O futebol belga atravessou anos dourados na década de 1980, representados principalmente por sua seleção, mas que respingaram em seus clubes. Os representantes do país nas competições europeias também eram temidos e acumulavam campanhas notáveis. Uma delas, concluída há exatos 30 anos, na decisão da Recopa Europeia de 1987/88. O KV Mechelen contava com um projeto ambicioso e montou uma equipe bastante sólida naqueles anos, encabeçada pelo técnico holandês Aad de Mos e logo estrelada pelo goleiro Michel Preud’Homme. Pois o ápice aconteceu em uma final contra o Ajax, diante de 40 mil torcedores em Estrasburgo, que coroou os malinois. Noite representativa a um dos clubes mais singulares a participar das finais europeias, e que hoje soa como realidade distante, justamente em uma temporada na qual o time terminou rebaixado à segunda divisão do Campeonato Belga.

Um novo e ambicioso mandatário

Fundado em 1904, o Kooninklijke Voetbal Mechelen chegou à divisão de elite do futebol belga no começo dos anos 20 e viveu seu primeiro auge duas décadas depois, quando levantou por três vezes o título nacional, em 1943, 1946 e 1948. O time da cidade de Mechelen, localizada na província de Antuérpia e também conhecida pelo nome em francês, Malines, ainda apresentaria campanhas consistentes até meados dos anos 50, mas daí em diante se apequenaria por um longo período, com campanhas discretas e rebaixamentos, até ressurgir para viver seu período mais celebrado em meados da década de 1980.

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Rebaixado no Campeonato Belga de 1982 com campanha fraca, que o deixou na lanterna, o clube experimentaria no mesmo ano o início de uma revolução com a chegada de John Cordier, empresário do ramo da informática e das telecomunicações, à presidência. Com apenas 41 anos de idade, Cordier era ambicioso, como indica seu ramo de atuação dentro daquele contexto de início dos anos 80. E o retorno à elite veio rápido, já na temporada seguinte, conquistando o título da segunda divisão de modo arrasador, oito pontos à frente do segundo colocado e somando com 21 vitórias em 30 jogos.

Na primeira temporada após o retorno, o clube conseguiu um bom sexto lugar. No entanto, na seguinte despencou para o 12º posto, provocando a saída do técnico Leo Canjels ainda durante a campanha. No entanto, nem a chegada de Ernest Kunnecke para comandar o time, nem o punhado generoso de reforços contratados – entre eles, o ex-líbero da seleção Walter Meeuws e o artilheiro do campeonato anterior Ronny Martens, ex-Gent – deu à equipe o impulso necessário num primeiro momento: com apenas sete vitórias em 34 jogos, os aurirrubros acabaram numa modesta 11ª colocação na temporada 1985/86, bem distante dos planos ambiciosos de John Cordier.

Chega o comandante ideal

Durante a temporada, numa tentativa de resgate da campanha, o presidente demitiu Kunnecke e trouxe o holandês Aad de Mos. Ex-técnico da base do Ajax, promovido ao time principal como interino, auxiliar e enfim oficializado no posto, Aad de Mos não só levantou títulos nacionais como supervisionou o desenvolvimento de jogadores como Marco van Basten e Frank Rijkaard. Porém, seu estilo rígido, muitas vezes incompatível com o ambiente no clube, acabaria provocando sua demissão a cinco rodadas do desfecho da temporada 1984/85 (em que os Ajacieden terminariam novamente com a taça).

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Mas, segundo Cordier, era o perfil de comandante do qual o Mechelen precisava. E para facilitar seu trabalho, outros reforços experientes foram contratados. O veterano Paul Theunis, 34 anos, que atuava na defesa ou no meio, veio do Beveren. O também versátil holandês Wim Hofkens chegou do Beerschot após cinco anos no Anderlecht. O meia-atacante Paul de Mesmaecker foi trazido do Molenbeek. O lateral Geert Deferm retornou de passagem pelo Antuérpia. E o zagueiro Leo Clijsters, titular da seleção belga quarta colocada na recém-encerrada Copa do Mundo do México, foi comprado do Waterschei.

