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Estrela Vermelha, a última glória de um país esfacelado

As fronteiras que dividiram a Iugoslávia foram demarcadas com sangue. As estimativas são de 130 mil mortes nas guerras de independência que se desenrolaram durante toda a década de 1990. Milhares de vidas interrompidas e multidões que se refugiaram em outros países. Diante de tamanha tragédia, o futebol é uma questão menor. Mas talvez sérvios, croatas, bósnios, eslovenos, montenegrinos, macedônios, kosovares e quaisquer outras etnias que faziam parte do caldeirão iugoslavo tenham perdido um orgulho em comum naqueles anos. A geração que se forjava nos Bálcãs era capaz de se dar forma a uma das seleções mais talentosas da história. Uma qualidade que nunca saberemos a real dimensão.

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A única prova concreta foi dada em 1991, ano em que o Estrela Vermelha conquistou a Copa dos Campeões. Um clube que sustenta o nacionalismo sérvio desde as suas origens, mas que chegou ao topo da Europa reunindo craques de quatro etnias. E que muito provavelmente também não teve todo o seu potencial aproveitado. A ascensão dos alvirrubros coincidiu com o aumento dos anseios separatistas. E o auge foi curtíssimo, com o desmanche de todo o esquadrão em apenas uma temporada. Um time grandioso, que poderia ter sido ainda maior.

Símbolo do nacionalismo desde antes da fundação

A data de fundação do Estrela Vermelha aponta para o ano de 1945. Mas a trajetória do clube possui, na verdade, mais de um século. Ela começa em 1908, ainda no antigo Reino da Sérvia. Naquele ano, o Império Austro-Húngaro anexou a Bósnia-Herzegovina, causando grande crise. Cinco anos depois, o Belgrado SK viajaria para o país inimigo, para amistoso contra o Hajduk Split. No entanto, nem todos concordaram com a situação e os dissidentes criaram o SK Velika Srbija, Esporte Clube Grande Sérvia, com bases extremamente nacionalistas. O time logo passou a atrair jogadores de outros clubes sérvios e se tornou uma potência local, mas teve que fechar as portas com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914 – estourada depois que um sérvio assassinou o arquiduque austro-húngaro em Sarajevo. O clube reapareceu em 1919, como SK Jugoslavija. Estava no seio do ‘Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos’, país surgido no fim da guerra e renomeado como Iugoslávia em 1929. Conhecidos como os Crveni (Vermelhos), foram bicampeões nacionais em 1924-1925.

estrela

Porém, outra vez a guerra interrompeu a trajetória. Com a invasão da Iugoslávia pelos nazistas em 1941, o time precisou mudar de nome e passou a se chamar SK 1913. Já em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, foi dissolvido. A maioria das equipes acabou extinta por terem mantido as atividades durante o conflito. Eram taxadas de colaboracionistas pelo regime comunista que se enraizava no poder, liderado pelo Marechal Josip Broz Tito. Ainda assim, a história do SK Jugoslavija não foi totalmente jogada fora. Fundado em março de 1945, o Crvena Zvezda herdava os jogadores, o estádio e as cores de seu predecessor. A maior diferença estava entre os líderes do novo clube. O Estrela Vermelha (nome traduzido que se popularizou conforme a língua) era idealizado pelos membros da Aliança Unida da Juventude Antifascismo, que o batizaram e levaram em frente a nova instituição ainda sob os ideais do nacionalismo, garantindo sua popularidade. E a equipe acabou apadrinhada também pelo Ministério do Interior, o peso institucional na máquina estatal comunista.

O Estrela Vermelha conquistou o acesso ao Campeonato Iugoslavo em seu primeiro ano, após conquistar a liga sérvia. Nesse início, cultivou a rivalidade com o Partizan. Um dérbi que significava também uma disputa interna na estrutura comunista, já que os alvinegros foram fundados pelo Exército Popular da Iugoslávia e eram bancados pelo Ministério da Defesa. E a base deixada pelo Jugoslavija permitiu a montagem de um grupo forte logo de cara – tanto é que oito jogadores representaram a seleção na Copa de 1950. A equipe foi tricampeã da Copa da Iugoslávia em 1948-1949-1950, antes de faturar o inédito título da liga em 1951 – batendo o Partizan na última rodada e superando o Dinamo Zagreb na tabela apenas pelo saldo de gols.

