Brooks comemora o gol da vitória americana (AP Photo/Ricardo Mazalan)

EUA 2×1 Gana: um roteiro hollywoodiano para a vitória redentora do US Team

A CRÔNICA

O cinema americano não se cansa de contar histórias de superação. A guerra é um dos temas preferidos de Hollywood. Roteiros em que glória e desgraça se misturam, mas nos quais o protagonista quase sempre termina de forma redentora. E se algum diretor famoso quiser contar um episódio da seleção dos Estados Unidos, poderá fazer um ótimo filme a partir da estreia na Copa do Mundo de 2014. A partida contra Gana na Arena das Dunas teve vários elementos de um épico de guerra. E o herói da vez foi o US Team, que voltou para o seu quartel general com a imprescindível vitória por 2 a 1.

Como tem que ser em um roteiro promissor, havia um pano de fundo intrigante. Os Estados Unidos alimentavam o medo de Gana pelas eliminações nas duas últimas Copas. Era o vilão temível do outro lado, de muita força física e talento para atacar. Aos americanos, restava se defender um pouco mais, o que explica a estratégia de Jürgen Klinsmann, mais cautelosa. E também surpreender.

Dempsey comemora seu gol aos 28 segundos contra Gana (AP Photo/Ricardo Mazalan)

Pois o filme começou da melhor maneira possível, para prender a atenção de quem estava na poltrona. Logo aos 28 segundos, Clint Dempsey marcou um lindo gol. O quinto gol mais rápido da história das Copas. O golpe que dava a vantagem para os Estados Unidos aguentar a provação que passaria depois. A inteligência e a velocidade de uma das principais estrelas da companhia acabaram sendo decisivas para que Gana fosse vazada. Para que os Estrelas Negras começassem a castigar o US Team.

A partir do gol, os ganeses começaram a ter muito mais volume no ataque. A movimentação da trinca de meias escalada pelo técnico Kwasi Apiah, formada por André Ayew, Jordan Ayew e Christian Atsu, dava trabalho para a marcação americana, assim como Asamoah Gyan, de grande presença no ataque. Para incrementar o roteiro do filme de guerra, alguns dos soldados passaram a sair baleados. Jozy Altidore e Matt Besler se foram ainda na primeira etapa, enquanto Alejandro Bedoya saiu no segundo tempo. O artilheiro, o líder da defesa e o mais ativo no meio-campo. Dempsey baqueou tanto por perder o companheiro quanto por um chute fortíssimo que tomou no nariz. Michael Bradley, o capitão, estava desaparecido.

O segundo tempo passou a esquentar a obra hollywoodiana. Não era um jogo de bom nível técnico. Entretanto, sobrava tensão. Os Estados Unidos não conseguiam passar do meio-campo, enquanto Gana bombardeava a meta de Tim Howard, mas sem precisão. Para melhorar o nível do time, Apiah colocou em campo Kevin-Prince Boateng e Michael Essien, dois dos soldados mais experientes do inimigo. E os carrascos de 2010 resolveram aparecer. Gyan deu ótimo passe de calcanhar para Ayew marcar, a dez minutos do fim. O empate estava consumado, a derrocada parecia próxima.

Dempsey depois de tomar um chute involuntário de Boye no nariz (AP Photo/Hassan Ammar)

Mas o que é de um épico sem o final triunfante? Pois dois dos soldados novatos do US Team foram ao resgate da equipe. Aos 41 minutos, Graham Zusi e John Brooks, que haviam saído do banco de reservas para substituir justamente os baleados, garantiram a vitória. O meio-campista bateu o escanteio para que o zagueiro completasse de cabeça. O golpe fatal, o clímax. A reação de Brooks foi emblemática, sem nem mesmo saber como comemorar, caindo com o rosto sobre a grama. Neste momento, aliás, é que a realidade se misturou com a ficção. Brooks é alemão de nascimento, filho de soldados americanos que serviam em Berlim. Apesar disso, nunca teve dúvidas de sua nacionalidade, defendendo os EUA desde as seleções de base. O típico herói americano.