Para um time grande, um grande goleiro

Mas o grande reforço para aquela temporada chegou com menos badalação, visto até com certa desconfiança pelo histórico recente, mas não tardaria a silenciar os críticos. Michel Preud’Homme surgira muito bem no Standard de Liège no fim dos anos 70, estreando pela seleção belga em 1979, num momento em que Jean-Marie Pfaff era o dono absoluto da posição. Assim como sucedera Christian Piot, lenda no clube, era cotado para ser o futuro goleiro dos Diabos Vermelhos dentro de algum tempo.

Foi convocado como reserva para a Eurocopa de 1980, mas apesar de levar o clube de Liège à final da Recopa europeia (perdida para o Barcelona no Camp Nou) em 1982, acabou de fora do Mundial daquele ano. Pior mesmo viria dois anos depois, quando foi um dos envolvidos no caso de suborno ao pequeno Waterschei num jogo da última rodada da liga, que garantiria o título belga ao Standard. Suspenso por seis meses, não apenas perdeu a vaga na Eurocopa de 1984 como o posto de titular do clube para outro nome em ascensão, o futuro reserva da seleção Gilbert Bodart.

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Amargando um quase ostracismo no clube e descartado da seleção, topou sair para o Mechelen. Foi a salvação de sua carreira. Além dos reforços trazidos para aquela temporada 1986/87, o elenco já contava com nomes importantes como o trio de holandeses formado pelo zagueiro Graeme Rutjes, o meia Erwin Koeman e o atacante Piet Den Boer, mais o ala Koen Sanders e o ponta Albert “Bert” Cluytens, outro com passagem pela seleção belga. Walter Meeuws também seguiria por mais um ano antes de se aposentar.

A máquina começa a ser azeitada

A ascensão foi imediata: o time brigou palmo a palmo com o poderoso Anderlecht (então bicampeão) pelo título, perdendo por apenas dois pontos. Mas ficara dez à frente do terceiro colocado Club Brugge. Teve ainda a defesa menos vazada da competição, com apenas 18 gols sofridos em 34 jogos. O consolo viria em 14 de junho daquele ano, com a conquista da primeira Copa da Bélgica de sua história ao vencer o RFC Liège por 1 a 0, em final disputada no estádio do Anderlecht (Constant Vanden Stock), com um gol de Piet Den Boer. Seria o passaporte para a estreia dos aurirrubros em competições europeias.

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Para suprir as baixas com a aposentadoria de Walter Meeuws e a saída de Ronny Martens (artilheiro da equipe na liga ao lado de Piet Den Boer), que voltou ao Gent, o clube trouxe bons nomes. O atacante israelense Eli Ohana veio do Beitar Jerusalem. De ascendência congolesa, o ponta Pascal de Wilde foi descoberto no Harelbeke, da segunda divisão. Já o meia Marc Emmers foi resgatado do Waterschei, clube que vivera ótima fase em meados da década, chegando à semifinal da Recopa, mas despencara para a terceira divisão em 1987 e estava prestes a se fundir com o Winterslag para formar o Racing Genk.

Na liga belga, o Mechelen praticamente repetiu a trajetória do ano anterior: terminou outra vez com o vice-campeonato, agora dois pontos atrás do Club Brugge. Teve novamente a defesa menos vazada, mas a vantagem para o terceiro colocado (desta vez o Antuérpia) foi definida apenas no saldo de gols. Mas marcante mesmo seria a primeira temporada europeia do clube em sua história. Para isso, já reunia um time com qualidade e caráter suficiente para uma grande campanha.

Aos 28 para 29 anos, Michel Preud’Homme começava enfim a viver seu auge no gol, com intervenções decisivas graças a seus excepcionais reflexos, elasticidade, firmeza e posicionamento. Na defesa, Leo Clijsters (pai da tenista Kim) atuava atrás da linha, como líbero, tendo o holandês nascido na Austrália Graeme Rutjes de zagueiro central para o combate mais direto. Koen Sanders era um lateral-direito versátil. Já a esquerda teve como donos improvisados ao longo da campanha o ponta Albert Cluytens (que atuou mais vezes) e o meia alemão Joachim Benfeld, passando na reta final ao especialista Geert Deferm.

No meio, o tripé formado por Wim Hofkens (pela direita), Marc Emmers (pelo centro) e Erwin Koeman (pela esquerda) combatia, criava e, às vezes, se projetava. Hofkens costumava inverter os papéis com Sanders na lateral. Emmers, que só estreou nas quartas de final (Paul Theunis vinha ocupando a posição), tanto podia ajudar como uma espécie de líbero à frente da zaga como aparecer na área para servir e finalizar. E Koeman, o mais técnico dos três, também se sentia à vontade atuando como ala ou ponta de lança, mais adiantado na ligação com o ataque por dentro.