A afirmação de uma potência na Iugoslávia

Eram as primeiras glórias, que se tornariam rotina para o Estrela Vermelha. Rajko Mitic foi o primeiro grande astro, protagonista dos alvirrubros desde a estreia oficial. E, a partir de 1954, ganhou a companhia de Dragoslav Sekularac, jovem meia revelado pelo clube e  que seria vital os próximos sucessos. Até o final da década de 1950, foram mais quatro títulos da liga e dois da copa, com um time famoso por seu estilo ofensivo. A maior façanha veio em 1958, com o primeiro triunfo na Copa Mitropa, principal torneio do leste europeu. Também naquela época, o Estrela fez suas primeiras aparições na Copa dos Campeões. Foi semifinalista em 1956/57, eliminado pela Fiorentina, e caiu nas quartas diante do Manchester United, no duelo que precedeu o Desastre de Munique, responsável pela morte de oito jogadores ingleses.

Durante a década de 1960, a torcida do Estrela Vermelha precisou lidar com o sucesso do Partizan, que dominava o campeonato nacional e foi finalista da Copa dos Campeões em 1966. A hegemonia só seria retomada a partir de 1968, sob as ordens do técnico Miljan Miljanic e o talento do ponteiro Dragan Dzajic, considerado o melhor jogador iugoslavo da história. Estrelados pelo craque, os Crveni retomaram o topo da Iugoslávia, com quatro títulos da liga e três da copa. Também voltaram a fazer sucesso no cenário europeu, com o segundo título na Copa Mitropa em 1968, a campanha até as semifinais da Champions de 1971 e também da Recopa de 1975. Já com a seleção, Dzajic carregou o time até a decisão da Euro 1968, vencida pela Itália, e oito jogadores do time disputaram a Copa do Mundo de 1974.

1979

As saídas do treinador e do craque provocaram uma seca de três temporadas – ainda que o time permanecesse entre os primeiros colocados da liga. A recuperação foi alcançada com o técnico Branko Stankovic e a consagração de Vladimir Petrovic como estrela da companhia. Entre 1977 e 1981, os alvirrubros foram mais vezes campeões nacionais e chegaram a sua primeira final continental. O timaço do Borussia Mönchengladbach era o adversário pela taça da Copa da Uefa. E os iugoslavos não foram páreos para os germânicos, derrotados no jogo de volta por um gol de Allan Simonsen, em pênalti bastante contestado. O sonho de chegar ao topo da Europa permanecia entalado na garganta. Algo que apenas a geração de ouro do Estrela Vermelha conseguiria alcançar.

A nova mentalidade dos alvirrubros

Outra vez, o Estrela Vermelha entrava em um período de incertezas com a demissão de seu técnico. Branko Stankovic deixou o banco de reservas em 1981 e, pouco tempo depois, os protagonistas do ótimo elenco que ele havia dirigido se foram. Tanto é que, em 1983, quando Gojko Zec voltou ao comando dos alvirrubros, só encontrou um jogador que ele conduzira ao título nacional em 1977. Era um período de renovação, que chegou a dar seu fruto. Em 1983/84, os Crveni conquistaram aquele que é considerado um dos títulos mais sofridos de sua história. Sem vários dos novos titulares, a equipe deu uma arrancada no final da campanha para ficar com a taça. O auge dos altos e baixos que viriam a seguir.

O elenco montado por Zec não era tão bom assim. Nas duas temporadas seguintes, a torcida do Estrela Vermelha precisou se contentar com apenas um título da Copa da Iugoslávia – e ainda tiveram uma conquista da liga dada e retirada na justiça, após uma acusação de manipulação de resultados não provada contra o campeão Partizan. Aquele foi o último ano do treinador. Seu substituto era Velibor Vasovic. Nos tempos de jogador, o defensor causara um enorme imbróglio no Estrela, ao se transferir para o clube e abandoná-lo meses depois, voltando ao Partizan, onde foi ídolo absoluto. Uma rixa que pouco importava perto das contribuições que o treinador poderia trazer. Vasovic foi primordial no Ajax de Rinus Michels, o líbero que impulsionou o ‘Futebol Total’. Era quem coordenava a marcação sufocante e a troca de posições, capitão no título da Champions de 1971, quando se aposentou.