A comemoração ao fim do jogo foi imensa, com jogadores e comissão técnica se abraçando na Arena das Dunas. A partir deste momento, já podem subir os créditos. O filme acabou, com a grande vitória do US Team por 2 a 1. A vitória reforça as chances de classificação dos EUA, especialmente depois da derrota de Portugal contra a Alemanha. E, mesmo com o tropeço, Gana não pode ser totalmente descartada em um grupo tão equilibrado. A partida em Natal contou a história de vencedores e vencidos. Mas promete ser ainda uma trilogia, com mais dois grandes episódios ainda a entrar em cartaz.

Ficha técnica

Estados Unidos 2×1 Gana

Estados Unidos
Tim Howard, Fabian Johnson, Geoff Cameron, Matt Besler (John Brooks, intervalo), DaMarcus Beasley; Alejandro Bedoya (Graham Zusi, 31’/2T), Kyle Beckerman, Jermain Jones; Michael Bradley; Clint Dempsey e Jozy Altidore (Aron Johansson, 23’/1T). Técnico: Jürgen Klinsmann.

Gana
Adam Kwarasey, Daniel Opare, Boye, Jonathan Mensah e Kwadwo Asamoah; Mohamed Rabiu (Michael Essien, 25’/2T),  e Sulley Muntari; Christian Atsu (Albert Adomah, 31’/2T), Jordan Ayew (Kevin-Prince Boateng, 14’/2T) e André Ayew; Asamoah Gyan. Técnico: Kwasi Apiah.

Local: Arena das Dunas, em Natal
Árbitro: Jonas Eriksson (SUE)
Gols: Clint Dempsey, 1’/1T; André Ayew, 36’/2T; John Brooks, 41’/2T
Cartões amarelos: Rabiu Mohamed e Sulley Muntari (Gana)
Cartões vermelhos: Nenhum

O CARA

Jürgen Klinsmann. O técnico dos Estados Unidos não montou uma equipe criativa, mas a força defensiva acabou sendo fundamental para suportar a pressão de Gana, com quatro volantes à frente da linha de zaga. Além disso, suas escolhas nas alterações se mostraram precisas, com a participação decisiva de Brooks e Zusi.

OS GOLS

1’/1T – GOL DOS ESTADOS UNIDOS! Logo aos 28 segundo, Dempsey recebeu na entrada da área, após cobrança de lateral. O atacante aplicou um belo drible em Boye e, com o caminho livre, não deu chances para Kwarasey na finalização.

36’/2T – GOL DE GANA! Boa trama pelo lado esquerdo do ataque de Gana. Muntari deu bom passe em profundidade para Asamoah Gyan, que ajeitou de calcanhar. Com o caminho livre, André Ayew chutou de três dedos para tirar do alcance de Howard.

41’/2T – GOL DOS ESTADOS UNIDOS! Cobrança pelo lado direito do ataque americano. Zusi cobra em direção à marca do pênalti, Brooks se antecipa à marcação de Boye e cabeceia com firmeza, sem tempo de reação para Kwarasey.

A TÁTICA

USA x Gana

Klinsmann escalou os Estados Unidos no 4-3-1-2. Ocupou seu meio-campo com jogadores de marcação, mas sem tanta criatividade. Tudo para garantir liberdade a dupla de ataque formada por Dempsey e Altidore. A saída do centroavante do Sunderland, no entanto, fez com que o time perdesse força. Já Gana apostou no 4-2-3-1, com meias muito rápidos para puxar os contragolpes. O gol rápido e a postura defensiva dos EUA, no entanto, minaram as intenções dos Estrelas Negras.

A ESTATÍSTICA

38%

Os Estados Unidos finalizaram apenas oito vezes na partida, apenas 38% dos 21 arremates de Gana. No entanto, a precisão fez a diferença. Tim Howard precisou fazer apenas duas defesas o jogo todo, com 13 tiros para fora dos africanos. Já o US Team mandou quatro arremates contra a meta dos Estrelas Negras, dois deles defendidos por Kwarasey.