Na frente, Pascal de Wilde avançava sempre em alta velocidade pelas pontas (especialmente a direita), enquanto Eli Ohana atuava puxando a marcação e abrindo espaços nas defesas para o grandalhão Piet Den Boer, centroavante de muita força e ótimo cabeceio. Velocidade, força, versatilidade, resiliência defensiva, inteligência tática e muita disciplina eram as armas dos belgas para a empreitada.

A campanha inesquecível

O primeiro adversário seria o complicado Dinamo Bucareste, de Dorin Mateut e Rodion Camataru. Na ida, num jogo muito pegado no Achter de Kazerne, especialmente por parte dos romenos, o Mechelen venceu com um gol solitário de Piet Den Boer, que se aproveitou de uma furada na defesa dos visitantes e encheu o pé. Na volta, os belgas encaminharam a classificação com tranquilidade ao vencerem de novo, com um gol de Hofkens e outro de Den Boer.

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Nas oitavas, foi a vez de enfrentar o Saint Mirren, surpreendente vencedor da copa escocesa de 1987 ao derrotar o Dundee United na prorrogação na decisão. O time de Paisley parecia querer aprontar ao segurar um empate sem gols no Achter de Kazerne. Mas na volta Eli Ohana tratou de reverter a situação com um gol em cada tempo: primeiro na técnica, passando por três marcadores e chutando com força, e depois com sorte e oportunismo, escorando para as redes o rebote de um chute na trave.

Após a virada do ano chegaram as quartas de final, e um outro time cascudo da antiga Cortina de Ferro cruzou o caminho dos belgas. Campeão soviético em 1982, o Dinamo Minsk despontava como força no futebol do país a partir de meados daquela década e tinha como destaque o meia Sergei Aleinikov (que mais tarde seria vendido à Juventus), além de outros nomes com experiência de seleção como Andrei Zygmantovich, Sergei Gotsmanov e Georgi Kondratiev.

Em temporadas anteriores, a equipe bielorrussa já havia chegado entre os oito melhores tanto na Copa dos Campeões quanto na Copa da Uefa. Naquela Recopa, havia deixado a Real Sociedad pelo caminho na fase anterior. E também parecia pretender dificultar as coisas no primeiro jogo, na Bélgica. Até que um gol chorado de Pascal de Wilde aos 41 minutos da etapa final, após confusão na área, colocou os aurirrubros numa situação mais confortável para a partida de volta.

Em 15 de março de 1988, com o gramado do estádio do Dinamo coberto de neve, Eli Ohana abriu o placar numa escapada em contra-ataque na metade do primeiro tempo. O time soviético empataria na etapa final com um gol de Aleksandr Kisten, mas, com a tarefa dificultada pelo tento sofrido em casa, não foi páreo para a resiliente e bem organizada defesa belga.

Nas semifinais, o time de Aad de Mos cruzou com outra sensação daquela Recopa. Vice-campeã da Copa da Itália na mesma temporada em que havia sido rebaixada na Serie A do Calcio, a Atalanta herdou a vaga na competição europeia devido à dobradinha feita pelo Napoli de Diego Maradona. Treinada por Emiliano Mondonico, não se sentiu inferiorizada com o status de equipe de segunda divisão e fez estragos no torneio continental. O maior deles aconteceu na fase anterior, ao eliminar o Sporting, de Portugal.

Com um elenco de jogadores rodados no futebol italiano, mais o destaque importado do meia sueco Glenn Peter Strömberg, os nerazzurri não se intimidaram com a atmosfera do acanhado Achter de Kazerne. Logo no início da partida, um minuto depois de Eli Ohana abrir o marcador para os donos da casa, o próprio Strömberg recebeu passe de Eligio Nicolini e empatou. O que não houve como evitar foi o surgimento de Piet Den Boer como herói mais uma vez, a sete minutos do fim, finalizando para as redes em meio a uma enorme confusão na área, em jogada originada de uma cobrança de falta.

Em Bergamo, a classificação belga esteve ameaçada quando o árbitro apontou pênalti para a Atalanta num lance em que a bola tocou o cotovelo de Geert Deferm, e Oliviero Garlini converteu, colocando os italianos em vantagem. Autor de vários milagres no primeiro tempo, Michel Preud’Homme seria decisivo no começo da etapa final, ao ir buscar uma cabeçada de Daniele Fortunato quase no ângulo.