dzajic

Vasovic não teve vida longa no Estrela Vermelha e nem criou uma réplica do Ajax em Belgrado. Todavia, sua mentalidade foi importante para a organização de uma equipe com tantos predicados ofensivos. E, tão vital quanto a forma como o clube jogava, também era a estratégia que adotou para renovar o elenco. A diretoria encabeçada por Dragan Dzajic e Vladimir Cvetkovic, um ídolo do futebol e outro do basquete, passou a buscar os melhores talentos da Iugoslávia. Sobretudo, jovens promessas que pudessem evoluir dentro de cinco anos e transformar os Crveni no melhor time da Europa. Em um país já se abrindo ao capitalismo, o poderio financeiro por trás do Estrela fez a diferença.

A chegada dos campeões ao Marakana

O maior exemplo da política de contratações foi dado naquele mesmo verão de 1986. O Estrela Vermelha trouxe Dragan Stojkovic. O garoto de 21 anos chegava para ser o cérebro do time. E, mesmo tão jovem, tinha totais capacidades para a pesada missão. Afinal, o meia surgira no Radnicki Nis com apenas 16 anos. Titular absoluto a partir da segunda temporada, Stojkovic chegou à seleção mesmo defendendo um clube mediano. Caiu com o Radnicki, mas teve a honra de levá-lo de volta à elite. Foi quando acabou fisgado pelo gigante da capital, que queria seus serviços de camisa 10, dando o toque de classe e marcando gols com chutes fantásticos. Além dele, o lateral Slobodan Marovic era outra peça importante trazida. 

Aquela primeira temporada comandada por Vasovic não foi tão gloriosa assim. O Estrela Vermelha iniciou o Campeonato Iugoslavo com seis pontos a menos, por causa do escândalo do ano anterior, e jogou a toalha no certame, terminando em terceiro. O grande objetivo era a Copa dos Campeões, onde a equipe ficou com a vaga mesmo com o título em litígio. E não decepcionou. Os iugoslavos caíram nos gols fora de casa anotados pelo Real Madrid, derrotado por 4 a 2 no Estádio Marakana, mas que fez 2 a 0 no Santiago. Apesar da eliminação nas quartas de final, aqueles confrontos tiveram serventia. Foram neles que o goleiro Stevan Jovanovic comprovou seu valor. Formado na própria base, o camisa 1 amargou a reserva por anos, mas ganhou a posição naquela temporada. E defendeu um pênalti de Hugo Sánchez na vitória em Belgrado. Encerrada a temporada, era hora de tornar o Estrela Vermelha ainda mais forte, com contratações valorosas.

O elenco ganhava consistência sobretudo no meio-campo. Robert Prosinecki era um meia de estilo extremamente vertical. Filho de um croata com uma sérvia, nasceu na Alemanha e começou a carreira no Stuttgart Kickers, antes de se mudar para a Croácia e se juntar ao Dinamo Zagreb. Entretanto, quando Prosinecki completou 18 anos, o técnico Miroslav Blazevic recusou a dar-lhe um contrato profissional. Caminho livre para que a sua família o oferecesse a Dzajic e, depois de um mero teste, os Crveni já foram contratá-lo. No momento exato. Logo em seguida, o prodígio foi o craque da Iugoslávia no Mundial Sub-20 e, além de ser campeão, ganhou a Bola de Ouro do torneio. Ao seu lado entre os reforços, Dragisa Binic era outro meia do Radnicki Nis com potencial ofensivo, enquanto Refik Sabanadzovic vinha para ocupar a lateral direita após estourar no Zejleznicar.

O primeiro título da Era de Ouro e os novos craques

Para chegar ao sonhado título da Champions, o Estrela Vermelha precisava reconquistar o Campeonato Iugoslavo. E, com o timaço que foi montado por Dzajic, não era possível que a taça demorasse ainda mais a vir. Em 1987/88, os Crveni recuperaram a soberania nacional em uma disputa acirrada contra o Partizan Belgrado. Mesmo com o melhor ataque, os alvirrubros fecharam a campanha apenas um ponto à frente de seus arquirrivais. Stojkovic foi o grande protagonista, com 15 gols, e sua ótima fase foi vital para que o clube não perdesse mais pontos. As inflexibilidades de Velibor Vasovic causaram mudanças constantes entre os titulares e a falta de sequência atrapalhou. Um dos motivos, aliás, para que o técnico deixasse o Marakana ao final da temporada, com o retorno de Bosko Stankovic.

