Embora favorita, a Alemanha chegou à Copa do Mundo cheia de dúvidas. Havia incertezas em relação à forma física de alguns de seus principais jogadores, problemas internos, questionamentos táticos e uma inquietação geral depois de atuações fracas nos amistosos de preparação. Quem estava preocupado tinha razão para estar. A atual campeã do mundo teve uma estreia muito abaixo do que pode fazer e foi derrotada pelo México, por 1 a 0.

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Sem diminuir os méritos do México, e do técnico Juan Carlos Osorio, que armou sua equipe perfeitamente para enfrentar a adversária (embora tenha mexido um pouco mal), a Alemanha demonstrou fragilidades muito grandes nos dois lados do campo. Suscetível a contra-ataques e incapaz de criar jogadas de perigo com qualidade. A maioria dos momentos de perigo foi de média distância – ou até de mais longe.

Começando pelo ataque, como era esperado, Joachim Löw começou a partida com Timo Werner. Fazia todo sentido: além da fase muito melhor do que a de Mario Gómez, é um atacante que prima pela velocidade e o ataque dos espaços, e se você conhece bem os times de Osorio, sabe que esses espaços invariavelmente aparecem. Mas, desta vez, não apareceram. O colombiano conseguiu compactar a sua linha defensiva e em nenhum momento permitiu o contra-ataque.

Estava claro que alguém precisava entrar na área para prender os zagueiros e fazer a parede para os meias, principalmente porque Kroos estava muito propenso a soltar uns petardos (finalizou seis vezes). Além disso, precisava haver algum destino, algum objetivo, um ponto final, para a troca de passes incessante da Alemanha: foram 597, quase o dobro do México, e 516 certos. Erraram poucos passes, mas também criaram poucas chances. A definição de uma posse estéril. Frequentemente, tocavam, tocavam, tocavam, perdiam a paciência e tacavam a bola na área de qualquer jeito. Mario Gómez, porém, entrou apenas aos 34 minutos do segundo tempo.

O ataque alemão pendeu demais para o lado direito, onde Kimmich, muito bem no apoio, era a principal fonte de cruzamentos e bons passes. Isso coloca em xeque a escolha mais polêmica de Joachim Löw: muitos sentiram falta de Leroy Sané fazendo bagunça pelo outro lado. Julian Draxler, escolhido como titular para o setor, apareceu muito pouco na primeira hora da partida, embora tenha chamado um pouco da responsabilidade nos minutos finais.

Thomas Müller, atacante pela direita, não tranquilizou os que avaliaram que sua forma no Bayern de Munique estava longe dos seus melhores dias. Mesut Özil, que, junto com Gündogan, causou controversa antes da estreia ao tirar uma foto com o presidente turco Erdogan, recuperou-se de problemas físicos e foi titular. Mas mal conseguiu criar: deu apenas quatro passes para finalização, quesito em que costuma ter números brilhantes na Premier League.

A partir da metade do segundo tempo, quando Osorio abriu mão dos contra-ataques ao sacar Lozano e Carlos Vela, a Alemanha intensificou a sua pressão. Ataque contra defesa. E, nem assim, conseguiu ameaçar Ochoa. O goleiro mexicano fez nove defesas, mas a maioria delas foi fácil, bolas encaixadas, arremates no meio do gol. As únicas duas difíceis vieram em cobrança de falta de Kroos, quando espalmou ao travessão, e em um chute esperto de Müller, esticando-se para desviar. A Alemanha finalizou 26 vezes a gol. Além das nove intervenções de Ochoa, oito foram para fora e nove foram bloqueadas. Ou seja, muitas vezes definiu a jogada de qualquer jeito.

Na defesa, as coisas não foram muito melhores. Boateng e Hummels replicaram a lentidão que preocupa o Bayern de Munique e levaram um baile de Lozano, Vela e até de Chicharito Hernández de vez em quando. Houve um corredor na lateral direita, com os avanços constantes de Kimmich. Enquanto, no Brasil, Kroos teve a companhia de Schweinsteiger e mais um volante, Philipp Lahm, Kramer na decisão e mesmo o próprio Khedira, desta vez, jogou como segundo homem de meio-campo, ao lado do jogador da Juventus, que ficou sobrecarregado na cobertura. Tanto que, no lance do gol de Lozano, quem aparece para marcar – e levar um drible infantil – é Özil, talvez o jogador do futebol mundial com menos cacoete de defensor.

“Nossa defesa não é boa, preciso dizer isso bem claramente. Eu e Boateng ficamos com frequência sozinhos lá atrás”, disse Hummels, segundo a DW. “Se nós entrarmos em campo assim novamente, vai ser motivo para preocupação”. E acrescentou: “Fomos avisados dias atrás. Jogamos exatamente como fizemos contra a Arábia Saudita, mas contra um time melhor. Por isso que o primeiro tempo foi como foi, e o México obviamente mereceu venceu”.

A derrota não é motivo para alarmes muito altos. A Alemanha já teve tropeços no começo de outras campanhas que eventualmente terminaram com títulos mundiais. Mas os problemas ficaram claros na estreia contra o México e já vinham escancarados pela preparação. Imaginava-se que a tetracampeã entrasse naquele espírito de Copa do Mundo que a torna tão temida uma vez que o Mundial começasse. Mas ele começou e, por enquanto, nada melhorou.