A reação belga começaria aos 11 minutos, num gol de placa de Graeme Rutjes, emendando de virada um sem-pulo sensacional após rebatida da defesa. A dez minutos do fim, viria a confirmação da passagem à final: Emmers se deslocou na diagonal e recebeu passe na esquerda da área da Atalanta. Depois de limpar dois marcadores, chutou rasteiro. A bola quicou na frente do goleiro Piotti e foi para as redes, calando o Estádio Comunale. O sonho da Atalanta morria, mas o do Mechelen estava bem vivo.

A decisão

Na final, porém, o time não escaparia de enfrentar a camisa mais pesada de todas que encontrara até ali. A partida contra o Ajax também levantava mais um punhado de confrontos menores, mas interessantes: um novo capítulo da rivalidade entre belgas contra holandeses; os holandeses do Mechelen contra um gigante de seu próprio país; Aad de Mos contra seu ex-clube – tudo isso tendo como pano de fundo o novo impulso tomado pelo futebol holandês após passar toda a década de 1980 num plano inferior em relação ao belga (sofrendo inclusive duas eliminações de Copa do Mundo para os Diabos Vermelhos).

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Havia também a necessidade dos Ajacieden, atuais vencedores do torneio, de mostrar que não sentiriam as perdas do técnico Johan Cruyff (que deixara o cargo em janeiro, seguindo para o Barcelona), do zagueiro Frank Rijkaard (vendido ao Sporting lisboeta e rapidamente emprestado ao Zaragoza) e do atacante Marco Van Basten (negociado com o Milan), fundamental na conquista da taça do ano anterior, marcando inclusive o gol do título sobre o Lokomotive Leipzig em Atenas.

Até chegar à decisão, o Ajax passara sem dificuldades por Dundalk, Hamburgo, Young Boys e um estelar Olympique de Marselha (de Papin, Giresse, Allofs, Abedi Pelé e outros grandes nomes). E sua defesa só havia sido vazada no jogo da volta contra os franceses: depois de esmagá-los em pleno Vélodrome por 3 a 0 na ida e abrir o placar na volta, cochilou e tomou dois gols que não atrapalharam a classificação.

A França também seria o palco da final: o Stade de la Meinau, em Estrasburgo, que na Copa de 1938 assistira a Leônidas da Silva marcar cinco vezes contra a Polônia na primeira fase do torneio, havia sido recentemente renovado para a disputa da Eurocopa de 1984. Curiosamente, era a segunda vez que uma outra cidade francesa que não Paris recebia uma decisão da Recopa: dois anos antes, em Lyon, o Dynamo Kiev havia derrotado o Atlético de Madrid por 3 a 0 no estádio Gerland.

Enquanto o Mechelen entrava em campo mantendo seu esquema 1-3-3-3, com apenas uma alteração no time que havia derrotado a Atalanta em Bérgamo (a volta de Piet Den Boer no comando do ataque no lugar de Paul De Mesmaeker), o Ajax, dirigido interinamente por Barry Hulshoff, levava para o jogo sete titulares que haviam iniciado a final do ano anterior (o goleiro Stanley Menzo, os defensores Frank Verlaat e Jan Wouters, os meias Aron Winter e Arnold Mühren e os pontas John Van’t Schip e Rob Witschge).

O jogo já havia começado um tanto nervoso, com faltas duras, e sem muitas chances de gol quando, aos 16 minutos, viria um dos lances capitais da partida. Na intermediária do Mechelen, Marc Emmers recebeu uma bola recuperada pela defesa e arrancou iniciando o contra-ataque. Tabelou com Den Boer e avançou para receber na frente. Entraria sozinho na área, cara a cara com Menzo, mas foi bloqueado por um carrinho alto por trás de Danny Blind, num desesperado último recurso, perto da meia-lua.

Diante da revolta de alguns jogadores do Mechelen (Pascal de Wilde era o mais irado com os adversários), o árbitro alemão-ocidental Dieter Pauly tomou uma decisão enérgica, mas, no fim das contas, correta: mostrou o cartão vermelho direto a Blind. Com um a menos, o Ajax precisaria se reorganizar, enquanto o Mechelen partiria para pressão intensa, aproveitando-se do momento. Como numa descida rápida de De Wilde pela ponta esquerda, cruzando rasteiro para Den Boer girar e chutar. Menzo salvou o tiro, mas no rebote precisou da ajuda providencial de Peter Larsson, chegando antes da cabeçada de Emmers.