1988

Não era a mudança no comando que frearia o Estrela Vermelha nas contratações cirúrgicas. Ilija Najdoski reforçava a zaga. Dejan Savicevic também chegava, em um acerto fechado ainda em janeiro. O habilidoso meia de 21 anos tinha desenvolvido sua técnica jogando em quadras e ainda adolescente estourou no Buducnost. Mais do que talento, o montenegrino possuía brio para não se intimidar nem como o Marakana lotado, assim como para defender a seleção principal. Um reforço que permitia até a partida de Dragisa Binic, importante no título de 1987/88. Já para o ataque, o nome era Darko Pancev. O atacante de 22 anos também tinha rodagem no Vardar Skopje, famoso pelo alto poder de fogo nas finalizações e o instinto dentro da área. Era o matador que faltava para não desperdiçar a visão de Stojkovic e Prosinecki.

O problema é que o Estrela Vermelha não pôde contar com seus novos craques de imediato. Savicevic e Pancev tiveram que prestar o serviço obrigatório ao exército – em uma manobra que é atribuída por alguns ao Partizan, que perdeu o leilão na contratação de ambos. Os dois jovens serviam um batalhão em Belgrado, o que dava brecha aos treinos e aos jogos. Apesar disso, os Crveni não conseguiram o bicampeonato. Mesmo com o melhor ataque, a melhor defesa e o menor número de derrotas, o time acabou em segundo. Como? Naquele ano, foram introduzidos pênaltis em caso de empate, que não davam ponto algum a quem perdesse. E, com cinco derrotas em sete disputas, o clube permitiu que o Vojvodina fosse campeão.

Ao menos na competição continental, a honra permaneceu intacta. A equipe vendeu caro a vaga nas quartas de final para o lendário Milan de Arrigo Sacchi, a caminho de seu primeiro título. Com um gol de Stojkovic, os rossoneri tiveram que buscar o empate por 1 a 1 em Milão. Já na volta, o Estrela Vermelha vencia por 1 a 0 até os 20 minutos do segundo tempo, quando um nevoeiro no Marakana cancelou a partida. Entretanto, o confronto acabou reiniciado no dia seguinte. Marco van Basten abriu o placar e Stojkovic empatou, levando a decisão para os pênaltis. Savicevic e Mrkela desperdiçaram suas cobranças, dando a classificação ao Milan.

O ouro do futebol e o sangue da guerra

Ao final da campanha, uma nova mudança no banco de reservas. Bosko Stankovic durou apenas um ano no cargo, após entrar em rota de colisão com Stojkovic. E a diretoria sabia que um time campeão era mais fácil de montar com um craque do que com um técnico. O novo escolhido para treinar o time era alguém com alta capacidade de lidar com os talentos, Dragoslav Sekularac, ele mesmo um antigo ídolo em Belgrado. E a constelação do elenco seguia aumentando. Miodrag Belodedici chegou para ser esteio da defesa. O líbero foi chave para conduzir o Steaua Bucareste ao título da Copa dos Campeões de 1986, experiência importante para os iugoslavos. Fugira da opressão comandada pelos Ceausescu na Romênia ainda em 1988, mas, suspenso por deserção, só pôde jogar no fim de 1989. Já para o meio-campo, Vladimir Jugovic começava a ser lançado no time principal. O garoto surgia como ótima opção na base, mas também teve que conciliar os treinos com o serviço militar obrigatório.

O Campeonato Iugoslavo de 1989/90 foi o que contou com a campanha mais dominante do Estrela Vermelha, mas também acabou marcado pelas tensões que culminaram no fim da Iugoslávia. A equipe de Belgrado nadou de braçada, fechando a 34ª rodada com 11 pontos de vantagem e média de 2,32 gols marcados por jogo.  Todavia, no dia 13 de maio de 1990, quando os Crveni já tinham assegurado o título, o Estádio Maksimir de Zagreb foi palco de um episódio significativo para os conflitos.

