatro delas envolvendo a vice-campeã Alemanha Oriental. Já o Dynamo Kiev voltaria a assombrar a Europa, reconquistando a Recopa em 1986, com uma geração que servia de base da seleção soviética e levaria a Bola de Ouro de volta à cidade, graças a Igor Belanov. Era um ano especialmente particular a Kiev, considerando os desdobramentos do acidente na usina nuclear de Chernobyl em abril, que levou refugiados à capital e também afetou a saúde da população – que não tinha informação sobre isso na época.

Por fim, quando as reformas políticas e econômicas já encaminhavam ao desmembramento da União Soviética, a equipe nacional passou pelo Estádio Republicano. Até 1987, a seleção soviética só havia disputado um jogo de Eliminatórias no local, batendo a Turquia em 1969, enquanto concentrou por lá sua campanha buscando a Euro 1976 – na qual se ausentou da fase decisiva. Já na empreitada rumo à Copa de 1990, o palco se tornou essencial na classificação, com vitórias sobre Áustria e Alemanha Oriental. Entre compromissos oficiais e amistosos, foram 12 aparições da URSS no local, a última delas em março de 1990, em vitória por 2 a 1 sobre a Holanda que serviu de preparação ao último Mundial sob a bandeira vermelha.

O fim da União Soviética em 1991 e o renascimento da Ucrânia independente só reforçou a importância do Estádio Republicano como principal centro do esporte no país. Em 1996, o governo o rebatizou como “Complexo Esportivo Nacional Olímpico”, que rende o atual nome de Estádio NSC Olimpiyskiy. A nova era passou a ser marcada com os grandes show realizados, a readequação que reduziu sua capacidade para 83 mil espectadores e as partidas memoráveis consagrando as duas principais representações locais. Por lá, o Dynamo Kiev de Andriy Shevchenko fazia estrago durante os últimos anos da década de 1990, derrotando adversários como Barcelona e Real Madrid na Liga dos Campeões. O estádio também recebeu as principais partidas da seleção ucraniana nas Eliminatórias para a Copa de 2006, que confirmaram a primeira classificação do país a um Mundial.

Já em 2008, a última grande mudança. O Estádio Olímpico atravessou suas reformas mais amplas em décadas, preparado para atender as normas da Uefa e se transformar na principal sede da Eurocopa de 2012. A reconstrução massiva levou a redução da capacidade para 69 mil espectadores. Em 1° de julho, a Espanha conquistou o seu terceiro título continental naquele gramado tão combalido, ao golear a Itália por 4 a 0 na decisão. Os ucranianos, eliminados ainda na primeira fase, conquistaram sua única vitória justamente na partida em que atuaram em Kiev. Shevchenko anotou os dois gols no triunfo sobre a Suécia, sua última aparição oficial ante a torcida que o idolatrou.

Em meio ao turbilhão político que a Ucrânia viveu a partir da década passada, sobretudo com a guerra civil que estourou no leste do país a partir de 2014, o Estádio Olímpico se inseriu no contexto. O lado de fora do complexo esportivo foi palco de alguns protestos, embora os principais (e mais reprimidos) tenham acontecido nos arredores do Estádio Valeriy Lobanovskiy, casa do Dynamo, em uma região politicamente mais representativa da capital. Já nas arquibancadas, são um tanto quanto frequentes as manifestações nacionalistas dos torcedores, principalmente do Dynamo – embora também exista uma tendência neonazista entre seus ultras, inclusive exaltando antigos colaboracionistas. O clube, em contrapartida, combate qualquer tipo de racismo ou violência relacionada.

Em uma Kiev que tenta transmitir outra imagem sobre o seu cotidiano, acontecerá a final da Liga dos Campeões. O contexto político ainda cria linhas tênues, tanto internamente quanto na diplomacia. Ainda assim, a expectativa é de que o futebol prevaleça neste sábado, quando Liverpool e Real Madrid entrarem em campo. Depois de quase um século de tantas reviravoltas, o histórico local poderá viver uma de suas noites mais gloriosas.