Pelo fim do primeiro tempo, os Godenzonen conseguiram equilibrar as ações e chegaram a criar chances, mas antes do intervalo foi o Mechelen quem andou bem perto do gol novamente, numa cabeçada forte e colocada de De Wilde, espalmada brilhantemente por Menzo. E na volta para a etapa final, o time belga logo abriria a contagem. Aos sete minutos, Ohana recebeu a bola no lado esquerdo da área, perto da linha de fundo, dançou na frente de Verlaat e cruzou. Piet Den Boer surgiu como um raio na primeira trave e cabeceou surpreendendo a defesa holandesa, abrindo o placar.

Nos minutos seguintes, o Ajax lançou mão de um jovem muito talentoso que já havia entrado na final anterior, chamado Dennis Bergkamp. Mas nem ele, nem nenhum de seus companheiros conseguiram vencer a aplicação defensiva do time belga e, principalmente, um paredão chamado Michel Preud’Homme. Foi uma sucessão de defesas impressionantes. Mas a maior delas veio num sem-pulo de John Bosman dentro da área, quando o banco do Ajax já se levantava para comemorar o gol.

Após a consagração europeia

A conquista do torneio colocaria definitivamente o clube entre os principais do futebol belga naquele momento e, portanto, também como uma equipe a ser levada em conta pelos gigantes europeus. Na temporada seguinte, além de tirar John Bosman do próprio Ajax e levantar o título nacional de maneira arrasadora, pondo fim a um jejum de 41 anos, o time levantaria a Supercopa, batendo o PSV, vencedor da Copa dos Campeões, por 3 a 0 em Mechelen antes de perder pelo placar mínimo em Eindhoven.

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Também chegaria novamente longe na Recopa, depois de deixar pelo caminho o Anderlecht num duelo nacional e o Eintracht Frankfurt. Cairia apenas para a Sampdoria de Mancini, Vialli e Cerezo, perdendo em Gênova depois de ter vencido no Achter de Kazerne. Mas perderia Aad de Mos ao fim da campanha, contratado pelos Mauves para tentarem recuperar a hegemonia no país. Outro holandês, Ruud Krol, seria seu substituto, mas, inexperiente na função, não duraria muito, cedendo o posto a Fi Van Hoof.

Já em 1989/90, em sua estreia na Copa dos Campeões, o time eliminaria com goleadas o Rosenborg e o Malmö, antes de cruzar com o lendário Milan de Arrigo Sacchi nas quartas. Seguraria o 0 a 0 após 180 minutos de futebol em Mechelen e no San Siro, com atuações monstruosas de Michel Preud’Homme. Mas no segundo tempo da prorrogação, os rossoneri marcariam duas vezes (com Marco Van Basten e Marco Simone) para avançar rumo ao bicampeonato.

Naquelas temporadas e pelas próximas duas ou três, o time aos poucos incorporaria novos bons jogadores, muitos deles tendo no Mechelen o impulso para uma carreira internacional. Passaram pelo clube nomes de seleção belga como o zagueiro Philippe Albert, o ala Bruno Versavel, os atacantes Francis Severeyns e Marc Wilmots, além de talentos estrangeiros, caso dos suecos Klas Ingesson e Kennet Andersson. Porém, na virada da década, a Telindus, empresa de John Cordier, começou a enfrentar dificuldades financeiras, o que se refletiu no time, obrigado a vender seus astros aos poucos, principalmente para o Anderlecht.

O Mechelen ainda fez campanhas dignas na liga belga e se classificou para as copas europeias de maneira consecutiva até a temporada 1992/93. Em 1992, Cordier anunciou que deixaria a presidência do clube, o qual nunca mais conseguiria retornar a aquele patamar. Outro marco do fim da era de ouro foi a saída de Michel Preud’Homme para o Benfica após a Copa do Mundo de 1994, na qual foi eleito o melhor goleiro. Três anos depois, com um elenco bem modesto, o clube terminaria a liga em 19º, sendo rebaixado.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo, no Mundo Rubro-Negro e no It’s a Goal, página especialmente voltada à história do futebol inglês.