O clássico contra o Dinamo Zagreb era tenso por si só, diante de toda a questão étnica e pela importância dos clubes. Ainda assim, ganhou proporções maiores, já o movimento em prol da independência da Croácia havia vencido as eleições na república semanas antes. Fora do campo, as torcidas organizadas ultranacionalistas dos dois clubes entraram em confronto. Os cerca de três mil membros da Delije, do Estrela, provocavam os Bad Blues Boys dizendo que Zagreb pertencia à Sérvia, enquanto os rivais cantavam o hino croata. Diante do clima hostil, o capitão Stojkovic conduziu sua equipe para os vestiários. Mas o Dinamo permaneceu no gramado assistindo à barbárie. E Zvonimir Boban, craque dos croatas, deu uma voadora nas costas de um policial que agredia um ultra de seu clube (a partir de 1:10 no vídeo). Nome certo na Copa de 1990, o meia foi suspenso por seis meses. A cena é considerada por alguns o estopim da Guerra de Independência da Croácia. Ao todo, 138 pessoas ficaram feridas e 132 foram presas.

Fora do país, o Estrela Vermelha seguia batendo na trave em busca de sua glória continental. Sem o título nacional no ano anterior, os alvirrubros tiveram que se contentar com a Copa da Uefa. E não foram além das oitavas de final. Depois de vencerem o Köln por 2 a 0 em casa, perderam na visita à Alemanha por 3 a 0. O jogo polêmico também abriu o caminho para a chegada do quinto técnico em quatro anos. Sekuralac foi expulso no jogo de volta, suspenso pela Uefa e, com isso somado a uma excursão desastrosa à China, preferiu deixar o cargo. O escolhido para a sucessão foi Ljupko Petrovic, treinador que havia conduzido o Vojvodina ao título de 1989 e conhecia vários jovens do Estrela por sua passagem pelas seleções de base.

iugoslavia estrela 1991

A temporada terminou com outro sonho interrompido. Cinco jogadores alvirrubros representaram a Iugoslávia na Copa de 1990. A seleção só perdeu para a Alemanha Ocidental na estreia, batendo Colômbia e Emirados Árabes Unidos para se classificar na segunda posição do grupo. Nas oitavas, com dois gols de Stojkovic, um deles na prorrogação, superaram a favorita Espanha por 2 a 1. Mas pararam nas quartas de final, derrotados nos pênaltis pela Argentina de Maradona, após o placar permanecer zerado por 120 minutos.

A melhor temporada da história

Dragan Stojkovic nem voltou da Itália. O Estrela Vermelha nada pôde fazer diante da oferta do Olympique de Marseille, turbinado pelo dinheiro de Bernard Tapie, e o maestro deixou o elenco depois da Copa. Para compensar, a diretoria buscou de volta Dragisa Binic, então na segunda divisão espanhola. E Ljupko Petrovic foi atrás de seu maior talento nos tempos de Vojvodina, Sinisa Mihajlovic. O meio-campista de lançamentos e cobranças de faltas precisas já tinha sido observado pelos Crveni quando ainda estava no Borovo, mas não foi contratado. Pagaram caro por isso, literalmente. Deram até carro e apartamento para o jogador de 21 anos, algo escancarado com o fim do comunismo – que pouco afetou estruturalmente o clube nesses primeiros meses. Com os dois reforços, o esquadrão campeão estava completo.

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Petrovic tinha em mãos uma equipe extremamente técnica. Sem Stojkovic, Prosinecki passou a ser quem conduzia as ações ofensivas, dando apoio a Pancev no 4-4-1-1 armado pelo treinador. Savicevic e Binic eram dois meias bastante agudos, enquanto Jugovic e Mihajlovic garantiam a qualidade no passe à frente da defesa, liderada por Belodedici. E a braçadeira de capitão ficou com o goleiro Stojanovic, o único a ter participado desde o início da ascensão do time. Petrovic prezava por um estilo que dominasse o tempo de jogo, sem deixar de lançar mão das habilidades individuais. E qualidade era o que não faltava naquele elenco.

O Campeonato Iugoslavo de 1990/91 foi o último antes da independência de Croácia e Eslovênia. E foi com todos os rivais pelo caminho que o Estrela Vermelha conquistou o bicampeonato. A equipe somou oito pontos a mais que o segundo colocado, o Dinamo Zagreb, e anotou impressionantes 88 gols. Sozinho, Pancev balançou as redes 34 vezes em 32 jogos, o suficiente para faturar a Chuteira de Ouro, como o maior artilheiro da Europa. Um troféu só recebido 15 anos depois, já que o artilheiro do Campeonato Cipriota, com uma marca maior, havia tido seus tentos facilitados e o prêmio acabou suspenso naquela temporada – por conta desse episódio, inclusive, as regras da honraria foram alteradas.

Porém, o que marcou mesmo a trajetória do Estrela Vermelha foi mais uma controvérsia na Croácia. No dia 18 de maio de 1991, a equipe voltava ao Estádio Maksimir para enfrentar o Dinamo Zagreb, o reencontro após os incidentes do ano anterior e já com a Guerra de Independência da Croácia em andamento. Os visitantes abriram 2 a 0 no placar, mas acabaram sofrendo a virada por 3 a 2 – uma derrota que não influenciaria o título já conquistado. Tempos depois, Prosinecki e Petrovic admitiram que os Crveni facilitaram o triunfo dos rivais, temendo pela própria integridade, ao mesmo tempo que a arbitragem também estava arranjada para que os croatas vencessem – líderes nacionalistas do país estavam nos camarotes. “Fomos forçados a perder pelos círculos políticos”, disse Petrovic.

Enfim, o topo da Europa

Por tudo que vinha fazendo, o Estrela Vermelha surgia como um time a ser acompanhado de perto na Copa dos Campeões. Mas não era o favorito. Esse rótulo ficava por conta do Milan, dono dos dois últimos títulos; do Bayern de Munique, bicampeão alemão e estrelado por jogadores da seleção que triunfou na Copa; do Real Madrid, pentacampeão espanhol; do Napoli, ainda com Maradona e vencedor da Copa da Uefa anterior; e do Olympique de Marseille, bicampeão francês e turbinado financeiramente. Os iugoslavos não tinham responsabilidade nenhuma para o restante da Europa. Entretanto, seguiam com o objetivo traçado cinco anos antes por Dzajic e Cvetkovic, pelo qual montaram aquele time.

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O primeiro desafio era o Grasshopper. E o Estrela Vermelha não começou bem, ao empatar por 1 a 1 no Marakana. O susto necessário para fazer a equipe acordar, goleando por 4 a 1 na Suíça. Com a vaga nas oitavas, os Crveni encarariam o Rangers. Desta vez, trataram de vencer por 3 a 0 em casa para administrar o empate por 1 a 1 em Glasgow. Enquanto isso, o Napoli era o primeiro a ficar pelo caminho, eliminado nos pênaltis pelo Spartak Moscou. O adversário nas quartas era o Dynamo Dresden, último representante da Alemanha Oriental na Copa dos Campeões. Presa fácil para os alvirrubros, que fizeram 3 a 0 em casa e venciam por 2 a 1 no território inimigo quando um quebra-quebra causado pelos torcedores da casa encerrou a partida. Nessa mesma etapa, o Real Madrid foi eliminado pelo Spartak e o Marseille se impunha sobre o Milan.

O Estrela Vermelha retornava às semifinais da Copa dos Campeões após 34 anos. Pela frente, o temível Bayern de Munique, treinado por Jupp Heynckes. Os bávaros tinham à disposição grandes jogadores: Kohler, Augenthaler, Reuter, Thon, Brian Laudrup. Foram surpreendidos dentro do Estádio Olímpico no primeiro duelo. Wohlfarth abriu o placar, mas Pancev e Savicevic decretaram a vitória por 2 a 1. Já no Marakana, os visitantes partiram para cima. Depois que Mihajlovic anotou de falta o primeiro, viraram para 2 a 1 e iam levando o jogo à prorrogação. Até que um gol contra do capitão Augenthaler, após falta cobrada por Mihajlovic, colocou os iugoslavos na final e levou o Marakana à loucura. O adversário seria o Olympique de Marseille, que passou por cima do Spartak nos dois jogos. Do outro lado, o reencontro com o ídolo Dragan Stojkovic.

Para chegar até ali, o Estrela Vermelha tinha exibido um futebol ofensivo, com 18 gols em oito partidas. E abdicaram desse estilo para buscar a taça. Petrovic conhecia também o potencial do ataque do Marseille. Jean-Pierre Papin era o artilheiro da Champions e vinha jogando demais, acompanhado por Abedi Pelé e Chris Waddle no setor ofensivo. Jogadores letais nos contra-ataques. Por isso mesmo, o treinador iugoslavo resolveu atuar sem a posse. “Se os franceses derem a bola, devolvam a gentileza”, dizia. Não queria deixar seu time exposto demais. Por outro lado, ele sim buscava aproveitar os contragolpes. E, com essa mentalidade, os Crveni seguiram para a Itália. Cinco dias depois do episódio aterrorizante em Zagreb, o elenco chegou a Bari e se fechou na concentração, longe das famílias e inflado pelo discurso motivacional de antigos ídolos do clube. Estavam ali para vencer.

O Estrela Vermelha entrou em campo no Estádio San Nicola com força máxima. E aplicado na estratégia de Petrovic.  O time fechava bem os espaços e, quando o Marseille buscava o contra-ataque, a linha de impedimento funcionava à perfeição. Os dois poderosos ataques passaram em branco ao longo dos 120 minutos da amarrada partida, com o 0 a 0 levando a decisão aos pênaltis. Algo para o qual os alvirrubros estavam muito bem preparados. Stojanovic defendeu logo a primeira cobrança dos franceses, do veterano Manuel Amoros. O suficiente para que a precisão dos iugoslavos resolvesse. Prosinecki, Binic, Belodedici, Mihajlovic e Pancev converteram os seus pênaltis. A vitória por 5 a 3 tornava a Europa branca e vermelha, como o Estrela Vermelha tanto sonhara. Stojanovic era o primeiro goleiro da história a levantar a Champions, enquanto Belodedici foi o pioneiro a levá-la por dois clubes.

Já do outro lado, um misto de frustração e felicidade personificado em Stojkovic. “Em meu último dia em Belgrado, deram uma festa no clube e me desejaram boa sorte. Minhas últimas palavras foram: ‘Agradeço a vocês por tudo, desejo o melhor e os vejo na final’. Eles riram. Quando fiquei sabendo da vitória sobre o Bayern, percebi que aquilo realmente iria acontecer. Emocionalmente, você não acredita que ficará em um lado diferente de seus amigos. Mas é a vida. Foi muito difícil para eu aceitar, mas fui para o banco e joguei oito minutos no tempo extra. Pedi para não bater o pênalti, não queria essa responsabilidade contra eles. Perdi como um membro do Marseille e estava triste por isso, mas também fiquei feliz por ver o Estrela campeão. Mas ainda acho que foi um erro eu ter sido reserva. Os jogadores do Estrela tinham medo do que eu poderia fazer”, recordou o meia, em entrevista ao In Bed With Maradona.

O orgulho de uma nação esfacelada

A volta a Belgrado foi triunfal. O Estrela Vermelha foi recepcionado por milhares de torcedores, exibindo o troféu que os tornava como os melhores do continente. Um símbolo para quem defendia a Iugoslávia ainda unida, já que entre os protagonistas havia um croata (Prosinecki), um montenegrino (Savicevic) e um macedônio (Pancev). Ainda assim, muito mais aproveitado pelos ultranacionalistas que queriam proclamar a supremacia dos sérvios, bem como reprimir os anseios por independência de croatas, eslovenos e bósnios.

Em meio ao conflito, o desmanche do time campeão foi inevitável. O sucesso era a deixa para que muitos saíssem do país. Ljupko Petrovic pediu demissão, enquanto cinco titulares se transferiram para clubes do exterior. O caso mais emblemático foi o de Prosinecki. Por ter ascendência croata e sérvia, o meia manteve-se neutro diante da divisão étnica que tomava o país. Foi ameaçado. Seria baleado se continuasse servindo a seleção iugoslava. Não pensou duas vezes quando recebeu uma proposta do Real Madrid, mudando-se para a Espanha.

Ex-meia do clube, Vladica Popovic assumiu o comando. E, com a equipe desfigurada, não conseguiu conquistar a Supercopa Europeia. Na época, o torneio era disputado em dois jogos. Mas a guerra na Iugoslávia fez com que Estrela Vermelha e Manchester United decidissem em jogo único, disputado em Old Trafford. Vitória da equipe de Sir Alex Ferguson por 1 a 0, com gol de Brian McClair. Já no final de 1991, os iugoslavos seguiram ao Japão, onde enfrentariam o Colo Colo no Mundial Interclubes. E os campeões da Libertadores conheciam muito bem os alvirrubros: o técnico era Mirko Jozic, vencedor do Mundial Sub-20 com a Iugoslávia. Não adiantou . Mesmo com Savicevic expulso no primeiro tempo, Jugovic resolveu. Foram dois gols do meio-campista e outro de Pancev na vitória por 3 a 0 sobre os chilenos. Depois da Europa, os Crveni se coroavam como os melhores do mundo. E outra mostra do patamar que o time alcançou foi dado na Bola de Ouro. Papin venceu o prêmio, mas quatro dos oito primeiros colocados eram alvirrubros, incluindo Pancev e Savicevic, empatados em segundo lugar.

A máquina de gols vira máquina de guerra

Não existiam mais motivos para comemorar. O sangue escorria nos Bálcãs. Mesmo assim, o Campeonato Iugoslavo foi disputado em 1991/92, culminando no tricampeonato do Estrela Vermelha. Sem croatas e eslovenos na competição, os alvirrubros abriram quatro pontos de vantagem sobre o Partizan. E o torneio sequer chegou ao fim. Em abril, teve início a Guerra de Independência da Bósnia, a maior barbárie desde a Segunda Guerra Mundial. O clube de Belgrado foi declarado dono da taça mesmo faltando três rodadas para serem disputadas. Já na recém-criada Liga dos Campeões, o Estrela mal conseguiu defender o bicampeonato. Caiu na fase de grupos, segundo colocado atrás da Sampdoria, tendo que mandar todos os seus jogos longe da Iugoslávia – na Bulgária e na Hungria.

Crvena-Zvezda-1990-1991-ve

Era a despedida do esquadrão do Estrela Vermelha. Todos os seis remanescentes do título de 1991 foram contratados por clubes estrangeiros: Savicevic (Milan), Pancev (Internazionale), Belodedici (Valencia), Jugovic (Sampdoria), Mihajlovic (Roma) e Najdoski (Valladolid). A geração dourada sequer pôde se reunir novamente na seleção. Por conta do genocídio cometido pelos sérvios, a Iugoslávia perdeu sua vaga na Euro 1992 – substituída justamente pela campeã Dinamarca – e não participou das competições internacionais até as Eliminatórias da Copa de 1998.

E pior: parte da torcida que empurrava o Estrela Vermelha no Marakana se transformou no braço armado do governo de Slobodan Milosevic. A batalha em Zagreb contra os Bad Blues Boys era apenas um ensaio para a Delije. Sob o comando de Zeljko Raznatovic, o Arkan, um contingente que variava entre 500 e mil alvirrubros se tornou os ‘Tigres’, força paramilitar responsável por milhares de mortes durante a guerra. A milícia lutou tanto na Croácia quanto na Bósnia e Arkan foi indiciado por diversos crimes contra a humanidade. Assassinado em 2000, nunca foi julgado. Uma morte não apagou a mancha que deixou para sempre na história vitoriosa do Estrela Vermelha, o último vestígio de uma Iugoslávia multiétnica.

O que aconteceu depois?

Se o Estrela Vermelha não foi tão afetado pelo fim do comunismo, a guerra foi capital para o seu declínio. Não só pela debandada de jogadores, mas também pela crise financeira que se alastrou pela Iugoslávia e pelas sanções econômicas aplicadas pela ONU. Seguiram revelando talentos do calibre de Dejan Stankovic e Dejan Petkovic, mas os alvirrubros só conquistaram mais uma vez a liga na década de 1990. No início dos anos 2000, os Crveni conseguiram se restabelecer no topo do país, com cinco taças. No entanto, desde 2008, temporada após temporada os torcedores do Estrela precisam aturar o Partizan campeão. O clube tenta evitar o heptacampeonato dos rivais em 2013/14, que os deixaria com mais títulos nacionais.